A escalada da violência entre judeus e palestinos relançou a velha questão que sempre surge em momentos de ódio e tensão no Oriente Médio: será que o mundo viverá um novo choque do petróleo? Assim como nos anos 70, quando os países árabes descobriram que podiam usar o petróleo como uma arma econômica, o preço do barril voltou a encostar na casa dos US$ 30,00. Em todo o mundo, os preços dos combustíveis dispararam e, no Brasil, a Petrobras anunciou seu terceiro aumento em um mês, desta vez de 10,8% nas refinarias. Mas o estrago vai além disso. Na terça-feira 2, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, admitiu que o impacto da alta da gasolina na inflação irá travar o movimento de queda das taxas de juros no Brasil. ?Infelizmente, isso come nossa folga para reduzir a taxa?, declarou. A meta de Armínio era trazer a taxa dos atuais 18,5% para, pelo menos, 16% até o fim do ano. O problema é que, com a alta dos combustíveis, a inflação de 2002 já ficará perto do teto da meta do BC, que é de 5,5%. ?É bom não contar com qualquer redução dos juros em 2002?, diz Paulo Sidney Cota, economista da Fundação Getúlio Vargas.

Para as empresas brasileiras, a notícia é ruim por várias razões. Um deles, a alta dos fretes, já ocorreu. As transportadoras anunciaram reajustes de 20%. Há outros aspectos. Além de travar a recuperação da economia e do consumo, um aumento das importações de petróleo pressiona os saldos da balança comercial e a própria cotação do dólar. O superávit comercial previsto
pelo governo para 2002, de US$ 5 bilhões, dificilmente será alcançado se a alta do barril persistir. Embora o volume de produção da Petrobras tenha crescido nos últimos anos, o Brasil ainda
importa 30% do consumo interno, o que representa cerca de
US$ 8 bilhões anuais. Para os analistas, a tensão no Oriente Médio acendeu a luz amarela. ?Se a escalada militar persistir, pode haver até uma desaceleração da economia mundial?, pondera o economista Fábio Silveira, da MB Associados.

A origem da alta está nos apelos de Irã e Iraque, membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), para que os países muçulmanos restrinjam o abastecimento de petróleo para o Ocidente como meio de forçar Israel a reduzir a onda de violência na Palestina. De qualquer forma, mesmo que a cotação do barril pressione os preços dos combustíveis e as importações, dificilmente o Brasil viverá uma situação como a dos anos 70, em que a crise do petróleo levou ao calote da dívida externa. Naquela época, o petróleo representava mais de 50% da pauta de importações.
?Hoje, somos muito menos dependentes?, diz Lytha Spindola, do Ministério do Desenvolvimento.