Para quem acabou de completar 37 anos é uma façanha ganhar um salário de R$ 34 mil ? quatro vezes mais que o presidente da República. É isso o que Demian Fiocca, o novo e mais jovem presidente da história do BNDES, poderá embolsar todo mês. Com um perfil extremamente técnico e um temperamento retraído, Fiocca vai administrar uma fortuna de R$ 175 bilhões em ativos do maior banco de fomento da América Latina. Para este ano, são R$ 56 bilhões para distribuir entre projetos de investimento que podem alavancar o crescimento. ?Foi uma surpresa?, disse Fiocca a um amigo, logo depois de ser indicado para o cargo. E a presidência do BNDES é também algo que jamais esteve nos planos desse economista paulistano que ingressou no setor público com ambições relativamente modestas ? mais acadêmicas do que profissionais. Ex-aluno de Mantega, ele foi seu assessor no Ministério do Planejamento, onde ajudou a conceber o projeto das Parcerias Público-Privadas, e era vice-presidente do banco até a semana passada. A dúvida agora é saber se Fiocca conseguirá levar a cabo a missão de dinamizar a economia. ?A máquina anda sozinha?, diz um ex-presidente do banco.

De qualquer forma, enquanto atuaram juntos, Mantega e Fiocca conseguiram bons resultados. A dupla fechou 2005 com empréstimos recordes de R$ 46 bilhões ? 20% a mais que no ano anterior ? e um lucro de R$ 3,2 bilhões, o maior da instituição. Também reduziu em 40% o prazo de liberação dos empréstimos. ?Minha missão é dar continuidade ao que já vinha fazendo com Guido?, disse Fiocca na terça-feira 28, quando foi oficializado na presidência do BNDES. Dois dias depois, ele se trancou na sede do banco, no Rio de Janeiro, numa reunião de diretoria para traçar novas estratégias. Uma das idéias implantadas por Fiocca foi a criação de uma superintendência de mercado de capitais, que lançou na Bolsa de Valores de São Paulo, a pequenos investidores, o Papel Índice Brasil Bovespa. O título foi tão bem aceito que o BNDES levantou R$ 2,5 bilhões com a oferta. Agora, Fiocca quer lançar títulos no mercado doméstico para ampliar suas fontes de recursos.

Por ser um nome ainda desconhecido de boa parte do empresariado nacional, Fiocca foi recebido com certa cautela. Nenhum industrial de peso emitiu sinais contundentes de apoio. Até porque Fiocca tem um perfil bem diferente do de seus antecessores. Francisco Gros e Eleazar Carvalho, os últimos da era tucana, eram homens do mercado financeiro. No governo Lula, o professor Carlos Lessa era um furacão de idéias ? mas criticava-se sua eficiência operacional. Logo depois veio Mantega, um homem que foi capaz de conciliar o perfil acadêmico e técnico. Fiocca, por sua vez, sempre foi voltado à reflexão. Antes de ingressar no setor público, ele se dedicou às teses de mestrado e, como economista-chefe do HSBC, produziu alguns papers macroeconômicos. Agora, ele terá de lidar no dia-a-dia com projetos de infra-estrutura, reestruturações empresariais e emissões de ações. ?Ele está pronto para a missão?, disse Mantega ao presidente Lula.

Fiocca também chegou ao comando do BNDES por ser extremamente leal ao novo ministro da Fazenda. Um dos postulantes ao cargo era o economista Antonio Barros de Castro, que já presidiu o banco e era o atual diretor de planejamento. Barros de Castro era, inclusive, o candidato do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan. Mantega, porém, venceu a queda de braço com seu colega. E seu discurso com Fiocca já está alinhavado. Os dois querem reduzir substancialmente a TJLP, usada nos empréstimos do banco, até 7% no final do ano. ?É um bom sinal?, diz Paulo Skaf, presidente da Fiesp.