Dono de uma fatia expressiva do mercado de delivery de comida, o iFood não se vê como monopólio ou próximo disso, e rebate críticas de concorrentes que alegam práticas anticoncorrenciais.

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Ao Dinheiro Entrevista, o CEO do iFood, Diego Barreto, nega que a empresa aplique o chamado shadowban (bloqueio fantasma) em restaurantes que não são exclusivos. O executivo também questiona o que considera um recorte seletivo das métricas de market share por parte de concorrentes a fim de reforçar o argumento de que o iFood não estaria muito longe de ser um monopólio.

“Acho normal eles [concorrentes] terem esse tipo de retórica, super normal. A gente está nesse negócio há muito tempo e todas as vezes é a mesma ladainha. Por que que a ladainha é essa? Porque é mais fácil usar esse argumento e trazer atenção para isso do que usar algum argumento interno, algum argumento de uma dificuldade operacional, uma dificuldade tecnológica, entre outras coisas”, diz Diego Barreto.

“A Keeta entrou em Santos e está lá operando. A Keeta entrou aqui em São Paulo e está operando. Em Santos e em São Paulo ela não tem esses problemas? Sendo que meu acordo com o Cade é nacional”, completa.

O executivo defende que, apesar de a empresa dominar algo próximo de 80% do market share de pedidos por aplicativo, essa não seria a métrica mais adequada.

“A métrica justa é olhar delivery como um todo, e aí temos algo próximo de 20%, um pouco mais do que isso”, afirma.

Desde 2023, o iFood opera com algumas limitações impostas por um acordo firmado com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que prevê um teto para o percentual de restaurantes exclusivos, dentre outras limitações (detalhes ainda neste texto mais abaixo).

A plataforma nunca foi penalizada por descumprir as regras impostas pelo acordo. Entretanto, isso não significa que os ânimos foram acalmados dentro do ramo – pelo contrário.

Guerra do delivery

Com novos entrantes nos últimos meses, incluindo Keeta e 99food, a concorrência no setor ficou mais draconiana e deflagrou-se a chamada guerra do delivery. O panorama conta com casos de espionagem que alvejava dados sigilosos e acusações de práticas como shadowban.

Além das concorrentes, entidades como a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) também entraram no jogo com acusações de práticas anticoncorrenciais.

shadowban, em suma, é uma prática que consiste na redução da visibilidade ou alcance de alguma conta ou página sem aviso prévio, fazendo parecer que está tudo normal. Em outras palavras, seria como se os restaurantes não exclusivos do iFood fossem desfavorecidos dentro da plataforma, com usuários tendo mais dificuldade de encontrá-los nas buscas – e consequentemente os penalizando em termos de faturamento e lucro.

Barreto nega que a plataforma faça isso.

Durante a entrevista, o executivo detalhou que o iFood apenas privilegia os restaurantes que possuem contrato de exclusividade com a empresa.

“Quando você abre o app você tem uma tela. Naquela tela ali eu tenho que tomar uma decisão muito difícil. Nessa tela, eu tenho que ter uma lógica de hierarquia. Qualquer empresa no mundo, ela tem que criar essa lógica. A gente tem uma lógica. Existe uma punição a alguém? Zero. Você quer ver um exemplo muito simples disso? Se você abrir o app agora, você vai ver restaurantes que estão lá e que não são exclusivos já na primeira tela, na primeira passagem de dedo”, diz.

“Por que que eles estão lá? Porque existe uma lógica de marca, tamanho, nível de serviço, proximidade. Ser exclusivo é mais um elemento”, completa.

Barreto ainda cita que empresas de outros ramos – como companhias aéreas e empresas do varejo – privilegiam clientes que possuem fidelidade, por exemplo. Nesse sentido, reforça que a política adota pela empresa está em conformidade com o acordo firmado para com o Cade em 2023.

“Quando um restaurante diz ‘eu topo ser exclusivo seu’, o que que ele tá esperando de volta? Algum benefício. Ele está esperando ter alguma coisa. É a mesma coisa quando você escolhe voar várias vezes numa mesma companhia aérea, você ganha dela um cartão que te permite, por exemplo, embarcar mais cedo no avião ou ganhar uma milha diferenciada. Quando você está num banco e você coloca mais dinheiro vis a vis outro banco que você tem, ele te transfere de uma agência X para uma agência Y. É a mesma coisa. Não existe shadowban dentro do iFood.”

O aperto de mãos entre iFood e Cade

O acordo firmado entre a iFood e o Cade, em fevereiro de 2023, marcou um ponto de inflexão na discussão concorrencial do setor de delivery no país.

O entendimento encerrou um processo iniciado anos antes, após denúncias de rivais como a Rappi e a própria Abrasel, que apontavam práticas capazes de limitar a atuação de concorrentes por meio de contratos de exclusividade com restaurantes.

Na prática, o instrumento adotado foi um Termo de Compromisso de Cessação (TCC). O documento permitiu à empresa manter suas operações sem a aplicação imediata de sanções, desde que passasse a cumprir uma série de restrições estruturais.

Entre elas, estão limites claros para a exclusividade: apenas uma fração do volume transacionado na plataforma pode vir de parceiros exclusivos, além de restrições adicionais em grandes centros urbanos, onde a concentração de mercado tende a ser mais sensível.

