29/10/2003 - 8:00
Rogê Rosolini fez a carreira sonhada pelos estudantes brasileiros de economia e administração. Desde o início da década de 90, ele trabalhou nas filiais brasileiras de grandes bancos internacionais, como o americano J.P. Morgan e o alemão Deutsche Bank. Mas, depois de mais de dez anos de profissão, Rosolini trocou de sonho. Está de saída do Deutsche Bank. ?Quero ser dono do meu próprio negócio?, diz ele. Seus novos sócios, Fernando Villa e Marcos Sudano, também trabalharam no Morgan. Sudano foi ainda tesoureiro do Unibanco, cuidava das aplicações financeiras do banco. Também pediu para sair. ?Vou aproveitar uma grande oportunidade de mercado?, explica ele. Rosolini, Sudano e Villa fazem parte de uma geração que decidiu ? ou foi forçada ? a empreender. Profissionais de bancos estão abrindo butiques de investimento, alternativas às grandes instituições financeiras. Segundo a Anbid (Associação Nacional de Bancos de Investimento), surgiram cerca de 30 administradoras de recursos em 2003. As novas empresas multiplicaram o número de fundos de investimento no País. Mais de 600 produtos foram criados desde o início do ano, mais de dois por dia, de acordo com a consultoria Thomson Financial. Cerca de 40% (240) é da categoria ?multimercados?, ou hedge funds, a preferida das empresas recém-criadas. ?Esse tipo de fundo é da década de 50?, comenta Marcelo Giufrida, vice-presidente da Anbid, ?Mas teve um crescimento explosivo nos últimos tempos.?
Os hedge funds são aplicações com liberdade para se movimentar de um mercado para outro em busca de grandes lucros. Podem combinar apostas em juros, dólar, ações, títulos da dívida externa e até moedas estrangeiras. Prometem rendimentos bem maiores do que as aplicações tradicionais. Mas também trazem mais riscos. Cada fundo traz a grife de seus criadores. Eles buscam um nicho de mercado para o investidor sofisticado, longe da concorrência dos grandes bancos. ?Esse é um mercado promissor?, diz Sudano, que está abrindo a Quantix Investimentos. ?Com a queda dos juros no Brasil, vai crescer a procura por fundos diferenciados.?
Algumas siglas das novas administradoras começam a aparecer na prateleira dos bancos. Grifes como Claritas, GAP, JGP, GP, ARX e a pioneira Hedging Griffo são oferecidas para os clientes da área de private banking, de alta renda. Mas seus fundos também
aparecem de maneira indireta nas ofertas das grandes instituições financeiras. São usados em FAQs, produtos que aplicam num
conjunto de fundos de investimento. Esse movimento deve disparar, acreditam os executivos. Hoje, os hedge funds têm um patrimônio de R$ 6 bilhões, contra um total de R$ 460 bilhões da indústria de fundos. ?Podemos dobrar a participação de mercado facilmente?, diz Sudano, da Quantix.
Aberta em agosto, a NEO é uma aposta num mercado diferenciado. Seis sócios, Wagner Murgel, Marcelo Cabral, Mário Schalch, Augusto Vieira, Adauto Martins e Henrique Álvares, criaram um fundo para investidores requintados. O valor mínimo para aplicar no NEO Multi-estratégia é R$ 25 mil. Sua especialidade é buscar brechas de mercado, diferenças de preços de uma praça para outra. Pode comprar uma ação à vista e revender o papel no mercado futuro. ?Queremos depender o menos possível dos grandes movimentos de alta ou baixa do mercado?, diz Murgel. Em dois meses, o fundo rendeu o equivalente a 125% do CDI (taxas de juros dos bancos, referência de desempenho do mercado financeiro).
A outra razão para o crescimento
explosivo no número de butiques é a concentração do mercado financeiro. Bancos estrangeiros, como o Bank of America, deixaram o País. Também ocorreram fusões e aquisições, como a compra do BBA pelo Itaú. Executivos altamente qualificados perderam mercado de trabalho. Com a crise dos últimos anos, as remunerações despencaram. Por isso, muitos optaram ou foram levados a montar o próprio negócio. Do antigo banco Matrix, fechado no ano passado, saíram a Claritas e a FVF, de Tom Freitas Valle. Dos antigos Patrimônio, J.P. Morgan e Chase Manhattan surgiram o NEO, Estrategy, Quantix e Pátria.
O Pátria é um exemplo de empresa aberta para ocupar um espaço vazio de mercado. Seus sócios tentam recriar a trajetória de
sucesso do pioneiro banco de investimentos Patrimônio, de 1986. Em agosto, eles lançaram o Pátria Hedge, para o mercado local. Desde então, o hedge fund captou R$ 22 milhões e rendeu o equivalente a 137% do CDI. No mês que vem, será aberto um fundo para investidores estrangeiros, que poderá aplicar não só em juros ou papéis da dívida brasileira, mas apostar até numa moeda de um país latino-americano contra outra. ?Os investidores estrangeiros perderam sua velhas opções de aplicações no Brasil?, diz André Penalva. ?Queremos ocupar esse espaço.?
O Pátria não é o único a enxergar essa oportunidade de mercado. Em 25 de agosto, entrou em operação a Gávea, a administradora de recursos do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, voltado para clientes no Brasil e no exterior. O Gávea captou mais de US$ 400 milhões e, desde então, rendeu o equivalente a 245% do CDI, um dos maiores resultados da praça. Outras grifes tradicionais, como o Opportunity, também estão se mexendo. Lançado em maio, o Opportunity Total rendeu o equivalente a 326% do CDI. O número é atraente, mas os próprios administradores avisam: ?Esse é um fundo agressivo, pode oscilar muito a curto prazo?, diz Fernando Rodrigues, do Opportunity.
Essa é a outra marca dos hedge funds: são considerados produtos mais arriscados do que as aplicações tradicionais. A quebra de alguns deles, como o Marka, Fonte Cindam e Linear, no Brasil, e LTCM, nos EUA, entrou para a história. Hoje, os administradores dizem que a situação é diferente. Contam com mais controles e incluem na mesma categoria produtos com graus de risco muito diferentes. Uma das estrelas da praça financeira joga aberto com os clientes: só se pode sacar o dinheiro 90 dias depois de feito o pedido. Se, nesses três meses o fundo despencar, paciência. O novo sonho dos executivos financeiros inclui apostas de alto risco.