Não há o barulho renitente de máquinas ou robôs. O que se ouve é o som discreto de ferramentas em contato com as peças de alumínio ou o ronco leve de um motor sendo ajustado manualmente por um técnico. Tudo surpreendentemente silencioso em se tratando de uma fábrica de automóveis. Nos intervalos da produção ? a hora do cafezinho ? o ruído mais forte que se nota é o das vozes de engenheiros e mecânicos. São 100 profissionais ao todo, recrutados a dedo pela BMW e treinados especialmente para montar o esportivo Z8, jóia do segmento de alto luxo. A cena acontece em Munique, em uma das células de produção da planta de Dingolsfing. Ali, o grupo de notáveis da BMW volta às origens da indústria automobilística e produz no ?braço? um conversível de US$ 180 mil venerado pelos clientes mais exigentes ? e mais abastados. Há duas explicações para a montagem manual do veículo. A primeira diz respeito aos cuidados exigidos no manuseio da estrutura do carro, feita de alumínio. Mãos, de acordo com os engenheiros da montadora, são mais ?caprichosas? do que garras de aço dos robôs. A segunda razão é puramente emocional: um carro artesanal, neste segmento, ganha pontos preciosos entre os consumidores.

 

Num processo normal de manufatura, usando e abusando de robôs, a BMW produz carros em questão de horas. No caso do Z8, a fabricação leva 15 dias. A saga artesanal começa com a chegada das placas de alumínio em Dingolsfing. São soldadas manualmente e vão compor a estrutura do veículo. Em seguida, outras ?partes? já montadas pelos especialistas da BMW completam o corpo do carro. São elas a traseira, a dianteira, as portas e a tampa do compartimento de bagagem. Apenas os pára-choques dianteiro e traseiro não são feitos de alumínio. Foram produzidos com um plástico especial. Por fim, é adicionado o motor. Pronto, o esqueleto do Z8 está formado e a equipe se divide para cuidar da montagem final: o interior do veículo, o ajuste da suspensão, a instalação dos componentes eletrônicos. ?É o ponto de casamento, onde o motor se conecta ao corpo e nasce a máquina dos sonhos?, diz Günter Biener, chefe da divisão do Z8.

Tecnologia. No Brasil, a máquina dos sonhos custa cerca de R$ 490 mil. Chegou no final do ano 2000 e até aqui seis unidades foram vendidas. O Z8 funciona como uma espécie de cartão de visita da montadora no segmento esportivo. O que faz o carro brilhar aos olhos do mercado, além do design e de sua confecção artesanal, é a estrutura de alumínio. Os alemães, especialmente os da BMW, saíram à frente nesta tecnologia. O Z8 é o primeiro modelo produzido em série a utilizar este tipo de material, mais leve e mais resistente à corrosão que o aço. Com ele, a carroceria do veículo oferece maior rigidez e segurança em caso de acidente. Outra vantagem é a redução de vibrações internas ? característica comum em esportivos desse tipo. Um detalhe importante na decisão da BMW de incorporar uma carroceria de alumínio ao seu esportivo é a redução de custos. A tecnologia foi desenvolvida dentro da própria BMW. Em Dingolsfing, a montadora mantém o Aluminium Processing Centre que, ao que tudo indica, deve se tornar nova fonte de renda. Já está em estudo a venda do know-how do alumínio a terceiros. Os segredos da produção manual, no entanto, não entram no pacote.