19/12/2007 - 8:00
A morte do Capitão América, em março deste ano, chocou os fãs das histórias em quadrinhos e enterrou no passado um ícone da cultura popular dos Estados Unidos. Mal sabiam eles que outros símbolos importantes do poderio americano iriam tombar nos meses seguintes. Os superbancos, como o Citigroup e o Merrill Lynch, foram brutalmente feridos pelos empréstimos imobiliários de alto risco, os subprime loans. Poderosos banqueiros, vestidos de Capitão Subprime, embarcaram numa luta inglória contra o bom senso e, mais uma vez na história da humanidade, a bolha especulativa explodiu. Somente este ano, os prejuízos reconhecidos com esse mercado somaram quase US$ 80 bilhões, aí incluídas as perdas de instituições dos dois lados do oceano Atlântico. É apenas o começo. Ninguém sabe o tamanho exato dessa encrenca, nem seu possível final. Mas uma coisa é certa: no leste, crise continua sendo sinônimo de oportunidade. Investidores bilionários da Ásia e do Oriente Médio estão aproveitando o momento para investir pesado nos bancos ocidentais.
Em novembro, a Autoridade de Investimentos de Abu Dhabi, dos Emirados Árabes Unidos, comprou 4,9% do Citigroup, por US$ 7,5 bilhões. O Citi precisava do reforço de capital para suportar perdas de até US$ 11 bilhões. Na segunda-feira 10, o gigante suíço UBS vendeu US$ 11,5 bilhões em ações para a Corporação de Investimento do Governo (GIC) de Cingapura e para um investidor não identificado do Oriente Médio. No UBS, onde trabalha o banqueiro brasileiro André Esteves, a conta já chega a US$ 10 bilhões.
Enquanto fortunas se desfazem no oeste, o dinheiro do leste não pára de jorrar. Segundo o banco americano Morgan Stanley, somente no quarto trimestre deste ano os bancos e fundos soberanos asiáticos e médio-orientais investiram US$ 18,9 bilhões em instituições financeiras americanas e européias. Desde janeiro, a cifra atinge US$ 46 bilhões, de acordo com as contas do The Wall Street Journal. ?É mais um sinal de como a economia mundial está mudando?, afirma Gerard Lyons, economista-chefe do Standard Chartered, em Londres. Os investidores de olhos puxados ou barba estão nadando em petrodólares e divisas soberanas oriundas de grandes saldos comerciais com o Ocidente.
Parte das aquisições de Cingapura no mercado bancário ocidental tem sido feita por uma mulher: Ho Ching, esposa do primeiro-ministro Lee Hsien Loong e presidente executiva da Temasek, empresa de investimentos do país. Na lista da revista Forbes, ela é a terceira mulher mais poderosa do mundo, atrás de Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, e de Wu Yi, vice-premier da China. Supera, inclusive, a dama de ferro americana Condoleezza Rice. Como dizem os ianques, money talks: Ho Ching comanda uma carteira de US$ 50 bilhões. Comprou em julho 1,8% do Barclays, terceiro maior banco inglês, por US$ 2 bilhões. Isso, depois de investir US$ 5,4 bilhões no Standard Chartered. Britânicos e americanos têm bons motivos para temer a ofensiva oriental. A Bolsa de Dubai e a Autoridade do Investimento do Catar já são donas de mais da metade da Bolsa de Londres. O HSBC e o Bear Sterns também são alvo desses investidores, bilionários como o sheik de Abu Dhabi, Khalifa Bin Zayed Al Nahyan.
Os cartunistas da Marvel não fariam melhor. O novo presidente do Citigroup é o indiano Vikram Pandit. Ele foi nomeado na quarta-feira 12 para ocupar a cadeira que foi do ex-superpoderoso Charles Prince III, demitido em novembro. Nascido em Mumbai, Pandit é filho de um empresário indiano e mora nos EUA desde os 16 anos. Fez carreira no Morgan Stanley. Sua principal missão no gigante financeiro americano será derrotar de vez o Capitão Subprime. Se vai conseguir ou não, é outra história ? e não será em quadrinhos.