Poucas famílias são tão identificadas com o mercado financeiro como a Souza Barros. Ela é dona da corretora mais antiga do País, conhecida por operar na Bolsa de Valores, na Bolsa de Mercadoria & Futuros e com câmbio. Às vésperas de completar 75 anos de idade, no entanto, o futuro da Souza Barros foi colocado em dúvida por um conflito interno. Os irmãos Marcos (62 anos) e Álvaro (55 anos), que durante 33 anos dividiram o comando da empresa, se desentenderam numa disputa sobre quem manda no negócio e agora brigam na Justiça pelo destino da Souza Barros.

Numa ação judicial, Álvaro acusa o irmão mais velho de tirá-lo da presidência da corretora para preparar a ascensão do filho, Carlos (32 anos). Álvaro pede ao juiz a ?dissolução parcial? da Souza Barros. Em outras palavras, ele quer que sua parte na empresa seja avaliada por um perito independente e que o irmão seja obrigado a comprá-la. ?Ele fez uma transição ?à brasileira? para dar poder ao filho?, reclama Álvaro. ?Toda empresa precisa de renovação e buscar novos caminhos?, devolve Marcos.

A disputa entre os Souza Barros começou neste ano depois
que Marcos, dono de 70% das ações, resolveu promover
a sucessão na corretora. Até então, o presidente era Álvaro, que é sócio minoritário, com 30% do capital. Com 55 anos de idade, Álvaro não tinha planos para se aposentar. Até aceitava ser substituído pelo sobrinho Carlos, mas desde que não fosse agora. ?O Carlos devia se preparar, fazer um MBA?, diz Álvaro. ?Ainda não é hora de ele assumir a presidência.? Como sócio majoritário, Marcos tomou a decisão de mudar o comando mesmo contra a vontade do irmão. Criou um conselho consultivo e nomeou Álvaro para presidi-lo, retirando-o da direção da empresa. Temporariamente, Marcos assumiu o comando da corretora e nomeou seu filho para ser o número dois na hierarquia. ?O Carlos tem idéias novas e pode renovar a empresa?, diz Marcos.

A disputa pelo poder terminou com um rompimento entre os irmãos e uma briga em torno do valor do acerto. Álvaro quer receber sua parte no patrimônio, incluindo o valor da marca e do site. ?Ele diz que tem R$ 5 milhões a receber, mas o preço deve ficar por volta de R$ 2 milhões?, diz Marcos. ?O mercado está difícil.?

Mesmo com toda briga, os dois irmãos têm um ponto comum: eles dizem que a empresa será prejudicada com a disputa, num momento especialmente ruim para o negócio. São raras as corretoras independentes, que não são ligadas a bancos, que estão conseguindo encontrar seu espaço no mercado. Só em 2002, 13 instituições tradicionais baixaram as portas. ?Com o processo, a situação fica mais difícil porque o futuro da corretora está nas mãos da Justiça?, diz Álvaro.

Os Souza Barros são herdeiros de uma longa tradição familiar
de negócios bem-sucedidos, crises e recomeços no Brasil. No
século 18, o tataravô de Álvaro e Marcos, o português Luiz
Antônio chegou ao Brasil e enriqueceu com o plantio do café. Com a crise de 1929, a família perdeu dinheiro e o pai de Marcos e Álvaro, Roberto, virou corretor para sustentar a família. Roberto morreu cedo, quando os filhos eram menores de idade. Marcos e Álvaro herdaram a corretora e fizeram o negócio progredir, mesmo enfrentando crises devastadoras como a do Plano Collor. Hoje, a Souza Barros fatura R$ 20 milhões por ano, metade do que arrecadava na década de 90. ?A situação está difícil e, obviamente, eu não queria que o problema tivesse chegado a esse ponto. Mas vamos passar por mais essa?, diz Marcos.