21/01/2003 - 8:00
Em 2002, o chinês Zhang Guo Qiang acrescentou 4 milhões de yuans (cerca de US$ 200 mil) à sua conta bancária. Qiang é empresário e utiliza as ferramentas capitalistas tradicionais para ganhar dinheiro em um país comunista. Sua empresa, a Shanghai Jietao, especializou-se em manutenção em prédios comerciais e industriais, emprega 1,1 mil pessoas e tem escritórios espalhados por 30 cidades chinesas. Nomes como GM brilham no portfólio de clientes. Com o sucesso do empreendimento, abriu uma segunda companhia, a Shanghai Good Chemical Technology, e fechou parcerias com empresas americanas e japonesas. Em 1999, Qiang sequer era empresário. Os dividendos de US$ 200 mil do ano passado deverão ser multiplicados por dois em 2003. ?A China continuará crescendo nos próximos 20 anos e quem tiver disposição para o trabalho acompanhará essa expansão?, disse Qiang à DINHEIRO, sentado na mesa de reunião de um escritório despojado no centro comercial de Xangai.
Aos 34 anos, Qiang é um legítimo representante da mais nova geração de empresários chineses. Filhos da abertura econômica do país, esses homens de negócios têm origens diversas. Alguns como Qiang nasceram no próprio território chinês, passaram por empresas estatais e partiram para a carreira solo nos últimos dez anos. Outros tinham atividades em Hong Kong e Taiwan e resolveram estendê-las para o continente. Há vários pontos de contato entre eles. Praticamente todos receberam um empurrão do governo, seja na forma de contratos com estatais, seja na forma de incentivos fiscais. Nos primeiros dois ou três anos, as companhias recém-nascidas estão isentas do pagamento de impostos, sobretudo se absorverem muita mão-de-obra. Segundo o International Finance Corporation, IFC, mais de dois milhões de empresas privadas abriram suas portas nas últimas duas décadas. Desse total, cerca de 65% a 75% nasceram da iniciativa de empreendedores locais ou de regiões vizinhas.
Líder na web. Esses empreendedores têm chamado a atenção dos investidores internacionais. Apenas três anos depois de fundar a Hichina, especializada no registro de domínio na internet e na hospedagem de sites, Stan Zhang Xiangdong foi procurado por representantes do IDG, International Data Group. Os americanos queriam adquirir um pedaço da companhia. Ficaram com cerca de 10%. Mais dois anos e passou adiante uma participação superior a 30% para a Newbridges, grupo de venture capital. Xiangdong, de 37 anos. deu o pontapé inicial na Hichina em 1996. A idéia nasceu quando ele tomou conhecimento da briga judicial que uma grande empresa chinesa, a Haier, travava para recuperar seu domínio na internet. ?Calculei que outras companhias vivessem o mesmo drama?, conta. Xiangdong tornou-se uma espécie de caçador de sites perdidos. Recuperou mais de 200 marcas para seus donos. Em seu currículo, consta o registro de 300 mil domínios. Mais de 60 mil empresas hospedam seus sites nos oito data-centers da Hichina, espalhados por cidades chinesas e americanas. Trata-se da maior empresa do setor na China. Debutante no mundo dos negócios, Xiangdong já pegou alguns cacoetes do empresariado. Não gosta de falar de números, por exemplo. Ganhou muito dinheiro até agora? ?Ainda tenho de trabalhar duro?, desconversa ele a bordo de um Audi A6, que um motorista dirige pelo trânsito carregado de Pequim. ?As oportunidades de negócios são muitas, mas a concorrência cresce bastante.?
Na verdade, a nova geração de empresários chineses passará nos próximos anos por uma prova de fogo. Depois de dois ou três anos, os subsídios são extintos ou reduzidos. Além disso, pesa sobre seus ombros a pouca tradição capitalista na China. No ano passado, foram nove mil. A maior parte, cerca de 60%, são de estatais. Ainda é pouco, acredita o consultor Cao Siyuan, do Beijing Siyuan Research Centre. ?Ele representa apenas 0,09% do total de companhias. Nos EUA chega a 1%?, diz. ?O porcentual deverá crescer e levará a economia a ganhos de eficiência.? Empresas mais maduras como a Pimex, maior importadora de papel de Taiwan, levam vantagem nessa corrida. David Song, principal acionista da Pimex, investiu US$ 3 milhões para abrir uma filial em Xangai há dois anos. Em cinco anos, acredita, os negócios do filhote serão maiores do que a empresa mãe, cujo faturamento atinge US$ 40 milhões anuais. O consumo de papel na China é muito maior e está ao alcance da população, apesar do baixo poder aquisitivo. ?Em Taiwan, trabalho com o mercado corporativo, principalmente papel para embalagem?, diz Song. ?Na China, o maior mercado é o doméstico.? Para abrir seu negócio, Song conta com o que chama de ?bom relacionamento? com o governo. ?Na China, 70% a 80% dos clientes são estatais. Então, não se faz negócio sem saber quem são as pessoas certas nos lugares certos?, diz ele. ?Isso pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso.?