Entre o dia 10 de outubro de 2025 e o dia 5 de fevereiro de 2026, o Bitcoin apresentou uma retração de cerca de 48%, saindo de mais de US$ 121 mil para menos de US$ 70 mil. Considerando somente os últimos dias, de 31 de janeiro a 5 de fevereiro, o tombo foi da ordem de 25%.

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O derretimento do Bitcoin ocorre após um ano de 2025 marcado por euforia, recordes históricos e discursos políticos favoráveis – incluindo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que animou os investidores em criptomoedas ao falar que queria tornar o país um ‘hub’ da classe de ativos e se mostrou amigável às iniciativas do ramo.

Mas neste começo de 2026, a cotação do Bitcoin devolveu praticamente todos os ganhos obtidos após a reeleição de Trump.

Dados da consultoria Elos Ayta mostram que o retorno mensal do Bitcoin, em reais, mostra que o desempenho de fevereiro, em apenas cinco dias, já figura entre os episódios mais negativos da série histórica recente. Considerando a parcial de fevereiro, trata-se do terceiro pior mês já registrado desde janeiro de 2020, atrás apenas de maio de 2021, quando o criptoativo despencou 39,40%, e de junho de 2022, com queda de 29,54%. Veja cotações.

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Elos Ayta Consultoria

“É importante destacar que fevereiro ainda não está encerrado: a variação considera exclusivamente o desempenho até o dia 5, enquanto todos os demais meses da análise correspondem a períodos fechados. Ainda assim, a intensidade da queda já coloca o mês entre os piores da história recente do ativo. Foram cinco meses seguidos de queda, um evento raro, mas não inédito”, diz a consultoria.

O que aconteceu?

O movimento reacendeu dúvidas antigas sobre o papel do ativo em ciclos de aperto monetário e expôs fragilidades que vão além do mercado cripto em si.

Em outras palavras: o tombo não aconteceu no vácuo.

O cenário global tem mostrado investidores mais avessos ao risco, com uma correção relevante no setor de tecnologia e a uma mudança clara de humor entre investidores institucionais – que há algum tempo tem colocado Bitcoin na carteira através de ETFs e pesado a mão em compras, algo que não era visto e nem possível em anos anteriores.

Deste modo, a queda não tem um único catalisador negativo, mas mostra uma reação do mercado a uma cadeia de fatores extensa e que mostra algum nível de retroalimentação entre as variáveis –  indo da política monetária americana à dinâmica dos ETFs, passando pelo comportamento das empresas que transformaram criptomoedas em estratégia central de negócio.

“A queda do Bitcoin, nesse contexto, funciona como um termômetro da aversão ao risco global. Em momentos de maior incerteza, investidores tendem a reduzir exposição a ativos mais voláteis e buscar posições mais defensivas, o que afeta diretamente o mercado cripto”, analisa Rony Szuster, Head de Research do Mercado Bitcoin.

“Além disso, há evidências de venda por parte de investidores de longo prazo, grupo que costuma atuar de forma mais estratégica e cuja movimentação tem impacto relevante sobre o preço. Quando esses participantes começam a vender, o efeito tende a ser duplo: há pressão direta sobre as cotações e um efeito psicológico que leva outros investidores a reduzir posições, intensificando o movimento de baixa no curto prazo”, completa.

Além do macro e das companhias, o Bitcoin também sofreu influência de um mercado com uma alavancagem relativamente alta, explica Mychel Mendes, CFO da Tokeniza.

“O Bitcoin caiu para próximo de 60 mil dólares, isso liquidou muita gente que estava alavancado e esperando uma alta. Isso injeta dinheiro nos grandes players ali, nos que movimentam o mercado, e tira dinheiro dos investidores. Normalmente, quando temos uma alavancagem muito alta, seja para valorização ou para desvalorização, o preço tende buscar para que liquide isso”, analisa.

Correlação com as techs derretendo

Os dados de performance atuais mostram que o desempenho do bitcoin segue fortemente correlacionado ao setor de tecnologia, especialmente às ações de software e empresas ligadas à inovação.

Em 2026, esse elo foi evidenciado com o panorama visto em Wall Street, que atravessa um período de forte ajuste no segmento de software, com investidores reavaliando expectativas de crescimento em um mundo cada vez mais influenciado pela inteligência artificial.

Como exemplo, a Amazon cai cerca de 9% no acumulado deste ano após a empresa anunciar um plano bilionário de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, o que alarmou investidores preocupados com retorno sobre altos gastos em tecnologia.

A Palantir derrete 19% neste ano, assim como a fabricante de chips Qualcomm, que mostrou projeções fracas para os próximos trimestres.

Outra queda emblemática foi a da Oracle, que derrete 30% no ano, com uma das correções mais duras, reflexo das preocupações do mercado com dívida e estratégia de IA).

