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Um Brasil sem retoques entra todos os dias pela porta de uma sala lateral no subsolo do Palácio do Planalto. Em caligrafias trêmulas ou elegantes, frases objetivas ou enrodilhadas, cheias de erros ou com tudo certo em gramática, as cartas endereçadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ? recebidas em primeiro lugar na discreta Diretoria de Documentação Histórica da Presidência da República e às quais DINHEIRO teve acesso ? compõem uma imagem sobretudo sincera do que se passa no País. Especialmente na base da sociedade, entre o povo, lá na parte de baixo da pirâmide. É das classes C e D que sai a grande maioria das 69.130 mensagens enviadas pelo correio a Lula entre a posse, em 1o de janeiro, e a última sexta-feira 10. Tratado menos por ?Vossa Excelência? e mais por ?você?, ?amigo? e ?companheiro?, o presidente está encarnando o papel de confessor das mazelas nacionais. ?Agora apareceu um Brasil diferente, mais miserável?, avalia o historiador Claudio Soares Rocha, diretor do departamento encarregado de receber, encaminhar, responder e, ao final desse processo, arquivar cada uma das mensagens. ?Antes, com o presidente Fernando Henrique, as correspondências tinham um tom mais obsequioso, formal. Diante de Lula a identificação popular é direta. Quem escreve parece estar mais à vontade para revelar seus verdadeiros problemas?, diz Rocha, que manipulou a correspondência dos quatro últimos chefes de Estado.

As cartas dão também a dimensão da popularidade do presidente. Em 1995, primeiro ano do primeiro mandato de FHC, foram postadas 52 mil cartas destinadas ao presidente ? 17 mil a menos do que para o atual governante em apenas nove meses no cargo. Com cerca de 8 mil recebidas a cada mês, Lula é o principal depositário de correspondências do País. O ator Sérgio Maroni, do seriado Malhação, atual campeão de audiência entre as estrelas da TV Globo, recebeu exatas 512 mensagens no mês passado. ?Impressiona em Lula o fato de a quantidade de cartas se manter alta, sem declínios, desde o início do governo?, registra o diretor Rocha.

 

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Mensagem direta no envelope: Em dois pacotes recebidos no Palácio do Planalto, o conteúdo explícito já do lado de fora: críticas à política econômica e ao FMI

A comunicação dos brasileiros com o presidente é, em geral, clara. O padrão da correspondência é formado por cartas simples, duas páginas escritas à mão. No meio do volume imenso ? duas vezes ao dia uma van dos Correios despeja pesados fardos em uma agência localizada no edifício anexo do Planalto, onde é feita a checagem de segurança e a primeira triagem ?, há, no entanto, exceções gritantes. Alguns, com medo de não ter sua correspondência sequer aberta, escrevem palavras chaves já na face dos envelopes. ?Economia, economia?, salpicou, como se procurasse fazer sua carta gritar entre as milhares de outras, um missivista do Centro-Oeste. O conteúdo é bastante variado, mas as estatísticas da Diretoria de Documentação demonstram que, carentes, os cidadãos escrevem, sobretudo, em busca de ajuda. Os pedidos ? de empregos, remédios e pela aposentadoria ? estão em 53% da correspondência recebida. Em quantidade, os apoios irrestritos a Lula (8,9%) são em maior número, mas não abrem grande vantagem sobre as críticas (5,9%) a seu governo. A figura do presidente, porém, mesmo quando a mensagem é de recriminação, vai sendo preservada. Assuntos como a recessão na economia, as reformas constitucionais, o desemprego, as mordomias dos políticos e juízes e o acordo com o FMI são tratados sem rodeios em centenas de cartas a Lula ? o que mostra um Brasil sintonizado no noticiário. Um exemplo flagrante foi o pico de mais de 10 mil cartas no mês de maio, reflexo imediato da entrega, por Lula, das propostas de reformas constitucionais ao Congresso, no final de abril.

O Brasil queixa-se a Lula, mas em pouquíssimas vezes, até agora, o presidente é apontado como responsável pelo atual estado de coisas. Ao contrário, a respeito dele desenha-se na montanha de textos uma imagem de vítima de um sistema econômico perverso. ?Você sabe o que é passar fome, por isso confio em você?, assinala uma carta nordestina. De Alto Araguaia, no Mato Grosso, uma fã mandou um bilhete curto. ?Adorei quando você disse que não sabe falar inglês, mas fala a nossa língua?. Na carta que acompanha duas toalhas bordadas à mão, enviadas para o presidente e à primeira-dama Marisa, uma senhora de Natal (RN), sem querer, faz do seu presente um protesto como o de milhões de brasileiros. ?Queria mandar desde janeiro, mas faltou grana?, resumiu.

 

 

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Do papel para a história: Todas as cartas endereçadas a Lula ficam sob a responsabilidade do Departamento de Documentação Histórica, chefiado por Claudio Rocha (acima). Uma equipe dos Correios faz duas entregas diárias de correspondência. Os papéis são p

É um consenso dentro do
governo apurar cada vez mais de perto o conteúdo e a origem das cartas. Acredita-se que elas podem vir a ser um poderoso instrumento de governo. Hoje já é possível identificar, pela análise numérica da correspondência, onde o
Brasil vai bem ? e onde as
carências são maiores. Com 25,1 milhões de habitantes e 14% da população nacional, a região Sul é responsável por 8% do total das cartas postadas ao presidente, pouco mais que o Norte, onde residem apenas 7,5% dos
brasileiros – e de onde saíram
4% das cartas. Sinal de
que, ao Sul, as necessidades básicas da população estão melhor atendidas. Do Nordeste, Pernambuco é o campeão de missivas, com 23% do universo regional, dois pontos acima da Bahia (21%), que tem 5 milhões de habitantes a mais. O motivo do descompasso entre demografia e quantidade de mensagens é simples: afetividade. Lula, afinal, é pernambucano.