Com isso, o iFood só pode firmar exclusividade com 8% dos restaurantes do Brasil todo – com mecanismos que também limitam eventuais dominâncias regionais.

O acordo também vedou a assinatura de contratos de exclusividade com grandes redes de alimentação e estabeleceu prazos máximos para esse tipo de vínculo, incluindo períodos obrigatórios sem exclusividade antes de eventuais renovações.

Outro ponto central foi a proibição de práticas que induzam restaurantes a priorizar a plataforma, como exigências de preços diferenciados ou direcionamento de volume de vendas.

Para garantir o cumprimento das regras, o Cade determinou a atuação de um monitor independente, responsável por auditar periodicamente os dados da companhia.

O que os concorrentes dizem

A IstoÉ procurou a Keeta para comentar o tema, especialmente considerando que a companhia promoveu uma demissão em massa no Rio de Janeiro, onde adiou a entrada no mercado.

A empresa alega que decidiu adiar o lançamento no Rio de Janeiro para ‘focar na melhoria dos padrões de serviço do mercado para consumidores, restaurantes e entregadores parceiros, o que inclui resolver questões estruturais que inibem a concorrência saudável no segmento de delivery brasileiro, antes de continuar a expansão geográfica no país’.

“A empresa já contava com cerca de 17.000 restaurantes e 28.000 entregadores parceiros cadastrados na plataforma no Rio de Janeiro. Cláusulas de exclusividade impostas a restaurantes por outras plataformas de delivery, que chegam a 50% das redes com mais de 5 lojas no Brasil, colocam em risco a competição saudável no país, impedindo a livre escolha e restringindo oportunidades de renda para todos os participantes do mercado, incluindo consumidores e parceiros comerciais”, disse a empresa chinesa, em nota.

“Acreditamos que restaurantes devem ter liberdade para diversificar canais de vendas, entregadores parceiros devem ter mais oportunidade de geração de renda, e consumidores devem se beneficiar de um maior leque de opções e um serviço com mais qualidade. A Keeta reafirma o compromisso de longo prazo com o Brasil e o investimento de R$ 5,6 bilhões ao longo de 5 anos, aplicando a expertise tecnológica de 15 anos da Meituan na China, onde a plataforma atende 800 milhões de usuários e com uma média de 80 milhões de pedidos por dia – volume equivalente ao movimentado pelo mercado brasileiro em 1 mês”, completou a Keeta.

Conforme revelado pela IstoÉ Dinheiro ainda neste mês de março, a Keeta alega ter provas concretas de contratos irregulares assinados pelo iFood com restaurantes.

“Eles não podem renovar exclusividade por mais de dois anos, mas, com base na nossa experiência nas cidades, descobrimos que alguns contratos são renovados após esse período”, disse o CEO da Keeta no Brasil, Tony Qiu, em entrevista.

O executivo chegou a declarar que a empresa está ‘bloqueada em ambos os níveis de restaurante por esses dois competidores’ – em ode ao iFood e ao 99.

A empresa defende que esses contratos de exclusividade com o iFood, assinados com redes de restaurantes com menos de 30 unidades, estariam restringindo os negócios com redes menores.

Simultaneamente, grandes cadeias como Outback e Burger King estariam bloqueadas por contratos assinados pela 99Food, com cláusulas específicas contra a Keeta.

Os casos de espionagem

A concorrência no segmento se tornou tão intensa que, desde meados do segundo semestre de 2025, mensagens de assédio a funcionários do iFood tem sido registradas a fim de colher informações internas e fechadas, segundo Barreto.

CEO do iFood atesta que foram mais de 500 mensagens de outros players com abordagens que incluíam até mesmo oferta de dinheiro. Ele categoriza o caso como uma ‘ação coordenada’.

“O que existe, claramente, é uma ação coordenada para ter acesso a dados privados. Falar com alguém da empresa ou contratar alguém da empresa e outras coisas do tipo, faz parte. Não tem problema nenhum. O que é diferente de você coordenar ações para ter acesso a informações privilegiadas, confidenciais, algo que fere privacidade”, conta.

modus operandi inclui mensagens de LinkedIn que oferecem uma quantia de dólares por uma reunião inicial de ‘consultoria de mercado’. O valor ofertado aumenta na proposta para uma segunda reunião, para ‘explicar sobre mercado’, e vai escalando de reunião em reunião até um valor mais alto para que o funcionário detalhe questões como algoritmo e política de preços.

Essas mensagens teriam alvejado a camada ‘do meio’ da hierarquia da empresa, dado que os valores não são tão altos e fariam alguma diferença financeira considerando o patamar salarial de quem estava sendo assediado.

Barreto também detalha que uma outra abordagem incluía pagar para que pessoas fizessem entrevistas de emprego.

“Você já viu na sua vida alguém te oferecer dinheiro para você ir numa entrevista de emprego? Não existe isso. É só esse exemplo? Não. São mais de 500 mensagens de pessoas que tentaram percorrer esse caminho. Algumas pessoas foram ludibriadas e caíram nisso. Três delas, infelizmente, tem um mandado de busca e apreensão”, conta o executivo do iFood.