08/02/2026 - 9:00
A OpenAI passou 2025 arrumando a casa até anunciar sua nova estrutura corporativa e, agora com os ajustes feitos, promete agitar o mercado tecnológico global nos próximos meses.
Em apenas dez anos, a iniciativa que nasceu como um laboratório de pesquisas para desenvolver inteligência artificial (IA), e dona do benchmark ChatGPT, tornou-se, já na virada de ano para 2026, uma companhia bilionária com fins lucrativos ilimitados – avaliada em meio trilhão de dólares, mesmo com as dúvidas que pairam sobre sua capacidade de gerar caixa.
Houve, no meio do caminho, a execução de um modelo intermediário em 2019, à época em que um investimento bilionário da Microsoft chegou ao caixa da OpenAI.
Na ocasião, a primeira subsidiária da fundação foi criada, e entregava então um “lucro limitado”. Depois da mudança estrutural, a OpenIA buscará captação de recursos em um ano que promete disrupção.
Concorrência da Anthropic e da SpaceX
Apesar dos temores de ‘bolha’ e dúvidas sobre o modelo de negócios que circundam as empresas de IA, a OpenAI, sua concorrente Anthropic (fundada por ex-participantes da OpenAI) e a SpaceX, de Elon Musk, deram, recentemente e em paralelo, os primeiros passos para abrir capital no mercado americano.
As duas primeiras vivem estágios iniciais, de preparação dentro de casa, enquanto a SpaceX já foi um pouco além e procurou bancos para liderar uma oferta pública inicial, ou IPO na sigla em inglês, em bolsa de valores.
São três das empresas de tecnologia mais valiosas do mundo, cotadas a US$ 350 bilhões (Anthropic), OpenAI (US$ 500 bilhões) e US$ 800 bilhões (SpaceX). Esta última passa de US$ 1 trilhão após fundir-se com a xAI, anúncio feito nesta semana.

+AgroGalaxy troca CEO, CFO e presidente do Conselho em nova fase da recuperação judicial
Em um momento classificado pelo The New York Times como um ano de possível “listagem de monstros”, quem investe espera pela potencial oitava magnífica, forma como os americanos se referem às superstars da tecnologia.
A lista das sete magníficas atuais, ou Big Seven, formada por Amazon, Meta, Alphabet (dona do Google), Microsoft, Apple, Nvidia e Tesla, vale lembrar, não só têm valor de mercado somado trilionário, como domina os índices acionários nas bolsas americanas.
“Vamos entrar em um período de tamanhos potencialmente sem precedentes de acordos de IPO”, disse, ao mesmo jornal americano, Eddie Molloy, co-chefe global de mercados de capitais acionários da Morgan Stanley.
O executivo não se referiu a uma empresa em particular, mas disse estar “confiante” de que são operações executáveis dado o interesse de investidores. O quadro muda, contudo, se houver piora no risco geopolítico ou incertezas em relação às eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, contribuindo para que atrasem um pouco o movimento.
Sam Altman, CEO da OpenAI, embora tenha confessado estar “zero por cento” animado para liderar uma empresa aberta, admitiu em dezembro publicamente que a companhia precisa de dinheiro.
Especula-se quando ocorrerão movimentos, mas sem ainda uma data oficial. Sobre o estopim em bolsa, a diretora financeira recém-contratada da OpenAI, Sarah Friar, disse há poucos meses a associados que a companhia vai buscar um IPO em 2027.
É via de captação de volumes altos de dólares rapidamente, mas não é a única alternativa que será levada a cabo. Uma nova rodada de captação está sendo estruturada.
E apesar dos temores relacionados à equação desnivelada entre a receita baixa da OpenAI em comparação ao imenso volume de dinheiro necessário para continuar investindo, declarações de Jensen Huang, presidente-executivo da Nvidia, há poucos dias, reforçaram os contornos sobre uma injeção de capital na companhia dirigida por Altman.
A OpenAI precisa captar US$ 100 bilhões. A Nvidia teria a intenção de colocar US$ 20 bilhões.
A Nvidia planeja um aporte financeiro “histórico” na empresa, disse Jensen Huang nesta semana que passou. Ao mesmo tempo, ele negou os rumores de que estaria insatisfeito com a criadora do ChatGPT, classificando tais especulações como “absurdas”.
Em meio a rumores e dissabores (lideranças da OpenAI teriam se queixado da qualidade do semicondutores da Nvidia, enquanto o board desta se mostraria insatisfeito com a condução estrutural da OpenAI), Huang reafirmou o interesse de investir “até US$ 100 bilhões” na dona do ChatGPT, contudo, “em mais de uma etapa”.
Nesta semana circulou a informação que o japonês Softbank teria mostrado interesse em injetar US$ 30 bilhões.

O medo de ‘bolha’
A companhia liderada por Altman precisa de dinheiro, e rápido, já que o modelo de negócios não é considerado viável atualmente.
É que a empresa cobra taxas baixas de seus usuários, o que gerou receita de US$ 13 bilhões no último ano (70% disso vem de assinaturas do ChatGPT), enquanto o aporte necessário em infraestrutura, como os data centers que sustentam operações, pode chegar a US$ 150 bilhões num período entre 2025 e 2029.
O dinheiro é necessário para garantir ainda a aquisição de semicondutores avançados, fundamentais para que a empresa mantenha hegemonia frente ao avanço de rivais como o Google e a Anthropic.
