O diretor de Política Monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, avaliou nesta sexta-feira que, apesar de as autoridades monetárias de diferentes países terem apresentado explicações locais para tendência surpreendente do comportamento da atividade e da inflação, é possível que haja um ponto em comum dos dados em todo o globo. “Este é um ponto bastante interessante. Nas reuniões com banqueiros centrais de outros países, é curioso porque cada um de nós parece ter uma explicação própria, idiossincrática, sobre seu próprio país e sobre um movimento que parece guardar alguma semelhança de um país para outro”, argumentou.

Em live realizada pela Bradesco Asset, ele disse ser comum, no caso brasileiro, apresentar o choque decorrente da safra agrícola, que “ajudou muito” a economia doméstica ao longo do ano passado. “O agro é um setor que consome menos hiato e teria a capacidade de produzir uma desinflação com menos custo para a sociedade, mesmo com uma economia, com um mercado de trabalho resiliente”, pontuou.

O diretor citou a grande produção de artigos que abordavam a difícil perspectiva de haver desinflação com uma taxa de desemprego inferior a dois dígitos ou com um crescimento mais pujante – que, no Brasil, segundo ele, ficou quatro vezes superior ao esperado. “Ainda assim a desinflação surpreendeu com o desemprego caindo a taxas menores desde 2014”, observou.

O tema, de acordo com ele, é recorrente em todo o mundo. “Todas essas semelhanças me sugerem que pode existir também alguma coisa global”, cogitou. “Não é uma coisa ou outra. É algo que está acontecendo não só no Brasil, mas em outras economias também”, continuou.

China

No mesmo evento, o diretor de Política Monetária do Banco Central disse que a mudança do modelo de crescimento econômico chinês – do comércio exterior para a demanda interna – acarreta uma perda de dinamismo da atividade durante o período de transição.

Ele apontou dúvidas sobre a capacidade dos estímulos de Pequim em impulsionar o crescimento chinês. Apesar disso, emendou, os preços das commodities tendem a se manter em patamar que vem permitindo o bom desempenho da balança comercial e, consequentemente, do câmbio.

Galípolo pontuou que era mesmo difícil imaginar que a economia chinesa manteria um modelo de crescimento baseado em exportações com o mundo em desaceleração. “O sentimento que tenho, até pela interlocução com autoridades chinesas, é de que a China está fazendo um pivô mais para dentro”, declarou o diretor do BC, acrescentando que Pequim entendeu a necessidade de ampliar o dinamismo da demanda doméstica.

Citando a solidez da balança comercial, mesmo com a tendência de desaceleração chinesa, e o fato de o Brasil mais exportar do que importar petróleo, Galípolo observou que a posição privilegiada das contas externas representa uma proteção frente às incertezas na geopolítica.

Além de destacar, por mais de uma vez na live, o comportamento menos volátil do real mesmo em cenário externo adverso, Galípolo ressaltou que o BC está satisfeito com o regime de câmbio flutuante, que, avaliou, “tem entregado bom resultado”.

Frente às correlações não usuais entre atividade, resiliente, e inflação, em queda, o que reforça a cautela das autoridades monetárias, o diretor do BC disse que os instrumentos tradicionais já não servem tanto de orientação à política monetária. “Precisa reunir mais instrumentos.”

Ao acentuar, em sua comunicação, as mensagens de serenidade e parcimônia, o BC, disse Galípolo, demonstra a necessidade de ter humildade perante às mudanças que estão acontecendo na economia global.