Até o fim do ano de 2027 será possível dar um passeio de ‘carro voador‘ pelos céus da capital paulista – e solicitar esse serviço assim como se pede um Uber hoje em dia. Isso, dado que os eVTOLs (Veículos de Decolagem e Pouso Vertical Elétrico, em tradução livre) da Eve Air Mobility (subsidiária da Embraer) serão operados pela Revo, uma companhia que já atua em São Paulo fretando voos de helicóptero.

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Atualmente um voo de helicóptero da Revo que vai da Avenida Faria Lima, coração financeiro do Brasil, em São Paulo, até o Aeroporto de Guarulhos, custa cerca de R$ 2,7 mil – preço que contempla o voo em si, que demora pouco menos de 10 minutos, e também o serviço de transfer terrestre com motorista particular e outras comodidades.

Inicialmente, quando os eVTOLs passarem a serem operados pela empresa, o preço será o mesmo. Isso ocorre por conta de ser uma novidade e a empresa ainda ‘medir a temperatura’ sobre a demanda e como funcionará o mercado.

Entretanto, essa cifra deve cair até 30% ao longo dos anos, segundo o CEO da Revo, João Welsh.

“Não sabemos muitos detalhes ao certo sobre a precificação, mas olhando para um horizonte de cinco anos – e que pode ser mais rápido do que isso – devemos baratear de 20% a 30%. Está tudo no power point ainda, é preciso voar primeiro. O tempo de trajeto é igual a de um helicóptero, de 8 a 9 minutos [da Faria Lima até GRU], mas temos melhorias de utilização do espaço aéreo”, conta o executivo, em entrevista à IstoÉ Dinheiro.

O custo operacional do ‘carro voador‘ é mais baixo do que seus pares e, por conta disso, no médio e longo prazo o serviço pode ter uma dinâmica de preços ainda diferente e, segundo Welsh, ser ofertado para ‘uma gama de clientes ainda maior’.

Atualmente a Revo já opera voos de helicóptero em São Paulo, com quatro rotas fixas. Em 2025, companhia teve aumento 'próximo de 200%' no faturamento, segundo o CEO
Atualmente a Revo já opera voos de helicóptero em São Paulo, com quatro rotas fixas. Em 2025, companhia teve aumento ‘próximo de 200%’ no faturamento, segundo o CEO (Crédito:Divulgação/Revo)

“No início, estas coisas são sempre para um público mais elevado em termos de renda, como todas as transformações que vimos no transporte. Quando chegou o avião, era só para as elites, os barcos no início também eram assim. A tendência é esta, mas com o tempo existe um efeito mais democrático do transporte. É isso que esperamos que a tecnologia permita.”

O eVTOL tem capacidade de levar quatro passageiros (além do piloto), tem emissão de carbono zero e, para além disso, tem um benefício para quem não deve usufruir do serviço e apenas verá a aeronave no céu de São Paulo.

“Há um fator imediato que é o fator ambiental e de conforto. Esse fator tem um impacto para o cliente que voa, mas também um impacto colateral para as pessoas que vivem na cidade. Hoje São Paulo é uma cidade muito impactada pelo movimento aéreo de aviões e helicópteros. Quem mora em São Paulo já se habituou ao ruído, mas quem chega de fora nota isso logo que chega”, explica João Welsh.

“No dia que começarmos a ter veículos mais silenciosos, com menos emissão de gases, não são só os passageiros que vão beneficiar, mas também a cidade. Acho que isso é um ponto bastante importante na introdução do eVTOL”, completa.

Quanto custará o ‘carro voador’ da Eve Air Mobility

O contrato da Revo com a Eve é da cifra de US$ 250 milhões, pela aquisição de 50 aeronaves. O valor, entretanto, não será pago à vista ou em uma só parcela. O investimento será faseado, e tanto o dinheiro pago quanto a remessa de aeronaves serão fracionados.

“Não podemos dar muitos detalhes sobre o contrato, mas o que eu posso dizer é que será uma entrega de aeronaves faseada. Não vamos receber 50 no primeiro dia, e isso obviamente está ligado com o investimento. Existe uma ideia de receber primeiro 2 aeronaves, em um primeiro passo, depois mais 2, mais 3 , mais 3 e por aí vai”, conta Welsh.

A decisão de investimento ‘não foi fácil’ justamente por representar um aporte substancial – na casa dos bilhões, caso convertida para a moeda local brasileira. No total, foram 18 meses de diálogo e planejamento até o contrato ser assinado.

Entretanto, o Conselho de Administração e os sócios entraram em consenso sobre o tema, especialmente considerando que a expectativa é de que o serviço de eVTOLs ganhe protagonismo e seja o core business – representando uma fatia maior da operação e do faturamento em detrimento dos helicópteros.