O custo operacional, e a dificuldade de monetizar os produtos em um nível comparável ao investimento, é o que preocupa analistas e investidores mais pessimistas em relação à bolha.
Por outro lado, o potencial é de IA tornando-se tão necessária à economia real quanto a eletricidade, o que sustenta visões mais otimistas. Inclusive para a transparência, o IPO cai como luva não só pelo potencial de captação de dólares.
Mas porque o modelo privado atual entrega pouco acesso às informações da OpenAI, o que inclui dados sobre pesquisas em andamento, e isso eleva a desconfiança. Abrir o capital, portanto, é moeda de duas faces: escancara a viabilidade do negócio no horizonte.
O objetivo da OpenAI, segundo Sarah, diretora financeira da empresa, é atingir a inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês). É o ponto em que uma máquina deixa de ser ferramenta especializada para se tornar um sistema capaz de realizar qualquer tarefa intelectual de um ser humano.
Para colher os frutos, disse ela, será preciso mais poder de processamento, o que explica boa parte da necessidade de infraestrutura, como os data centers (grandes processadores que, para atender o segmento de IA, usam muito mais energia).
Disputas internas
A OpenAI atravessa o período mais turbulento de sua história desde que foi fundada, em 2015. Vale lembrar que, quando abriu as portas – entre os fundadores, além de Sam Altman está Elon Musk –, a companhia era uma organização sem fins lucrativos que surgiu para desenvolver inteligência artificial para uso comum.
Mas, a mudança estrutural por necessidade de volume de investimentos a colocou em uma crise que se desdobra em três frentes críticas: governança corporativa, fuga de talentos e sustentabilidade financeira.
O que começou como uma “missão sem fins lucrativos” transformou-se em uma disputa bilionária pelo controle da inteligência artificial global. A necessidade de mudança na estrutura foi percebida por volta de 2019, quando a diretoria se deu conta que a computação necessária para treinar modelos como o ChatGPT era cara demais para uma entidade que vivia apenas de doações. Para competir com gigantes que investiam bilhões de dólares, a OpenAI precisaria de capital massivo.
A companhia, então, criou uma subsidiária que permitia lucros limitados. Nessa leva, a empresa ganhou a Microsoft como um potente investidor. Mas o modelo permite lucrar até um certo “teto”.
Qualquer valor que ultrapassasse esse limite deveria retornar para a organização sem fins lucrativos original. Contudo, gigantes como a Microsoft ou a Nvidia visam os retornos lucrativos ilimitados de uma estrutura corporativa tradicional. É a atual fase da OpenAI.
Em outubro de 2025, a companhia anunciou essa nova estrutura, o que era esperado pelo mercado de investidores. Isso trará implicações societárias.
Pelo plano, a companhia com agora finalidade clara de lucro ganha o nome de OpenAI Group PBC. A Microsoft, já parceira da empresa desde 2019, tem aproximados 27% da nova empresa, ou uma fatia avaliada em US$ 135 bilhões segundo comunicado que foi distribuído na época.
A entidade sem fins lucrativos passou então a chamar-se Fundação OpenAI, com 26% da nova companhia. O restante (47%) está nas mãos de funcionários atuais, antigos e outros investidores.
A polêmica em torno da estrutura vem do conflito de leituras relacionadas ao negócio dela, visto que deixou de ser uma espécie de “laboratório de pesquisas” para se tornar uma “startup das mais valiosas do mundo”.
É uma transição que, mesmo sendo necessária para o avanço do próprio trabalho e descobertas, acabou por afetar a confiança de fundadores e cientistas originais.
Mas o curso natural do mercado, com a presença de gigantes cheias de apetite e seus bilhões de dólares de investimentos na corrida por espaço, torna desafiador manter-se numa linha estrutural como a do início.
A OpenAI esbarra em concorrentes como a já citada Anthropic, fundada por ex-executivos da OpenAI (que já recebeu investimentos da Amazon e Google), Alphabet, que desenvolve o Gemini entre os modelos mais populares, e a Meta, com o Llama.
Parceiro relutante
Apesar do otimismo demonstrado por Huang, o Wall Street Journal reportou ao final de janeiro que o plano original teria enfrentado resistências internas na gigante dos semicondutores.
Relatos indicavam que funcionários da gigante Nvidia expressaram dúvidas sobre a operação, e o próprio Huang teria mencionado, em conversas privadas, que o montante de US$ 100 bilhões não possuía caráter vinculativo.
O CEO da companhia também teria feito críticas pontuais à suposta falta de disciplina comercial da OpenAI. Mas pouco depois Jensen Huang buscou dissipar as incertezas ao reforçar a confiança na parceria entre as empresas. “Acredito na OpenAI, o trabalho que eles fazem é incrível”, disse.
A sócia sob pressão
Apesar dos bons resultados em 2025, e de deter quase um terço da OpenAI, benchmark com seu modelo de inteligência artificial, as ações da Microsoft tombaram quase 10%, para US$ 433,40 o papel, em 29 de janeiro, logo depois da divulgação dos resultados do segundo trimestre fiscal encerrado em dezembro.
A Microsoft teve lucro ajustado por ação foi de US$ 4,14 no período, mas a companhia não alcançou as expectativas mais otimistas de crescimento da computação em nuvem Azure, combo de ferramentas, serviços e infraestrutura de IA.
As vendas do Azure cresceram 38% em valor, mas ficaram só um ponto percentual abaixo das expectativas do mercado financeiro, que era de 39%, o que evidencia o nível de exigência dos investidores.
Colaborou Alessandro Martins
