02/05/2011 - 22:48
É possível que o momento do anúncio da morte de Osama Bin Laden tenha sido escolhido para promover a reabilitação do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na opinião pública, avalia o doutor em direito internacional Salem Nasser, especialista em Oriente Médio e professor da Fundação Getúlio Vargas. ‘Ela certamente resgata um pouco Obama de uma acentuada queda de popularidade e poderá ser usada como um dos maiores troféus que um presidente americano poderia exibir’, diz .
Segundo Nasser, dadas as circunstâncias do anúncio da morte Bin Landen, não faltarão teses de que o líder da Al-Qaeda já estivesse morto, ou de que continua vivo, ou de que os Estados Unidos já sabiam do seu paradeiro e só agora resolveram agir.
No entanto, Nasser não acredita em um aumento sensível dos riscos de novos atentados terroristas. ‘O discurso oficial ocidental nos diz que há grupos no mundo inteiro preparando-se permanentemente para levar adiante ataques contra sua população ou seus interesses e que a vigilância deve ser permanente. Sendo assim, não parece haver muito espaço para piora, afora no primeiro momento, em que pode haver uma vontade especial de vingança imediata’, aposta.
Na opinião do especialista, os últimos acontecimentos no mundo árabe continuarão a afetar os mercados e especialmente o petróleo por algum tempo. ‘A onda de revoltas e de possíveis mudanças radicais está longe de terminar. A incerteza sobre o que ocorrerá na Líbia, em particular, influenciará o preço do petróleo’, destaca. ‘A notícia sobre Bin-Laden tirará, como já está tirando, um pouco da cobertura das manifestações e das revoltas, assim como talvez, apenas talvez, traga um fato novo que arrefeça um pouco o ânimo das massas’, completa.
Leia a entrevista:
DINHEIRO- A morte de Bin Laden agitou as bolsas mundiais e provocou a queda do petróleo nesta segunda-feira. Este efeito deve permanecer nas próximas semanas?
Salem Nasser – É difícil prever com competência o comportamento dos mercados. Ao que parece, especialistas igualmente capazes antecipam cenários diversos. As previsões dependem de outras variáveis igualmente incertas. Quem acredita que o desaparecimento de Bin Laden não muda muito na estrutura e nas ações da Al-Qaeda provavelmente crê que os efeitos sobre o mercado sejam de curta duração, pois os riscos permanecem os mesmos. Quem acredita que com a morte de Bin-Laden haverá uma melhora sensível na sensação de segurança dos Estados Unidos e de países ocidentais e uma diminuição real dos riscos pode antever um quadro positivo mais longo.
Como a questão do timing da eliminação de Bin-Laden ou da notícia (dadas as circunstâncias, não faltarão teses, cuja plausibilidade é difícil julgar agora, de que Bin-Laden já estivesse morto, ou de que continua vivo, ou de que os Estados Unidos já sabiam do seu paradeiro e só agora resolveram agir, etc.) será objeto de análise, não se pode eliminar a possibilidade de que o momento tenha sido escolhido por várias razões, a reabilitação de Obama na opinião pública e, quem sabe, um estímulo aos mercados.
Os mercados já foram afetados nos últimos meses por conflitos em regiões produtoras de petróleo do Oriente Médio e do Norte da África, que geraram preocupação sobre problemas com a oferta da commodity. Como será que Síria, Líbia e Iêmen vão reagir a este novo cenário?
De fato, os últimos acontecimentos no mundo árabe continuarão a afetar os mercados e especialmente o petróleo por algum tempo. A onda de revoltas e de possíveis mudanças radicais está longe de terminar. A incerteza sobre o que ocorrerá na Líbia, em particular, influenciará o preço do petróleo. Quanto ao efeito da notícia sobre os eventos correntes nesses vários países e em outros da região, em que os movimentos de mudança estão ou em banho-maria ou são menos noticiados, parece-me que o mais evidente e imediato será o de desviar as atenções. A notícia sobre Bin-Laden tirará, como já está tirando, um pouco da cobertura das manifestações e das revoltas, assim como talvez, apenas talvez, traga um fato novo que arrefeça um pouco o ânimo das massas.
Qual será o efeito da captura e morte de Bin Laden no mercado acionário brasileiro e no preço do petróleo por aqui?
Acho que os nossos mercados tendem a seguir os movimentos do mercado mundial. Não vejo razão para que aqueles se destaquem especialmente destes.
Ao longo dos últimos dez anos, desde os atentados de 11 de setembro de 2001, a liberdade de Bin Laden havia se transformado em uma chaga para os serviços de inteligência americanos e uma dor de cabeça para o governo em Washington. O que a morte de Bin Laden representa para o futuro político do presidente Obama?
Na verdade, no mundo dos serviços de inteligência e diante dos cenários sempre obscuros em que vêm envoltos os eventos desse tipo – já há dúvidas sobre como ele teria morrido, a foto teria sido forjada, e o corpo foi jogado no mar! – é sempre difícil saber o que se passava de fato. A liberdade de Bin-Laden, ao mesmo tempo em que podia ser vista como uma derrota crônica e frustrante para os Estados Unidos, podia ser em instrumento eficaz para justificar o permanente estado de alerta, a mobilização contínua das forças militares, a continuidade das ocupações no Iraque e no Afeganistão. A morte de Bin-Laden aparece como um evento cujo timing foi bem pensado. Ela certamente resgata um pouco Obama de uma acentuada queda de popularidade e poderá ser usada como um dos maiores troféus que um presidente americano poderia exibir.
Até que ponto a morte do líder da Al Qaeda pode interferir nas relações internacionais entre Estados Unidos e os países árabes? (A morte de Bin Laden foi recebida quase em silêncio pelos países árabes, incluindo a Arábia Saudita. Na metade da tarde desta segunda-feira, o único comentário oficial da Península Arábica veio do Iêmen, onde uma autoridade, falando sob condição de anonimato, disse esperar que a morte do líder da Al Qaeda ?arranque o terrorismo de todo o mundo?.)
O silêncio é compreensível. Primeiro, todos os países árabes estão vivendo momentos de grande agitação e tensão política, então todo cuidado é pouco. Em seguida, mesmo não sendo simpáticos a Bin-Laden e mesmo que intimamente possam festejar a sua morte, as lideranças ou os regimes árabes se sentem compelidos a não elogiar o que, afinal de contas, é uma operação de assassinato, feita por americanos em território de um país muçulmano, etc. Em outras palavras, mesmo discordando de Bin-Laden ou suas ideias, a opinião pública árabe e muçulmana não admira os métodos americanos.
O senhor acredita numa possível revanche dos terroristas da Al-Qaeda contra os Estados Unidos ou mesmo contra outros países que declarem apoio ao governo norte-americano?
Não acredito em um aumento sensível dos riscos. O discurso oficial ocidental nos diz que há grupos no mundo inteiro preparando-se permanentemente para levar adiante ataques contra sua população ou seus interesses e que a vigilância deve ser permanente. Sendo assim, não parece haver muito espaço para piora, afora no primeiro momento, em que pode haver uma vontade especial de vingança imediata. Mesmo assim, não me parece que a Al-Qaeda tenha meios de incrementar especialmente a ameaça. É claro que Estados Unidos e outros países ocidentais estão envolvidos em várias campanhas militares no mundo árabe e muçulmano e ali participam de um processo de violência mútua com grupos vários. É possível que nesses lugares as forças estrangeiras sofram tentativas de resposta mais intensas.
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