25/09/2026 - 15:04
Enquanto o setor de apostas registra um crescimento acelerado no Brasil, com mais empresas licenciadas e aumento de faturamento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve anunciar nesta quinta-feira a proibição das casas de apostas em um evento em São Paulo. A decisão ocorre em meio a um mercado em franca expansão e debates sobre a regulamentação e o impacto financeiro nas famílias brasileiras.
Até o primeiro semestre deste ano, o Brasil contava com 84 bets licenciadas para oferecer apostas no país, gerenciando 193 marcas ativas. Nos seis primeiros meses do ano passado, eram 77 operadoras e 159 marcas, de acordo com os números que constam no Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), uma plataforma oficial desenvolvida pelo Ministério da Fazenda. Os dados do setor no Brasil foram consolidados pela consultoria brmkt.co com base em informações oficiais do mercado regulado de apostas e iGaming no Brasil.
O que aconteceu
- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciará a proibição de casas de apostas em um evento em São Paulo nesta quinta-feira.
- O setor de bets no Brasil apresentou um faturamento bruto de R$ 20,28 bilhões no primeiro semestre deste ano, um aumento de 6,2% em relação ao período anterior.
- Paralelamente ao crescimento, o mercado de apostas destinou R$ 2,49 bilhões a políticas públicas no primeiro semestre de 2026, com milhões de apostadores ativos.
Essas empresas tiveram uma receita bruta (o chamado Gross Gaming Revenue – GGR) de R$ 20,28 bilhões nos primeiros seis meses deste ano, alta de 6,2% em relação aos R$ 19,09 bilhões na comparação com igual período do ano passado. A receita bruta total de 2025 foi de R$ 40,69 bilhões. O GGR é o dinheiro que fica com a casa de apostas após o pagamento de todos os prêmios aos apostadores.
Pela legislação, uma parte desse dinheiro tem destino certo. Do volume arrecadado no primeiro semestre de 2026, R$ 2,49 bilhões foram destinados obrigatoriamente por lei a políticas públicas, nos setores de Esporte (R$ 870,15 milhões), Turismo (R$ 677,52 milhões), Segurança Pública (R$ 329,08 milhões), Seguridade Social e Educação (R$ 493,84 milhões combinados), entre outros.
Regulamentação e destino de recursos
Destino incerto sobre outorgas já pagas
Autorizadas em 2018, durante o governo de Michel Temer, as bets atuaram sem nenhuma regulação até 2023, quando foi aprovada uma nova lei sobre o tema. O mercado regulado em si, por sua vez, só começou a valer em 2025, após a regulamentação infralegal do governo, a análise da Fazenda sobre as empresas autorizadas e o pagamento de outorga de R$ 30 milhões.
Hoje, todas as plataformas registradas no Brasil operam sob o domínio obrigatório .bet.br e a regulamentação brasileira de cota fixa (em que o apostador sabe exatamente quanto pode ganhar no momento em que faz a aposta) abrange tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line/iGaming (cassinos virtuais, e jogos de slot/crash como o tigrinho) sob as mesmas autorizações.
Isso significa que, na prática, as principais operadoras licenciadas podem operar no chamado modelo integrado, oferecendo tanto apostas esportivas quanto cassino on-line na mesma plataforma. Nos dados oficiais consolidados pelo governo não há separação do faturamento por tipo de jogo.
O governo federal arrecadou R$ 2,5 bilhões em taxas de outorga fixa das empresas de apostas esportivas desde o início da regulamentação até meados de 2026. Não há definição ainda sobre o que vai acontecer com esse dinheiro, se ficará com o governo ou será devolvido às bets.
O valor de outorga por empresa é de R$ 30 milhões e a licença vale por cinco anos. Estima-se que o mercado ilegal ainda represente entre 38% e 44% do consumo total de apostas no Brasil, abaixo da estimativa anterior de 41% a 51%.
Quem são os milhões de apostadores no brasil?
A média mensal de apostadores recorrentes ativos em 2025 ficou em torno de 9,25 milhões de pessoas por mês. Mas o número de pessoas aptas a fazer apostas é bem maior.
Até setembro deste ano, havia 31,82 milhões de CPFs únicos com status ativo no cadastro do governo. Desses, 30,4 milhões de pessoas efetivamente realizaram ao menos uma aposta no primeiro semestre de 2026.
Os apostadores formam um público predominantemente jovem: 71,90% têm 40 anos ou menos (29,03% têm entre 31 e 40 anos; 21,95% de 25 a 30 anos; e 20,92% até 24 anos). Do universo de apostadores, 68,30% são homens e 31,70%, mulheres.
Para operar legalmente no Brasil, as empresas adotam uma série de medidas:
- Exigem biometria facial;
- Bloqueiam menores de 18 anos;
- Proíbem o uso de cartão de crédito (aceitando apenas Pix ou transferências vinculadas ao mesmo CPF);
- Beneficiários de programas sociais (como Bolsa Família e BPC) e cadastrados no Desenrola, programa de renegociação de dívidas, ou FIES (financiamento estudantil) são bloqueados diariamente no sistema.
O valor das apostas em queda e o impacto nas famílias
Os brasileiros fizeram depósitos de R$ 88,48 bilhões no 1º semestre de 2026, dinheiro que sai das contas bancárias e vai para as plataformas para que o usuário possa fazer apostas ou dar palpites. O valor representa uma queda de 12,4% se comparado aos R$ 100,99 bilhões depositados no mesmo período de 2025.
Ao todo, no ano passado, os depósitos chegaram a R$ 220 bilhões e cerca de R$ 183 bilhões foram pagos aos apostadores em prêmios e bônus, o que significa que aproximadamente R$ 37 bilhões se transformaram em perdas de apostadores, convertidas em receita bruta para as empresas. É um valor considerável, que se soma a montantes ainda maiores, como os R$ 62,5 bilhões que famílias brasileiras perderam para as “bets”.
Gigantes do setor e a arrecadação governamental
Entre as maiores empresas que atuam no país, o grupo NSX, que nasceu no Recife, expandiu-se para São Paulo e detém marcas como Betnacional, Mr. JackBet e PagBet. A empresa teve 56% de seu capital adquirido pela gigante irlandesa Flutter Entertainment (dona da Betfair) por R$ 3,8 bilhões.
O grupo americano de cassinos MGM Resorts e o Grupo Globo criaram uma joint venture, a BetMGM. A Ana Gaming Brasil é dona das marcas 7K.Bet.br, Cassino.Bet.br e Vera.bet.br. A MagicBet777 foi comprada pela MeridianBet, presente em mais de 15 países. A Sortenabet Gaming Brasil detém as marcas Sorte na Bet e Betou.
O setor regulado gera mais de 10 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos no Brasil em áreas de tecnologia, compliance, jurídico e atendimento.
A arrecadação com tributos e licenças/outorgas em 2025 foi de R$ 7,9 bilhões. Entre janeiro e agosto de 2026, a arrecadação acumulada atingiu R$ 9,9 bilhões. Este ano, a alíquota de tributos sobre as bets subiu de 12% para 13% e chegaria a 15% em 2028.
