23/02/2001 - 7:00
Há algo de muito azedo acontecendo com o leite brasileiro. Nos últimos anos o setor tem presenciado uma forte concentração das indústrias lácteas nas mãos de gigantes multinacionais. As dez maiores do setor consomem hoje 50% do leite produzido por 1,2 milhão de pecuaristas. O oligopsônio ? termo que caracteriza um mercado onde atuam poucos compradores e muitos produtores ? dá às empresas poder de fogo para estabelecer preços e definir regras de mercado. Os produtores acusam os grandes consumidores de leite, como Nestlé, Parmalat, Danone, New Zealand e Fleishman Royal/Kraft, de atuar de forma cartelizada. Elas estariam agindo de forma coordenada para aumentar as importações, fazendo estoques e forçando para baixo os preços do mercado interno. Segundo a Confederação Nacional da Agricultura, no ano passado as empresas formaram um estoque de cerca de um milhão de litros e passaram a não comprar o produto de cooperativas. A CNA busca provas concretas para denunciar o cartel ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica.
As multinacionais se defendem dizendo que se trata de leis de mercado: os preços estariam variando conforme a oferta. Porém, a justificativa desafia as mãos invisíveis de Adam Smith. Como se explica que os preços no mercado interno tenham despencado em mais de 50% de setembro a dezembro de 2000? Difícil dizer que tenha sido excesso de oferta num ano em que os preços internacionais atingiram níveis altíssimos, levando a uma redução de 25% nas importações. No mesmo período, a produção cresceu 5% e gerou um aumento de 2% na oferta do produto, ou 400 milhões de litros. ?O volume não justifica uma redução tamanha de preços?, afirma Jorge Rubez, presidente da Associação Nacional dos Produtores.
Quem sofreu com a força das indústrias de laticínios foi a cooperativa Centro Leite, de Goiás. A cooperativa acusa Nestlé, Parmalat e Itambé de praticar uma política coordenada de preços, pagando mais caro para produtores que furaram o esquema cooperativo. ?Alguns produtores recusaram as propostas, mas meia dúzia de infiéis levou?, afirma um produtor da cooperativa que não quis se identificar temendo represálias. Menos temeroso é o secretário da Agricultura do Estado de Goiás, Leonardo Vilela. ?Houve claramente um cartel para desarticular a Centro Leite?, afirmou. A Nestlé nega as acusações, dizendo que a queda dos preços no período se deve a sazonalidade e excesso de oferta. ?Algumas cooperativas do Triângulo Mineiro fizeram um acordo para não vender leite abaixo de R$ 0,30. Isso é cartel??, questiona o porta-voz da Nestlé.
A produção nacional de leite tem caminhado na contramão da modernização. O País conta com 1,2 milhão de pecuaristas , que são responsáveis pela produção de 22 bilhões de litros. Na Argentina, 23 mil produtores dão conta de 10 bilhões de litros. As fazendas mecanizadas estão fechando, enquanto a produção informal, que escapa ao fisco e à fiscalização sanitária, tem aumentado. ?A profissionalização da produção melhora a qualidade do leite. Nosso preço é competitivo e teríamos capacidade até de exportar?, afirma Roberto Hugo Jank Junior, diretor da Agrindus, segundo maior produtor de leite e um dos poucos mecanizados que ainda restam no País. A informalidade é boa para as multinacionais, pois aumenta o poder de barganha. Do ponto de vista do governo, a situação não é fácil. Ainda que a melhora da qualidade do leite seja fundamental até por razões de saúde pública, a mecanização geraria um desemprego brutal: 800 mil produtores perderiam a fonte de renda. É quase o dobro do número de famílias assentadas com o programa de reforma agrária.