Trata-se da cadeira mais cara da história das eleições americanas, mas vale cada dólar. Ao final de oito semanas de disputa, nas quais os partidos americanos gastaram U$ 1,6 bilhão, o presidente George W. Bush foi dormir na madrugada da quarta-feira 6, na ala residencial da Casa Branca, certo de que o aumento de 50 para 51 integrantes na bancada do partido republicano no Senado não era mais um sonho. A conquista real deste voto, que dá direito ao partido de indicar o presidente da casa e de todas as suas estratégicas comissões, aliada à ampliação de sua base na Câmara dos Deputados, faz Bush sair da eleição de meio de mandato como o primeiro presidente desde Franklin Roosevelt, em 1934, a possuir maioria nas duas casas do Congresso. Naquele tempo, o democrata Roosevelt executou o New Deal e tirou a economia do país do atoleiro da recessão. Agora, do alto do poderio que passará a usufruir em janeiro, quando o novo Congresso toma posse, Bush e seus falcões republicanos terão tudo pronto para executar seus planos, com reflexos diretos em todas as partes do mundo. ?O presidente obteve uma vitória pessoal, inequívoca e espetacular?, classificou à DINHEIRO em Washington o republicano William Perry, amigo pessoal da família Bush e um dos mais influentes estrategistas do quadro do Departamento de Estado. ?Seus reflexos começarão a ser percebidos no deslanche de projetos para a economia interna que estavam parados em razão da oposição democrata?, disse Perry. Mas não é só a agenda americana que muda. A partir de agora, importantes questões internacionais, como as negociações da Área de Livre Comércio das Américas e as relações dos Estados Unidos com o Oriente Médio, também serão ditadas por um presidente revigorado e legitimado pelas urnas.

 

Não é por outra razão que esta eleição americana, embora eminentemente local, foi acompanhada com grande interesse em todas as partes do mundo. Fortalecidos, os republicanos, que carregam o símbolo do ?elefante? em contraposição ao ?burro? dos democratas, lançarão um rolo compressor no parlamento. E Bush estará livre para avançar em seus anseios belicistas. Uma guerra contra o Iraque, antes provável, agora é líquida e certa ? e não tardará. Os reflexos no preço do petróleo serão imediatos. A política de apoio militar à vizinha Colômbia, para o combate às guerrilhas das Farc e ao narcotráfico, também sai favorecida. No tocante ao embargo a Cuba, nada muda, até porque Bush poderá agora concluir a nomeação de Otto Reich como subsecretário de Assuntos Internacionais. Reich, que hoje responde pela América Latina no Departamento de Estado, opõe-se frontalmente às políticas de Fidel Castro. E, no caso brasileiro, o fato mais importante é que Bush terá ainda mais poderes para negociar a Alca, cujas negociações são presididas, de forma conjunta, por Brasil e Estados Unidos.

Para os diplomatas, empresários e políticos brasileiros que têm participado das reuniões de trabalho da Alca, como a de Quito, no Equador, duas semanas atrás, a vitória do partido de Bush nas eleições intermediárias não significa apenas mais aspereza à mesa. O ponto é que, a partir de agora, a administração Bush torna-se franca favorita para reeleger-se para mais quatro anos de mandato a partir de 2004. Seus representantes adquiriram pela expressão dos resultados eleitorais segurança redobrada para demarcar suas posições. Na semana passada, o time de Bush não apenas venceu, como viu a equipe rival sair desfigurada da zona de combate. Quatro de seis colaboradores de primeiro escalão do governo de Bill Clinton não passaram no teste das urnas. ?Os democratas terão dificuldade para se recuperar?, registrou o comentarista Robert Novak. Mas nem tudo é negativo. Com mais legitimidade, Bush terá liberdade para fazer concessões comerciais, desde que convencido por negociadores de outros países. Não será refém do Congresso.

 

E Bush parece ter mesmo tudo o que quer nas mãos. Em Washington, já se fala em datas para um ataque ao Iraque. ?Janeiro para começar e fevereiro e março para dar prosseguimento?, ouviu DINHEIRO. ?Foi assim na administração de Bush pai, só que agora haverá mais tecnologia ainda.? No plano interno, a agenda é igualmente ambiciosa. A atual administração planeja acelerar seus planos de cortes de impostos, privatizar gradualmente a rede de seguridade social bancada pelo governo e aumentar a proteção aos interesses das grandes companhias. Entre as primeiras atitudes que a maioria nos dois plenários do Congresso irá possibilitar aos republicanos está a nomeação de duas dezenas de juízes para cortes federais nos Estados.

Bush colheu o que semeou. Pessoalmente, pediu contribuições financeiras e conseguiu arrecadar para os cofres das candidaturas de seu partido ao Congresso e aos 50 governos estaduais US$ 144 milhões nas últimas semanas. É mais do que o então presidente Bill Clinton obteve para os democratas nas eleições intermediárias de 1994 e 1998. Na fase final da campanha, Bush ocupou praticamente toda a sua agenda com viagens aos Estados, participação em comícios e no corpo-a-corpo com os eleitores. Dakota do Sul, Estado considerado de ínfima importância política, recebeu sua visita cinco vezes. A recompensa foi a vitória republicana na disputa pela vaga no Senado. Para a campanha do irmão Jeb, reeleito governador da Flórida com mais de 600 mil votos sobre o segundo colocado, o presidente sozinho arrecadou US$ 13 milhões. Os republicanos gastaram no Estado US$ 38 milhões contra US$ 11 milhões dos democratas. ?Sou grato a meu pai, a minha mãe e ao nosso grande presidente?, disse um satisfeito Jeb, logo após receber um telefonema de congratulações do generoso irmão mais velho.

A verdade é que ninguém poupou esforços e recursos em torno das eleições. Do US$ 1,6 bilhão gasto pelos partidos, nada menos que US$ 900 milhões foram usados em propagandas de tevê entre a sexta-feira 1 e a terça 5 das eleições. Nas presidenciais de 2000, as despesas no mesmo período foram de US$ 771 milhões.

Os americanos utilizaram seis métodos diferentes na hora de votar, mas apenas 19% dos eleitores tiveram urnas eletrônicas à sua disposição. Na maioria dos Estados eles continuam sendo obrigados a votar em cartões de papelão, tendo de fazer perfurações com máquinas manuais para indicar suas preferências. Na capital Washington, precisaram colocar seus votos em envelopes tamanho ofício antes de lançá-los às urnas. ?Nosso sistema de votação está aquém da nossa condição de maior democracia do mundo?, admitiu à DINHEIRO o contador Lawrence Williams, chefe da seção eleitoral do bairro Adams Morgan. Ali, dentro de uma igreja, cada eleitor levava cerca de cinco minutos para completar todo o processo. Na disputa bilionária que acaba de se encerrar, Nova York assistiu uma briga de muitos zeros. A campanha dos três principais candidatos a governador custou US$ 150 milhões. Somente o bilionário Tom Golisano tirou de suas próprias contas bancárias US$ 65 milhões. Foi sua terceira tentativa pelo Partido Independente e, com 14% das preferências, atrás do democrata Carl McCall, ficou em terceiro lugar. Quem se reelegeu foi o republicano liberal George Pataki. ?O sistema de dois partidos precisa mudar?, reclamou Golisano. Para Bush, ao contrário, assim está muito, mas muito bom.