Ainda falta pouco mais de um ano para as eleições presidenciais, mas já dá para ter uma certeza. Qualquer que seja o próximo presidente, venha ele da aliança governista ou da oposição, a herança não será das melhores. Quem assumir o Palácio do Planalto levará um País com baixo crescimento, alto endividamento e uma forte dependência de capitais externos, num ambiente internacional cada vez mais avesso aos riscos de um país emergente. A cada ano, para fechar as contas, o eleito terá de convencer o mundo a injetar cerca de US$ 55 bilhões no Brasil, na forma de investimentos ou de novos empréstimos. É por isso que a corrida sucessória tem despertado interesse no meio empresarial com tanta antecedência. Depois da safra de jantares entre presidenciáveis e a nata do capitalismo brasileiro, agora é a vez de grandes bancos internacionais elaborarem seus cenários políticos para 2002. A primeira colaboração de peso veio da Merrill Lynch, uma das
maiores corretoras do mundo com mais de US$ 1 trilhão em gestão de ativos. A Merrill acaba de distribuir para clientes de todo o
mundo um relatório em que detalha os prós e contras de cada candidato. Chama-se Investor?s Guide to Brazil?s 2002 Elections,
ou Guia do Investidor para as Eleições de 2002. ?Ainda há, no mercado, muito desconhecimento em relação ao sistema político brasileiro?, diz Marcelo Audi, vice-presidente da Merrill Lynch e responsável pelo trabalho.

No estudo, Audi tentou traçar os quatro fatores que devem influenciar os eleitores: o comportamento da economia, as alianças político-partidárias (que definem os tempos no horário eleitoral), a experiência administrativa e a bandeira ética. O primeiro ponto, a economia, tende a prejudicar o governo, mas nem tanto. ?Uma crise muito aguda, cuja causa possa ser atribuída a fatores externos, tende a fortalecer um sentimento conservador no eleitor?, diz. Basta lembrar as eleições de 1998, marcadas pelo medo, em que o presidente Fernando Henrique Cardoso, apesar da recessão e dos juros de 50% ao ano, apresentou-se como o homem mais confiável para enfrentar a turbulência que se seguiu à moratória russa. Não surpreende o fato de FHC ter dito que os ataques aos Estados Unidos podem trazer graves impactos econômicos. Já é, segundo o economista Paulo Nogueira Batista Júnior, da Fundação Getúlio Vargas, uma boa desculpa para esconder as próprias deficiências.

Seja como for, Audi não subestima a força do governo e aponta como virtudes de José Serra, o principal candidato do PSDB, a experiência administrativa e os resultados obtidos no Ministério da Saúde. Sua maior fraqueza seria o baixo desempenho em eleições majoritárias. O governador do Ceará, Tasso Jereissati, é definido como experiente, mas pouco visível fora do Nordeste. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, tem imagem ligada à estabilidade, mas dissociada da área social. A governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), pode conquistar votos femininos, mas carece de visibilidade nacional. No bloco da oposição, Luís Inácio Lula da Silva, presidente de honra do PT, ganha no aspecto ético, mas perde pela inexperiência e pela repercussão ruim de administrações petistas em regiões importantes, como a cidade de São Paulo e o Rio Grande do Sul. O ex-ministro Ciro Gomes (PPS), carismático e com boa imagem ética, carrega uma estrutura partidária pequena. O governador mineiro Itamar Franco (PMDB) introduziu o Real, mas possui fama de ter um caráter imprevisível. O governador Anthony Garotinho (PSB), popular no Rio, com quase 10% dos eleitores do País, sofreu acusações recentes de corrupção.

O vice-presidente da Merrill Lynch não fez avaliações subjetivas nem indicou que candidato seria melhor ou pior para o mercado financeiro. ?Mas é evidente que políticas heterodoxas, que impliquem quebras de contratos, não agradam investidores?, afirma Audi. O recado vale para o PT, que fala em renegociar a dívida externa e em rever privatizações. A reação do governo, há alguns meses dado como cachorro morto, é destacada por Audi e por outros bancos. ?Obstruindo o projeto de Itamar no PMDB, dando espaço político para Malan e estimulando a candidatura Jereissati, o presidente continua sendo o mais importante articulador da própria sucessão?, diz o economista José Antônio Penna, que preparou um relatório recente do BankBoston sobre cenários políticos até 2002.