No movimentado trecho da ruta Panamericana que liga Buenos Aires à cidade industrial de Zárate há um enorme outdoor com uma figura mascarada, metralhadora em punho, assaltando um automóvel. É propaganda de blindagem de carros. Impensável meia década atrás, o anúncio sepulta a idéia de uma Argentina segura. Lembra que os assaltos a mão armada banalizaram-se também por lá e o negócio de blindagem explodiu em território portenho. O Brasil, vizinho com
larga experiência em violência urbana e tradição adquirida na arte de fazer carros à prova de bala, começa a tirar proveito desta oportunidade de negócio.

A exportação de know-how brasileiro para o florescente negócio de blindagem de carros na Argentina já é uma realidade. Na linha de frente, estão empresas como a Armor, que inaugurou uma fábrica por lá em pleno mergulho dos argentinos na depressão econômica, em abril de 2002. Stefano Massari, um dos sócios da empresa, estima que, já nos próximos quatro ou cinco anos, seus negócios na Argentina devem ser equivalentes aos do Rio de Janeiro ? que hoje respondem por 30% da produção da Armor. Também no ano passado, a multinacional americana IAC foi convencida por sua subsidiária no Brasil a abrir uma filial na Argentina. Como normalmente quem dá o conselho financia, o investimento foi feito pela unidade brasileira, que desembolsou cerca de US$ 300 mil.

Entre 1990 e 2000, a taxa de criminalidade dobrou na Argentina.
Hoje, 85% da população se declara sob ?alta probabilidade? de ser vítima do crime. Em resposta, a frota de veículos blindados em circulação no país saltou de 200 unidades em 2001 para 500 em
2002. Mesmo assim, as duas maiores blindadoras do país, Alive e Armoring, não faturaram juntas mais de US$ 2,5 milhões no ano passado, com a venda de 75 carros.

No Brasil, só no ano passado
foram blindados cerca de 5 mil veículos, num mercado anual estimado em R$ 200 milhões. Enquanto na Argentina blindagem ainda é algo para altos executivos, no Brasil a classe média já está protegendo seus automóveis.

Atenta às oportunidades, a Inbra Blindados, líder no Brasil com 35% no mercado interno, tem pronto um projeto de transferência de tecnologia para a Argentina. A Inbra chegou a iniciar uma parceria com um sócio local na área de blindados para transporte de valores. A idéia era passar para o mercado de veículos de passeio, mas a crise econômica de 2002 congelou o projeto, que agora volta a ser estudado.

Ainda no ano passado, depois de blindar 10 carros para motoristas argentinos assustados com a explosão da violência, a subsidiária brasileira da O?Gara-Hess & Eisenhardt tentou convencer a matriz a abrir uma fábrica lá. Por causa da forte instabilidade econômica, os americanos não quiseram pagar para ver. Agora, com as coisas mais calmas, um investimento de até US$ 600 mil pode voltar a ser discutido. ?As empresas de blindagem argentinas têm uma tecnologia muito defasada, o que abre espaço para nós?, avalia Adriana Tschernev, diretora da O?Gara no Brasil.

Segundo Giaffone, da Abrablin, uma blindagem orçada em US$ 15 mil ou US$ 16 mil em São Paulo custa entre US$ 30 mil e US$ 31 mil em Buenos Aires. Isso tem levado argentinos a entrar no Brasil com seus veículos, como turistas, para blindá-los aqui. Mas essa diferença de preço deve cair rapidamente. Pelo menos 20 fornecedores de vidro e cerca de 15 fabricantes de mantas para blindagem brasileiros já abastecem o mercado argentino.

A Argentina é o mais novo, mas não o único mercado externo
para as empresas brasileiras do ramo. A G5, da família Giaffone, já blinda carros em série para vender na Europa desde o ano
passado. E recebe automóveis da Alemanha, da ex-Iugoslávia, da Nigéria e de países sul-americanos para blindar aqui. A americana
IAC fechou recentemente um grande contrato para blindar 1,5 mil carros para o governo da Índia e decidiu produzir na sua fábrica brasileira os componentes que serão usados no processo. O segredo da blindagem brasileira? Padrões de confiabilidade alemães e custos de produção colombianos.