“Nesse contexto, ações de tecnologia e criptomoedas passam a se comportar de forma semelhante, não por uma ligação direta entre seus fundamentos, mas porque ambas são tratadas como ativos de risco dentro do portfólio dos investidores. Assim, a queda do Bitcoin e das altcoins reflete um ajuste mais amplo de posicionamento, no qual os investidores buscam reduzir volatilidade e exposição a segmentos mais sensíveis ao ciclo macroeconômico”, diz Szuster, do Mecado Bitcoin.

Relação risco/retorno ainda faz sentido?

Um dos elementos mais relevantes para explicar a intensidade da queda está no comportamento dos investidores institucionais. Após a aprovação dos ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos, muitos analistas apontaram que o ativo havia entrado em uma nova fase, com maior participação de fundos tradicionais, bancos e gestoras globais.

Esse mesmo canal, porém, virou uma via de saída em 2026. Desde o último trimestre de 2025, os ETFs vêm registrando retiradas expressivas de recursos, em uma sequência quase ininterrupta. Apenas nos primeiros meses do ano, bilhões de dólares deixaram esses fundos, sinalizando que parte do capital institucional está, no mínimo, pisando no freio.

“Os ETFs chegaram a ter uma saída de mais de US$ 400 milhões em um único dia, algo que foi um recorde”, destaca Mendes.

A leitura predominante no mercado é que esses investidores, mais sensíveis ao ambiente macroeconômico, passaram a questionar se a relação risco-retorno do bitcoin ainda faz sentido em um cenário de juros elevados por mais tempo.

Diferentemente do investidor de varejo, que muitas vezes compra pensando no longo prazo ou por convicção ideológica, fundos institucionais tendem a agir de forma mais pragmática.

Essas saídas criam um efeito cascata. Quando grandes volumes são vendidos, o preço cai, o que aciona stops, provoca liquidações de posições alavancadas e reforça a percepção de fraqueza. O resultado é um mercado mais raso e vulnerável a movimentos bruscos, como os observados nas últimas semanas.

Fator Fed e liquidez

A expectativa de corte de juros por parte do Federal Reserve (Fed), em 2025, tinha sido um driver positivo para a cotação da cripto, com aumento do apetite por risco. Entretanto, esse pano de fundo começou a mudar de forma mais consistente no fim do ano passado e ganhou força agora em 2026.

No dia 30 de janeiro ocorreu a nomeação de Kevin Warsh para a presidência do Fed. Essa escolha, feita por Trump, foi um divisor de águas para os mercados, dado que se trata de uma figura com postura mais conservadora em relação à política monetária.

Warsh passou a ser associado à possibilidade de um Fed menos tolerante com inflação e, sobretudo, disposto a reduzir seu balanço patrimonial. Na prática, isso significa menos liquidez circulando no sistema financeiro, cenário historicamente negativo para ativos como o bitcoin.

Criptomoedas tendem a se beneficiar quando há abundância de dinheiro e taxas de juros mais baixas, pois investidores buscam retornos maiores fora dos ativos tradicionais.

Quando o fluxo se inverte, o caminho costuma ser o oposto: venda, redução de posições alavancadas e busca por proteção em instrumentos considerados mais previsíveis.

Investidores sofrem, empresas também

Outro ponto central da atual correção é o impacto sobre empresas listadas em bolsa que adotaram o bitcoin como parte essencial de sua estratégia financeira.

Inspiradas pelo sucesso da Strategy, diversas companhias passaram a usar seus caixas – e até a captar recursos no mercado – para comprar criptomoedas, apostando na valorização de longo prazo.

Com o bitcoin em queda, esse modelo entrou em xeque. As ações dessas empresas passaram a sofrer duplamente: de um lado, pela desvalorização do ativo que carregam no balanço; de outro, pela dificuldade crescente de levantar capital em um mercado mais cauteloso.

Casos como o da própria Strategy ilustram bem o problema. A empresa revisou projeções financeiras, reduziu expectativas de lucro e precisou anunciar medidas para preservar liquidez, o que alimentou ainda mais a desconfiança dos investidores.

Incerteza regulatória não saiu do radar

Mesmo com um presidente considerado simpático ao setor, o ambiente regulatório nos Estados Unidos continua longe de ser previsível. A tramitação da chamada Lei CLARITY, que pretende estabelecer regras mais claras para o mercado de criptoativos, segue emperrada no Congresso, alimentando frustração entre investidores.

A expectativa de avanços rápidos após a eleição não se concretizou, e isso pesa sobre a confiança. Sem regras bem definidas, grandes instituições ficam mais reticentes em ampliar exposição, enquanto projetos e empresas do setor enfrentam dificuldades para planejar investimentos de longo prazo.

Essa incerteza não é novidade, mas ganha relevância em momentos de queda. Em ciclos de alta, o mercado tende a ignorar riscos regulatórios. Em fases de correção, qualquer sinal de atraso ou indefinição vira mais um argumento para reduzir posições.

Com informações da Reuters