A estratégia eleitoral do presidente George W. Bush para 2004, que passa por uma disputa Estado por Estado e depende de milhões de dólares em doações corporativas, deveria estar entre as causas de preocupação para os brasileiros que acompanham as negociações da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas. Vencer uma eleição nos Estados Unidos significa
obter a maioria dos votos no colégio eleitoral, dividido em blocos estaduais. Dos 50 Estados americanos, apenas uns poucos oscilam entre os partidos Republicano e Democrata. Os outros são tradicionalmente alinhados com um ou outro partido.

Logo, para ganhar a reeleição Bush tem de vencer no colégio elei-
toral de alguns desses Estados-chave. Infelizmente para as aspirações dos exportadores do Brasil, há uma forte coincidência entre a produção dos Estados em que Bush precisa vencer e os
itens que o Brasil quer exportar para os EUA.

Pegue-se o caso da Flórida, um campo de batalha para 2004 e maior Estado plantador de laranja nos Estados Unidos, além de forte produtor de carne. Ainda que o governador não fosse irmão do presidente Bush, o presidente não poderia negligenciar os votos da Flórida ? e os eleitores de lá sabem que um corte na tarifa de importação do suco de laranja significa perda anual de US$ 250 milhões, assim como o desaparecimento de milhares de empregos. Outros Estados em que Bush precisa ganhar incluem os grandes celeiros da soja como Missouri e Arkansas e produtores de carne como Dakota. Acrescente-se a isso o chamado Cinturão da Ferrugem, onde se produz aço e as ações antidumping são sagradas. Quem ficou surpreso com a Tarifa do Aço em 2002 deve estar preparado para a aproximação de novembro de 2004, quando o poder de barganha de Estados como Pensilvânia, Ohio, Indiana e Virginia Ocidental vai crescer vertiginosamente. Em novembro de 2004 não só haverá eleições como é também a data em que devem terminar as negociações da Alca. Mesmo que não se leve em conta a matemática elementar da eleição, há um pequeno dispositivo na nova Lei de Autoridade de Promoção Comercial, conhecida como Fast Track, que exige aprovação especial do Congresso para qualquer corte de tarifas em ?produtos sensíveis? da agricultura, uma definição que inclui suco de laranja, carne e soja. E há ainda as resoluções do Congresso, declarando oposição a qualquer mudança nas leis antidumping ou em qualquer outro aspecto da legislação comercial americana.

A outra chave da reeleição é arrancar dólares das grandes empresas para a campanha. A equipe de Bush não vai esmorecer em suas exigências de proteção aos investidores estrangeiros na América Latina e aos direitos de propriedade intelectual sob a Alca, assim como não pode abandonar demandas por controle sobre os serviços públicos brasileiros e sobre algumas das riquezas da Amazônia. Ainda que Robert Zoellick, o representante comercial e principal negociador americano, realmente acredite nas coisas que diz quando está no Brasil, toda vez que houver um confronto entre ele e a máquina política da Casa Branca, ele vai perder. Como uma antecipação do que está por vir, considerem a embaraçosa retratação que Zoellick foi forçado a fazer na OMC em relação às regras de patente e ao acesso a produtos médicos. Depois de conseguir em Doha um difícil acordo sobre esses temas, o representante comercial teve a sua rédea puxada por telefonemas irados da indústria farmacêutica para a Casa Branca. Os operadores políticos de Bush disseram a Zoellick para acatar as ordens corporativas e ele obedeceu, bloqueando uma proposta que tencionava melhorar o acesso a medicamentos vitais em nações em desenvolvimento. Como um embaixador que ganhou status de ministro na equipe de Bush, Zoellick já provou que é um hábil e sensato negociador. Foi ele, afinal, que de maneira tristemente famosa, invocou os trágicos ataques de 11 de setembro para arrancar concessões na conferência de Doha. É ele também quem, regularmente, relaciona o apoio dos países à doutrina Bush de ataques preventivos com questões de comércio. Com Zoellick e a política comercial americana, os países estão com os EUA ou ficam na fila, esperando. O Brasil porém não precisa esperar em fila nenhuma. Pode criar suas próprias alternativas.

* Lori Wallach é diretora de Comércio Internacional da
ONG americana Public Citizen, sediada em Washington