O governo quer conhecer melhor as mensagens que vêm pelo correio. Embora a Diretoria de Documentação fique a poucos passos do local onde estaciona o carro oficial do presidente, Lula foi o primeiro deles a visitar essa repartição. O sistema informatizado de catalogação está sendo mudado para permitir que possam ser feitas uma série de cruzamentos. Muitas cartas saídas de uma mesma cidade, por exemplo, passarão a ter seu conteúdo comparado para identificação de necessidades coletivas de populações. Feitura de obras ou instalação de programas sociais pode ser o passo seguinte. Outro sinal relevante veio do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Logo no início do mandato, ele realizou reunião com chefes de gabinetes de todos os ministérios para alertar que nenhuma carta encaminhada pelo Palácio do Planalto pode ser desprezada. Cada uma delas tem de, necessariamente, entrar na agenda de atenções dos ministros.

 

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A força do Rádio: O presidente José Sarney inovou no relacionamento com os eleitores. Criou o programa “Conversa ao Pé do Rádio”, transmitido pela Radiobrás, todas as sextas. Lula quer criar, ainda este ano, o programa de nome provisório “Conversa com o

As cartas a Lula, assim, vão se constituindo num atalho para cortar o emaranhado da burocracia estatal. Do Brasil que não pode esperar, aquele no qual as pessoas necessitam de remédios caros e operações urgentes, alguns casos foram resolvidos a partir da comunicação escrita ao presidente. Recentemente, a partir de uma carta recebida no Planalto, o Ministério da Saúde viabilizou, gratuitamente e em tempo recorde, a importação de medicamentos sofisticados para um paciente que corria risco de morte. Com o mesmo sentido de urgência, a equipe de Claudio Rocha já conseguiu agilizar internações hospitalares a favor de pessoas carentes que fizeram apelos ao presidente, encaminhou pleitos de gente cuja casa iria a leilão ou até de condenados que, sentindo-se injustiçados, apelavam por uma revisão de suas penas. A estatística da correspondência do presidente cresce assustadoramente quando se computam, também, outros tipos de mensagens recebidas no Planalto ? em uma única viagem aos rincões do Brasil, Lula é capaz de trazer nos bolsos mais de 200 bilhetes entregues em mãos por populares. Instrumento de comunicação típico da classe média, os e-mails também chegam em grande quantidade. Até agosto contava-se 47,8 mil recados despachados pelo computador. Ali, o termômetro é ainda mais nervoso. Em 25 de setembro, data em que o vice-presidente José Alencar assinou a Medida Provisória liberando o cultivo de sementes transgênicas no País, o sistema de computadores do Planalto ficou travado em razão da chegada, apenas no período da manhã, de cinco mil e-mails. A maioria, com protestos contra a decisão. Esses registros são classificados no Departamento de Documentação na rubrica campanha, pela razão de terem sido motivados por organizações não-governamentais ou entidades associativas. Na semana passada, o alvo das campanhas (virtuais ou não) dirigidas a Lula era pela proteção do mogno, madeira nobre da região amazônica.

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Apoio explícito supera as críticas ao governo: Correspondência popular preserva o presidente dos erros do governo. Lula é visto mais como vítima do que como responsável pelo estado de coisas

A enxurrada contínua de correspondências para o presidente fez a estrutura do Departamento de Documentação dobrar de tamanho. Aos oito leitores de cartas dos tempos de FHC somaram-se, na era Lula, mais oito. Duas pessoas são encarregadas apenas da tarefa de abrir os envelopes. Outros dois têm a função de envelopar a correspondência a ser expedida em resposta às cartas. ?Nenhuma carta fica sem resposta?, garante o diretor Rocha. Em média, uma carta que chega ao Planalto leva sete dias para ser respondida. As respostas costumam ter três parágrafos. O de abertura e o do pé do texto são padronizados. É no miolo da correspondência de volta que a equipe de Lula procura atingir o ponto exato da questão levantada pelo missivista. Explica-se, ali, que uma solicitação de revisão de aposentadoria foi encaminhada ao Ministério da Previdência; um pedido de emprego, ao Ministério do Trabalho; um conselho político, ao próprio Lula, registrado com atenção.

É a secretária particular Clara Ant que leva ao presidente, nos intervalos da agenda de compromissos do gabinete do terceiro andar do Planalto, as pilhas de cartas para serem autografadas. Uma a uma as cartas recebem a marca pessoal de Lula. Ele costuma torcer o nariz quando vê Clara com o monte de cartas nas mãos, mas já se acostumou a ler algumas pessoalmente. Ele ficou encantado ao responder um lote que chegou da cidade piauiense de Acauã, no final do primeiro semestre. Eram mensagens de agradecimentos enviadas pela primeira turma de idosos alfabetizados da cidade, na esteira da chegada do programa Fome Zero. O presidente também já recebeu mensagens de índios, em língua nativa, e de cegos, em braile. Cartas de crianças costumam emocioná-lo em especial. Cerca de 1.900 vieram do exterior, em idiomas como russo e indiano. Neste circuito, tanto as que chegam às vistas de Lula como as que são resolvidas lá mesmo, na sala sem janelas no subsolo do Planalto, têm um mesmo destino: passam a pertencer ao arquivo da Presidência. Ali, asseguram seu lugar na História.