O CEO da Global Eggs, Ricardo Faria, também conhecido como ‘Rei do Ovo’, afirmou nesta terça-feira, 9, que a relação comercial com os Estados Unidos tem sido “a melhor possível fora das manchetes de jornal” e que o papel do governo brasileiro deveria ser “jogar água na faísca” para evitar a escalada da tensão política entre os dois países.

+ Argumentos do governo Trump para impor tarifas ‘não são legítimos’, diz ministro

“Se existe faísca, existe ruído, e o papel da diplomacia é jogar água para evitar uma escalada”, disse Faria, durante participação em evento do Lide, em São Paulo.

O empresário destacou que se tornou o segundo maior produtor de ovos nos EUA e que tem encontrado por lá um ambiente muito favorável para investimentos, com uma carga tributária bem menor do que a brasileira e com agilidade para conseguir aprovações regulatórias das autoridades. “A relação Brasil-EUA fora da manchete de jornal é a melhor possível”, afirmou.

O governo do presidente Donald Trump Unidos propôs duas tarifas cumulativas sobre as exportações brasileiras que, se somadas, podem atingir até 37,5%.

No início deste mês, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) publicou relatório em que recomenda a taxação de 25% sobre produtos brasileiros, tendo como justificativa um conjunto de atos, políticas e práticas do Brasil considerados “irrazoáveis” ou “discriminatórios”. O novo tarifaço, proposto para começar a ser aplicado em julho, se soma ainda a uma nova sobretaxa de 12,5% relacionada à suposta falha no combate ao trabalho forçado.

‘Nenhum economista fez revisão do PIB’

Cassiana Fernandes, economista-chefe do banco americano JP Morgan, também avaliou que o principal risco para o Brasil na relação com os Estados Unidos é a escalada das tensões, uma vez que as exportações de produtos brasileiros para os EUA representam menos do que 10% de tudo que o país vende para outros países.

“O Brasil evocou o direito de retaliação. Tudo o que a gente não quer ver são tarifas de importação aumentando preços e contaminando um cenário e pressão inflacionária e juros altos”, disse.

A avaliação é que a nova tarifas é “evitável”, mas que é preciso avançar na aproximação entre os países para que o Brasil continue atraindo investimentos e criando oportunidades para as empresas.

“Nenhum economista fez revisão do PIB do Brasil para 2026 por conta do novo anúncio dos EUA. O que estamos perdendo são oportunidades. A agenda deveria ser focar em proteger o investimento estrangeiro como ativo estratégico”, afirmou Fernandes.

Para Luiz Furlan, ex-ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, a tendência é que o Brasil consiga negociar uma redução das tarifas com os EUA.

“Acredito que os EUA vão tirar produtos da lista e ao mesmo tempo baixar o imposto para algo residual”, disse, acrescentando que o anúncio de tarifa unilateralmente faz parte da técnica de negociação de Trump. “Quem quer colocar restrição, não põe prazo”.

Período eleitoral é desafio

Joao Doria, fundador do Lide, disse ver com ceticismo o avanço das negociações entre os governos dos EUA e Brasil em razão das eleições presidenciais e da aproximação de Trump com Flavio Bolsonaro, adversário de Lula. “Hoje não vejo perspectiva de que a relação possa se distensionar”, avaliou. “É preciso restartar o diálogo”.