07/06/2000 - 7:00
Na terça-feira, 30, às 9 horas, um grupo de cerca de 25 pessoas reuniu-se no 29º andar do Edifício Suarez 3, sede do grupo Odebrecht, em Salvador, na Bahia. Depois de apenas 45 minutos, sob uma salva de palmas protocolar, a pauta do encontro estava aprovada: a Odebrecht fechará seu capital, numa operação que consumirá entre US$ 80 milhões e US$ 150 milhões. Não se trata de uma operação isolada. O fechamento é mais uma etapa no profundo processo de enxugamento, iniciado há mais de um ano por Emílio Odebrecht, maior acionista desta que é uma das maiores (e mais polêmicas) corporações empresariais do País. A redução no portfólio de negócios inclui a venda de suas participações na Veracel, uma associação com os suecos da Stora Enzo para a produção de celulose no sul da Bahia, e no setor petroquímico.
O fechamento de capital pode ser um primeiro passo na busca de um sócio estrangeiro para os negócios petroquímicos, os mais problemáticos do grupo. Isso explica porque a Odebrecht gastará um bom dinheiro em um momento em que está mergulhada em dívidas. Além disso, as ações no mercado não garantiam uma fonte de recursos. ?Esses papéis não tinham liquidez e a valorização era muito pequena?, diz Roberto de Paula Nunes de Campos, diretor da Kieppe, holding que abriga os negócios da família Odebrecht. ?Os investidores não queriam colocar seu dinheiro em uma empresa que, ao mesmo tempo, atuava em mercados tão diferentes como o petroquímico e o de construção pesada.?
Encontrar compradores será uma tarefa árdua. A Veracel, por exemplo, é um projeto de US$ 1,8 bilhão, dos quais US$ 300 milhões já foram consumidos na aquisição da área e no plantio de eucaliptos. A Odebrecht aceita qualquer negócio ? vende desde um pedaço até a participação integral. Provavelmente não arrecadará uma fortuna, mas se livrará de um negócio com constante apetite por dinheiro, um artigo raro no grupo hoje em dia.
Além disso, a Odebrecht venderá a participação no Pólo Petroquímico de Camaçari. O principal candidato à compra é outro grandalhão do setor empresarial brasileiro, o Grupo Ultra. Só que esse negócio está vinculado a uma ampla reestruturação do setor petroquímico. Nela os participantes estabeleceram uma espécie de jogo de xadrez para desembaraçar o emaranhado de participações e cruzamentos entre os diversos grupos. ?Nosso interesse é concentrar as forças no Pólo de Triunfo, no sul do País?, diz Campos. ?Mas vamos sair de Camaçari de forma cautelosa.? Traduzindo: a Odebrecht vai vender caro seu pedaço no pólo baiano.
Essa decisão carrega pouco de estratégia empresarial e muito de pragmatismo. ?O grupo não teria bala na agulha para manter os pés nos dois pólos e colocar o dinheiro exigido pelo negócio petroquímico?, diz um especialista do setor. ?Eles optaram pelo Sul, pois lá fabricam resinas, que são mais rentáveis do que o PVC produzido na Bahia.?A solução encontrada por Emílio desagradou os baianos ? alguns deles poderosos. O senador Antônio Carlos Magalhães telefonou para Emílio. ?Em minha opinião, essa decisão não é boa para a Bahia?, disse o político ao empresário. Emílio explicou que se tratava de uma decisão de negócios e que, como tal, pensara no desempenho da empresa. ACM não gostou e foi a público dizendo que a melhor opção para a Bahia era o Grupo Ultra.
O encolhimento da Odebrecht tem sua origem no endividamento do grupo. São mais de US$ 2 bilhões, contraídos em função de uma arrojada estratégia de expansão e diversificação desenhada por Emílio há mais de uma década, quando assumiu o comando em substituição ao pai e fundador do grupo, Norberto. Para Emílio, a concentração dos negócios apenas na área de construção pesada, com todas as implicações políticas, era um risco, sobretudo com o fim do período de grandes obras públicas.
O raciocínio, em parte, era correto. Os Odebrecht possuem hoje 63 empresas, com faturamento de R$ 6,4 bilhões e 43 mil funcionários. Mas Emílio escolheu setores de capital intensivo, como o petroquímico, o de celulose e o de concessões de rodovias. Todos exigem investimentos constantes. Odebrecht foi buscar dinheiro no Exterior. A desvalorização do real, no início do ano passado, pegou o grupo no pico da dívida. Resultado: um prejuízo recorde em 1999 de R$ 326 milhões. ?Hoje, conseguimos alongar o perfil da dívida?, diz Campos. ?Os vencimentos começam dentro de 18 meses.? De qualquer forma, a renegociação não evitou a necessidade de uma dura travessia em direção a um conglomerado menor e mais eficiente.