Não faz muito tempo, a revista americana Newsweek publicou uma reportagem sobre o ex-presidente Bill Clinton com o seguinte título: How can we miss you if you never go away? (Como vamos sentir sua falta se você nunca vai embora?) Na semana passada, os brasileiros tiveram um pouco dessa sensação. Pela segunda vez em 45 dias, Clinton pousou ? em clima de merecida aposentadoria ? seu charme e seus mais de 100 quilos em território nacional, desta vez para uma visita de três dias cujo propósito era uma palestra na Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo. Na bagagem, além das camisetas pólo e dos charutos habituais, um amigo famoso: o ator inglês Anthony Hopkins, que não conhecia o Brasil e aproveitou a carona. Como da outra vez, Clinton criou uma festa ao redor de si: tocou saxofone, jogou golfe e encantou os anfitriões um a um, da carioca Andréa Tancredo, que lhe vendeu dois biquínis em Ipanema, à socialite Celita Procópio de Carvalho: ?Ele é lindo! Sou casada, mas não estou morta.? Clinton não disse nada que vá ficar na história nem cometeu qualquer gesto, bom ou mau, que tornasse essa visita inesquecível. Mas foi um convidado simpático e inteligente e fez o que melhor sabe: entreter e deixar-se entreter. Um culto à dolce vita.

?Ele é fantástico?, derreteu-se a septuagenária Alice Scarpa, simbolizando o entusiasmo de várias gerações de mulheres presentes à festa oferecida a Clinton na noite de terça-feira 29. Para surpresa dos 200 convidados de Celita, presidente da Faap, Clinton arrebatou o saxofone, tocou canções de Cole Porter e acompanhou a (linda) cantora Marcia Lopes no Samba do Avião, de Tom Jobim. O arrebatamento foi tamanho que um empresário irritou-se com o assanhamento das senhoras brasileiras ? ou pelo menos da sua vanguarda comportamental. ?É uma vergonha?, disse o industrial cinqüentão. ?Ficavam todas dando em cima dele e do Hopkins. Eles não sabiam mais o que fazer.? Quando em igualdade numérica, Clinton não se intimidou. Conta Cláudio Lembo, presidente do PFL paulista, que na primeira recepção da turnê, na noite anterior, o ex-presidente entreteve ?por bem mais de meia hora? a prefeita Marta Suplicy, de São Paulo. A conversa começou trivial, sobre uma peça de tapeçaria brasileira, e aprofundou-se animadamente em torno das andanças do ex-presidente pelo Brasil. Aos poucos, a rodinha ao redor dos dois foi se desfazendo até que restaram a socialista e o democrata. Dali, ambos seguiram para a mesa de jantar, onde Clinton comeu pato em companhia de velhos conhecidos como o diplomata Paulo Tarso Flecha de Lima e o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia. Bill e Marta pouco se falaram. Entre uma e outra garfada, ele viu-se obrigado a responder perguntas variadas ? do futuro da China à crise argentina ? e deixou-se falar demais, cansando pelo menos um conviva. ?Parecia político em campanha?, resumiu um dos comensais ? político. Essa queixa isolada não refletiu o sentimento dominante. ?Ele é brilhante?, resumiu Lima.

Dono de um QI de 182, Clinton foi o presidente americano mais inteligente dos últimos 50 anos. Para suplantá-lo numa boa conversa de mesa, seria necessário somar o QI do atual presidente Bush (91, o mais baixo que se tem registro) com o QI 94 de seu pai, o ex-presidente George Bush, lanterninha da lista até a eleição do filho. A graça social de Clinton só mudou de textura quando Lampreia aproveitou para reclamar das restrições não-tarifárias dos EUA
aos produtos brasileiros. ?O presidente dos Estados Unidos
sofre muitas pressões internas e cabe a cada país ver o que
é de seu interesse?, encerrou.

Por volta de 0h30 ele deixou a recepção e rumou para o Hotel Renaissance. Em vez de subir à suíte presidencial do 5º andar, esticou a noite no Havana Club, um bar instalado no mezanino e freqüentado por fumantes de charutos – sempre eles. Ali, degustou um par de cubanos, abateu doses de uísques e tratou mais uma vez com gentileza os que se atreveram a driblar os seguranças. No dia seguinte, o da aula magna na Faap, ele se dedicou a uma das coisas que mais lhe dá prazer desde que deixou o comando da maior economia do mundo: jogar golfe. Chegou de helicóptero às 10 horas da manhã à fazenda do empresário Paulo Malzoni, em Itatiba, interior de São Paulo, e aproveitou o dia de sol até as 17 horas. Às 19h50, vermelho como um camarão, finalmente falou por mais de uma hora a 400 estudantes. Entre eles, nenhum negro ? algo estranho para um americano cujo escritório fica no bairro do Harlem, em Nova York. Quase não precisou ler o discurso, que tratou de educação, saúde, meio ambiente e globalização. Clinton não poupou elogios à nação anfitriã. ?O Brasil tem de ser imitado por outros países?, disse sobre o programa de bolsa-escola. No hotel, encarou mais uma bateria de charutos no Havana Club. Antes de voltar para os EUA, na quarta-feira 29, foi a Foz do Iguaçu conhecer as cataratas e a hidrelétrica de Itaipu. Sem ironia, aproveitou o cenário para dizer que FHC era a melhor pessoa para conduzir o País durante a crise energética. Enfim, foi um cavalheiro até o fim da viagem. E o melhor é que ninguém precisa ficar com saudade: quando menos se esperar, Clinton, o entertainer, estará de volta.