30/11/2001 - 8:00
O executivo mal aterrissa no aeroporto e saca o micro de mão para saber as condições do trânsito até o escritório. Imediatamente, o aparelho se comunica com o celular, que está guardado no bolso do paletó. A conexão com a Internet é concluída em seguida e um site com serviços aparece na tela do aparelho. No trabalho, o mesmo personagem abre o notebook em cima da mesa e, com um clique de mouse, aciona a impressora que está na sala vizinha. Tudo sem qualquer fio para ligar os equipamentos. Bem-vindo à revolução Bluetooth, que está chegando ao Brasil e promete dar uma nova e mais realista sensação de mobilidade. Nas próximas semanas ou meses, gigantes como Ericsson, IBM, LG, Compaq, Toshiba, Palm e 3Com desembarcarão handhelds, mouses, notebooks e celulares que poderão transferir arquivos entre si através de ondas de rádio. Bastará entrar numa sala portando um deles, por exemplo, para que rapidamente todos os demais sejam identificados e a troca digital tenha início ? com a permissão do usuário, claro. Da multiplicidade de fios, só restará o da tomada. ?Além de sujar o visual, os cabos constantemente geram mal contato e ainda demandam muito tempo para quem usa outros aparelhos?, diz Julio Prado, gerente de marketing de micros da IBM. O Bluetooth, por sua vez, irá transmitir dados num raio de 10 metros. A conexão com a Internet chegará a uma velocidade de 720 Kbps, contra 56 Kbps por telefone. De início, espera-se que as inovações mudem os escritórios, mas não demorará muito para que transporte o interior das casas. ?O que vemos nos desenhos dos Jetsons vai se tornar realidade?, diz Cezar Taurion, diretor de estratégias em tecnologia da informação da Price Waterhouse. ?Os computadores estarão em todos os lugares, muitas vezes invisíveis e embutidos dentro dos equipamentos?, diz ele.
Para quem vem acompanhando a trajetória dessa tecnologia, este é um momento histórico. Um produto com Bluetooth que fosse apresentado antes da hora poderia ficar isolado. Sem parceiros com quem dialogar, o fracasso seria evidente. ?Até então, as empresas que tinham um produto ficavam aguardando os outros para lançar o seu?, diz Walter Merege, engenheiro de tecnologia da Toshiba. ?Agora foi dado o sinal verde para todos.? A Toshiba, por sua vez, deve oferecer notebooks com Bluetooth ainda em fevereiro e tem planos de importar câmeras digitais e projetores ainda em 2002. Ao todo, mais de 2,5 mil companhias que aderiram ao grupo de pesquisas em Bluetooth, iniciado pela sueca Ericsson em 1994, devem anunciar novidades em todo o globo. E enquanto os fabricantes anunciam as novidades na prateleira, os engenheiros não param de bolar aplicações. Na imaginação desses profissionais, um motorista poderá pagar a conta no posto de gasolina com um cartão armado com chip Bluetooth. Ao estacionar ao lado da bomba de combustível, o chip automaticamente se comunicará com o posto e o débito será efetuado diretamente na conta corrente. Outra possibilidade é instalar um chip para monitorar o interior dos carros. ?Quando houver uma falha, o mecânico descobrirá o defeito apenas se aproximando com um notebook?, diz Domingos Iorio, diretor de Sistemas Móveis da Ericsson. Um aparelho que já está pronto, batizado de Blip, ficará em pontos estratégicos de um aeroporto e poderá transmitir informações para os aparelhos dos viajantes. Os lançamentos que estão chegando ao Brasil, contudo, são menos fantásticos. A Ericsson, por exemplo, lançou este mês um adaptador para celulares e um pequeno e leve headset. O aparelho se fixa em uma das orelhas e funciona como uma extensão do telefone fixo. Em meados do ano que vem devem estrear impressoras para o usuário doméstico e celulares. Empresas como LG e Ericsson, por exemplo, só estão aguardando a tecnologia GSM para vender suas invenções. ?A chegada desses equipamentos dará o estímulo que faltava para a adoção do Bluetooth?, diz Gustavo De Martini, diretor-geral da 3Com BNC, que este mês divulgou um cartão Bluetooth para notebooks.
Futuro. Várias instituições de pesquisa traçaram previsões animadoras para o Bluetooth. Estima-se que este ano o total de equipamentos fabricados fique entre 5 e 13 milhões de unidades. De acordo com a Merrill Lynch, a mais otimista de todas, a soma mundial pode chegar a 2 bilhões de aparelhos em 2005. O maior obstáculo, contudo, será o custo. O preço atual do chip é de US$ 15 a US$ 20, enquanto a meta dos fabricantes é chegar entre US$ 3 e US$ 5. ?Apenas quando os custos se tornarem baixos é que o Bluetooth chegará aos equipamentos mais baratos, como uma cafeteira?, diz Taurion, da Price. Segundo ele, só será possível saber se o Bluetooth chegou ou não para ficar daqui a três anos. Um fato recente, porém, pode animar os fabricantes. Num prazo de 30 dias, o kit de comunicação da IBM, que liberta o teclado e o mouse dos fios, teve uma redução de R$ 365 para R$ 339. ?O preço está diretamente ligado à escala?, diz Prado, da IBM. ?E ela deve aumentar com o tempo.?