O momento da companhia é de expansão, com o faturamento de 2025 tendo um incremento próximo dos 200% ante o ano anterior, fruto de uma operação com três aeronaves dedicadas à operação de São Paulo, com quatro rotas fixas.

Atualmente a Revo opera somente na maior América Latina, mas não descarta expandir para outras cidades.

Novos ares para a Revo – ou novas rotas aéreas

Questionado sobre aumentar a capilaridade da empresa, Welsh revela que é algo que ‘está nos planos’, mas não necessariamente a ideia é expandir no sudeste brasileiro ou para outras regiões do território nacional.

A gestão entende que é mais vantajoso procurar ‘outras cidades iguais São Paulo’ em outros países, eventualmente na América Latina.

“Nós vemos um crescimento mês a mês do negócio, e, portanto, a vontade de crescer segue, e não só em São Paulo. Estamos avaliando a Revo ir para outras cidades. Isso não necessariamente está condicionado ao eVTOLs, mas vemos potencial em usá-los. É mais provável que seja fora do Brasil, com cidades semelhantes a São Paulo. Também temos planos de ir para outras cidades no Brasil, mas em um segundo momento.”

Como funciona um eVTOL, ou carro voador

O eVTOL desenvolvido pela Eve, uma companhia da Embraer, faz com que o Brasil esteja na vanguarda dessa tecnologia – dado que a empresa foi a que melhor tornou a aeronave um negócio escalável e lucrativo, fazendo a indústria sonhar de forma mais concreta com um táxi aéreo elétrico, moderno e com custos mais baixos.

O veículo é,, em suma, uma aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical projetada para serviços de mobilidade aérea urbana, com foco em rotas curtas dentro ou ao redor de centros urbanos.

O design do eVTOL combina duas funções de voo distintas:

  • Lift + cruise (sustentação + cruzeiro): o sistema tem rotores dedicados exclusivamente à subida e descida vertical e asas fixas para o voo horizontal. Isso significa que não há partes móveis que mudam de posição durante o voo, o que simplifica a operação e reduz a complexidade mecânica

A aeronave utiliza oito rotores para elevação vertical e um motor elétrico traseiro para propulsão no modo de cruzeiro. Essa distribuição de propulsão elétrica é conhecida como propulsão elétrica distribuída e aumenta a redundância e a segurança geral do sistema.

O eVTOL da Eve é totalmente elétrico, movido por baterias. Essa configuração elimina emissões de carbono no nível local e reduz o ruído em comparação com helicópteros tradicionais. A autonomia é projetada para cerca de 100 quilômetros por carga, e a velocidade média de cruzeiro deve ficar em torno de 200 km/h, permitindo trajetos rápidos dentro de regiões metropolitanas.

São empregados sistemas de controle baseados principalmente em fly-by-wire, tecnologia eletrônica que transmite os comandos do piloto aos atuadores sem ligação mecânica direta. Isso melhora a precisão dos controles e facilita a integração com sistemas automatizados de gestão de voo. Sensores e sistemas fornecem dados como velocidade, fluxo de ar e altitude, essenciais para a operação segura em diferentes condições meteorológicas.

Antes de entrar em serviço comercial, a aeronave passa por uma fase extensa de testes de voo e certificação junto a órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e autoridades internacionais. O protótipo já realizou voos de teste, validando sistemas essenciais e iniciando o ciclo de ensaios que antecede a operação comercial.

Além da aeronave, a Eve desenvolve soluções operacionais que incluem manutenção, treinamento e sistemas de gerenciamento de tráfego aéreo voltados à mobilidade urbana. Esses sistemas são necessários para integrar os eVTOLs de forma segura ao espaço aéreo, junto com drones, helicópteros e aviões convencionais.

Como está o mercado no resto do mundo

No cenário global, o mercado de eVTOLs ainda está em fase pré-operacional. Não há, até o momento, um serviço comercial regular desse tipo em funcionamento em larga escala. A Eve aparece entre as empresas mais avançadas nesse processo.

Segundo dados divulgados pela própria companhia, há cerca de 3 mil unidades encomendadas através de cartas de intenção por aproximadamente 30 clientes de 15 países diferentes.

Essas encomendas não são contratos formais de compra, mas indicam interesse comercial e ajudam a financiar o desenvolvimento do projeto.

Especialistas do setor apontam que o sucesso dos eVTOLs depende de fatores como regulação, aceitação do público, integração com o transporte terrestre e viabilidade econômica. No Brasil, a Anac já publicou normas específicas para esse tipo de aeronave, o que é visto como um passo importante para viabilizar a operação comercial.