As constantes altas do Ibovespa não atraem só investidores para o mercado de capitais. Várias empresas estão interessadas em lançar ações na principal bolsa de valores do País. Fazem parte desse grupo a fabricante de cosméticos Natura, a empresa de software Microsiga, a rede varejista Magazine Luiza, a montadora de jipes Troller, o banco Nossa Caixa, de São Paulo, e até a companhia aérea Gol. Pelas contas da Bovespa, ainda há outras interessadas na fila. ?Pelo menos dez empresas devem abrir o capital nos próximos dois anos?, estima Maria Helena Santana, superintendente de relações com empresas da Bovespa. Trata-se de uma boa notícia para um setor acostumado a ouvir falar mais em fechamento do que em abertura de capital. O último lançamento de ações foi o da CCR, em fevereiro de 2002. Na contramão, 133 empresas fecharam o capital nos últimos cinco anos.

Ao lançar ações, todas as companhias têm o mesmo interesse: conseguir sócios para capitalizar o negócio, a custo bem mais atraente que os empréstimos bancários. Na Nossa Caixa, a intenção é colocar no mercado um volume de ações equivalente a, no máximo, 49% do capital acionário do banco. Segundo Rubens Sardenberg, diretor de finanças da Nossa Caixa, a abertura do capital é uma decisão que será tomada até o final do atual governo. A instituição, informa o executivo, tem sido procurada por investidores interessados em comprar seus papéis. Para ele, a abertura será extremamente positiva. ?Um banco com acionistas minoritários tem muito mais responsabilidades do que outro de capital fechado?, afirma Sardenberg. ?A cobrança por transparência serve como uma blindagem à instituição.?

Todo o processo de abertura de capital leva de seis meses a um ano. Além da Bovespa, as empresas interessadas em negociar ações também têm de procurar a Comissão de Valores Mobiliários. É a CVM que dá o registro da oferta pública das ações. O prazo de análise das operações de lançamento de ações foi encurtado este ano. ?Nosso prazo caiu de seis meses para, no máximo, 30 dias úteis?, diz Carlos Alberto Rebello Sobrinho, superintendente de registro da CVM.

Para ver suas ações listadas na Bovespa, as companhias têm de atender a uma série de requisitos, como possuir um conselho de administração e ter seus balanços auditados por firmas independentes. Medidas que já fazem parte do cotidiano da Troller, a fabricante de jipes instalada no Ceará. A montadora está se preparando para a abertura de até 40% do seu capital. ?Em breve estaremos no mercado de capitais?, garante Clécio Antonio Eloy, diretor-executivo da Troller. ?Essa é uma decisão inexorável.? Com o lançamento de ações, a Troller espera conseguir parceiros capitalistas para o negócio. ?Os controladores querem ter sócios e acionistas?, observa Eloy.

Liquidez. Outra interessada em ter sócios-acionistas é a Microsiga. ?Para financiar o crescimento, o mercado de capitais é um caminho quase que obrigatório?, diz José Rogério Luiz, vice-presidente da companhia de tecnologia. Uma preocupação é com a liquidez da ação. ?Não basta só ter ação na Bolsa?, diz Luiz. ?Queremos que o papel seja negociado e vire um dos queridinhos do mercado.?

Do ponto de vista dos investidores, as novas companhias que entrarem na Bolsa têm tudo para ser bem-recebidas. O motivo é simples: há pouca oferta de papéis. ?Está faltando empresas de capital aberto na Bovespa?, afirma Waldir Corrêa, presidente da Associação Nacional de Investidores do Mercado de Capitais (Animec). Corrêa defende uma maior atuação do BNDES, seja financiando a abertura de capital das empresas ou a compra de ações por parte dos investidores. ?Com medidas como essa, o número de empresas listadas na Bovespa ? atualmente em 370 ? poderia até dobrar?, aposta Corrêa.