O Fórum Econômico Mundial – a reunião anual da elite empresarial e política ocidental realizada em Davos, na Suíça – é um palco no qual países, que de outra forma não estariam no centro de questões mundiais, podem se apresentar. O Brasil fez uso inteligente dessa oportunidade em várias ocasiões, por exemplo, durante os governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

Na última década, porém, o Brasil perdeu essa chance: o desenvolvimento econômico e político do Brasil decepcionaram cada vez mais e, sob Dilma Rousseff, o Brasil começou a se retirar do cenário político mundial. Já sob o governo Jair Bolsonaro, o país se isolou amplamente do Ocidente.

Em Davos, muitos ainda se lembram com arrepios do discurso inaugural de Bolsonaro em 2019. O populista de direita teve o direito de fazer o cobiçado discurso de abertura do Fórum apenas algumas semanas após assumir a presidência. Mas Bolsonaro leu o manuscrito de seu discurso em apenas seis minutos e deixou o evento, embora ele tivesse meia hora e ainda a oportunidade de expor seus pontos de vista numa discussão que estava planejada.

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Em contrapartida, seu superministro da economia, Paulo Guedes, foi mais ativo e explicou eloquentemente a investidores e banqueiros que o Brasil estava naquela época à beira de uma guinada neoliberal.

A participação do Brasil neste ano foi sóbria e equilibrada. Do alto escalão, apenas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, compareceram ao evento. Juntos, eles deixaram claro que economia e meio ambiente não serão excludentes no governo Lula.

Haddad garantiu aos investidores que planeja uma reforma tributária ainda este ano, ciente de que deve haver regras para garantir que os gastos do governo não explodam. Ele também quer seguir com as negociações para o Brasil entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ou seja, o clube dos países ricos – e que o martelo deve ser batido pelo presidente Lula.

O fato de Haddad sempre se referir a Lula como a autoridade final diminui seu papel como ministro da Fazenda – e isso o torna menos importante do ponto de vista dos investidores.

Como esperado, Marina anunciou uma virada na política ambiental brasileira. Ela é crível com sua biografia e, além disso, demonstrou que não hesita em contradizer Lula.

Os ambientalistas europeus devem ter ficado surpresos quando Marina declarou que a agricultura brasileira poderia produzir três vezes o que produz hoje sem cortar uma única árvore.

Seu interesse em fechar o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul também mostra que os ambientalistas brasileiros contam com uma cooperação mais estreita entre os dois blocos – especialmente para proteger o meio ambiente na América do Sul. Mas os verdes e esquerdistas na Europa veem as coisas de maneira muito diferente.

Os dois ministros mais importantes do gabinete de Lula foram convincentes, porque não prometeram nada – e novos governos em Davos costumam cometer esse erro. Promessas, aliás, não teriam se encaixado no clima sombrio geral: a Europa está atualmente preocupada com a guerra na Ucrânia, inflação, desenvolvimento econômico da China e as crescentes tensões geopolíticas. Portanto, o Brasil é apenas um espetáculo à parte.

O evento do Brasil no Fórum Econômico Mundial com os dois ministros aconteceu sob o título: “Brasil: um novo roteiro”. O país agora tem que provar que vai de fato trilhar um novo caminho – mas, dada a oposição política, isso não será fácil.

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Há 30 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do jornal econômico Handelsblatt e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.