Quem será o próximo rei da tecnologia? Quem comandará o mercado que permitiu ganhos de produtividade jamais vistos em todas as áreas da economia e impulsionou o crescimento mundial dos últimos anos? Com o anúncio da saída de Bill Gates do dia-a-dia da Microsoft, feito em 15 de junho, o posto mais importante do mundo dos negócios está aberto. E as apostas pelo sucessor ao trono começam a ser feitas antes mesmo de Gates ter tirado a coroa. É certo que o homem que definiu a revolução do PC se afastará da Microsoft apenas em 2008. Até lá, continuará a ocupar o cargo de chief software architect, algo como arquiteto-chefe dos programas da empresa. Mas enquanto Bill Gates não se volta apenas ao conselho da Microsoft e às atividades filantrópicas da Fundação Bill & Melinda Gates, como anunciou que fará, as cartas são lançadas à mesa.

Muitos especialistas acreditam que jamais haverá novamente uma pessoa como ele no comando da tecnologia mundial. O poder de Gates foi conseguido à medida em que a Microsoft conseguiu manter milhões de consumidores cativos de seu programa Windows, em um modelo de negócios semi-monopolista. Gates também usou o poder de fogo da Microsoft para se apropriar de invenções desenvolvidas por outras companhias, como interfaces gráficas e programas navegadores. Mas à medida que a era do PC cede espaço à Idade da Internet, o controle da tecnologia se pulveriza e o número de candidatos ao trono aumenta. O próximo rei pode estar entre as empresas gigantes que já se dedicam ao comércio ou mídia eletrônicos nos Estados Unidos. Ou entre os dedicados estudantes dos países emergentes como Índia e China. O primeiro na linha do trono foi indicado pelo próprio Gates. Trata-se de Ray Ozzie, um dos três executivos que dividirá nos próximos dois anos o cargo de guru tecnológico com o fundador da Microsoft. Criador do programa de colaboração Lotus Notes (que antecipava idéias de compartilhamento e foi mais ou menos atropelado pela Net), Ozzie entrou na empresa em abril do ano passado, quando sua desenvolvedora Groove foi adquirida pela Microsoft. No novo cargo, ele assumirá o coração intelectual da maior empresa de software do mundo. Mas muitas das atuais funções de Gates serão abraçadas por Steve Ballmer, presidente da empresa desde 2000.

É por isso que a principal aposta dos analistas de mercado para a função de Reis da Tecnologia recai sobre Larry Page e Sergey Brin, os fundadores do Google. Enquanto a ferramenta de buscas se transforma numa máquina de ganhar dinheiro, a empresa se move muito além do negócio de mídia e links patrocinados, lançando novidades praticamente todas as semanas. Elas avançam em áreas dominadas pela Microsoft, como processadores de textos e planilhas eletrônicas acessadas e arquivadas na rede, sem a necessidade de softwares proprietários. Mesmo, porém, que o Google busque tomar a liderança do mercado, do mesmo modo que a Microsoft o fez anos atrás ao ultrapassar a IBM, seu poder não é o mesmo. Não há hoje, seja em sites de busca, de relacionamento, de músicas ou vídeo, ninguém que tenha o mesmo domínio da Microsoft. Isso abre a oportunidade para um novo tipo de líder ? ou líderes ? do mercado de tecnologia. O criador do site de leilões eBay, Pierre Omidyar, percebeu o potencial da rede ao permitir que as pessoas pudessem vender e comprar em qualquer lugar do mundo, para qualquer lugar do mundo. E deu outra prova de ser um visionário ao adquirir o maior prestador de serviços de telefonia pela internet, o Skype. Outros prováveis candidatos ao posto de titã da tecnologia também avançam pela rede, como Charlie Giancarlo, chefe de desenvolvimento da Cisco e potencial sucessor do presidente John Chambers. Outro nome é o de Jonathan Schwartz, que acaba de ser indicado presidente da Sun Microsystems, empresa que abriu os códigos secretos de seus programas para desenvolvedores em todo o mundo. O futuro líder da tecnologia também pode vir de áreas completamente inesperadas. Celulares hoje também cumprem o papel de navegação na internet e recepção de programas de TV. Com um detalhe: este ano devem ser vendidos 600 milhões aparelhos em todo o mundo, o triplo do número de PCs. Tais volumes significam muito para Paul Jacobs, presidente da Qualcomm, fabricante de chips para telefonia sem fio. ?A internet sem fio terá maior impacto no mundo do que a internet feita por meio de cabos?, diz ele. O novo comandante da tecnologia poderá vir não só de novas áreas do mundo dos negócios, como também de outras regiões geográficas. Empresas chinesas e indianas têm a seu favor os gigantescos mercados internos e a proximidade com o novo celeiro de usuários. O site mais popular de buscas na China, por exemplo, não é o Google ou o Yahoo, mas sim o Baidu, fundado por Robin Li e que abriu seu capital no ano passado. O endereço que os chineses mais usam na hora dos leilões virtuais é o Alibaba, criado por Jack Ma, que também comprou o Yahoo local. Pelo jeito, o trono de Bill Gates será dividido entre muitos. No máximo, haverá no futuro diversos príncipes da tecnologia. Caberá a eles partilhar o universo em expansão da tecnologia digital.

Candidatos a rei da tecnologia
 

Omidyar, do eBay:
? Viu o potencial do comércio eletrônico ao criar o maior site de leilões do mundo e comprou o Skype, líder em telefonia pela internet

Brin e Page, do Google:
? À medida que o site de buscas se torna uma máquina de ganhar dinheiro, a dupla lança novidades em áreas dominadas pela Microsoft, como a de processadores de textos e planilhas acessadas pela rede
 
   

Giancarlo, da Cisco:
? Potencial sucessor de John Chambers, deve assumir empresa que avança cada vez mais em soluções para a rede

Jacobs, da Qualcomm:
? O chefe da fabricante de chips para celulares aposta que o impacto da internet móvel será maior do que o causado pela fixa
Ma, do Alibaba:
? Criador do maior site de comércio eletrônico da China, comprou o Yahoo! naquele país e cresce sem parar no maior mercado do mundo

US$ 624 bilhões foi quanto movimentou o mercado de serviços de tecnologia em 2005, segundo o Gartner Group