09/02/2001 - 8:00
Nem problemas de relacionamento, nem de auto-estima. O que está levando executivos americanos para o divã é o dinheiro. E que fique bem entendido: não a falta dele, mas principalmente o excesso. Parece contra-senso, mas a prosperidade financeira está mesmo trazendo problemas nos Estados Unidos. Já existe por lá uma lista enorme de profissionais de psicologia especializados no assunto. Como a californiana Maria Nemeth, que tem consultório em Sacramento, Califórnia, mas passa a maior parte do tempo dando palestras pelos Estados Unidos e pela Europa. O livro que ela lançou em fevereiro de 1999 ? The energy of money ? vendeu mais de 500 mil exemplares. Não espere encontrar em alguma página do livro ou numa de suas palestras, dicas de como gastar, economizar, enfim, organizar as finanças. ?Não sou uma analista de um banco ou de uma corretora de valores, minha função é outra: encaminhar o paciente para uma solução psicológica do problema?, diz. ?E a questão financeira é, acima de qualquer coisa, uma questão psicológica?, completa Richard Sherman, também terapeuta da Califórnia e também especializado em atender pessoas em crise com questões financeiras.
Esse modelo profissional de psicólogo financeiro é novidade até mesmo entre os americanos e vem ganhando espaço nos últimos quatro anos. Para Sherman, tudo não passa de uma resposta a uma velha queixa do primeiro mundo. As pessoas estão trabalhando demais, se cobrando demais e exigindo demais da sua capacidade de ganhar dinheiro. ?E é exatamente assim que começam os problemas.? A psicóloga Maria Nemeth, porém, acredita em razões menos materiais.
Para ela, todos nós administramos seis canais de energia: tempo, saúde, criatividade, diversão, relacionamento e dinheiro. ?São todos pontos essenciais?, explica. ?Se um deles não está sendo bem administrado, você terá problemas.? Em outras palavras, questões financeiras estão relacionadas menos ao bolso e mais à cabeça. Para Nemeth, alguém que não consegue lidar com as finanças precisa tanto de um psicólogo quanto aquele que se queixa de dificuldade nos relacionamentos. E isso pouco tem a ver com a quantidade de dinheiro na conta-corrente. Aliás, a maioria dos quase 100 pacientes que procuram Maria Nemeth ou Sherman todos os meses, seja em palestras ou no consultório, nunca sofreu pela falta de dinheiro.
Mas que tipo de problema financeiro pode levar ao terapeuta um americano rico? Pasmem, o medo de perder dinheiro. ?Quanto mais uma pessoa tem, maior é o medo da derrota?, explica Sherman. Uma disputa profissional que acaba sem sucesso já é suficiente para fazer explodir uma crise de responsabilidade e de dúvida quanto à capacidade empresarial. Outro diagnóstico comum é a incerteza sobre o que realmente atrai as pessoas ao redor dos abonados. ?Um milionário sempre duvida se os amigos gostam dele ou do que o dinheiro dele pode proporcionar?, conta Maria Nemeth. De pequenos problemas, os medos podem se transformar em doença. É o que eles chamam de stress financeiro ? quando o paciente começa a fugir da vida social, evita se expor profissionalmente e, no pior dos casos, parte para a fuga na bebida ou nas drogas.
Se nos Estados Unidos o conceito de psicólogo financeiro é algo novo, no Brasil ele nem existe. Claro que não é por falta de problemas ligados ao dinheiro. Acontece que poucos, muito poucos estão dispostos a assumir. ?Dificilmente um homem de negócios admite que a razão de um problema econômico pode ser psicológica?, explica Sérgio Wajman, professor de psicologia da PUC de São Paulo. Mais grave ainda, a maioria sequer expõe seu problema. Nem mesmo para a família. Se ajuda, os médicos americanos dão algumas dicas do que pode ser o caminho para evitar esses problemas. Experimente dividir o tempo entre atividades profissionais e de lazer, entregar suas finanças pessoais a um gestor competente, evitar que os ganhos se transformem nas grandes metas de sua vida e nunca, nunca mesmo, dar mais valor ao dinheiro do que a vida pessoal.