06/04/2004 - 7:00
No final dos anos 80, o engenheiro químico Manuel Amorim estava descontente com sua carreira e queria trabalhar na área de Marketing. Na época, decidiu que iria estudar o assunto na melhor escola do mundo, a Universidade de Harvard. Quando retornou ao Brasil, em 1990, recebeu 18 propostas de trabalho. Hoje, Amorim é presidente da Telesp Celular. Naquela mesma época, um promissor economista do Rio de Janeiro, Gustavo Franco, escolhia Harvard para fazer seu PhD. Anos depois de retornar ao País, Franco se tornaria presidente do Banco Central brasileiro. Hoje, o economista é dono da Rio Bravo Investimentos. O engenheiro Peter Graber também foi a Harvard fazer um MBA no final dos anos 70. Quando voltou ao Brasil, ele abriu seu próprio negócio na área de segurança patrimonial. Hoje, a Graber tem 6 mil funcionários no País. O que liga esses três homens de negócio é que eles fazem parte de um seleto grupo: o Harvard Club. No Brasil, são cerca de 900 egressos de uma das prestigiosas instituições de ensino dos EUA. Na semana passada, cerca de 140 desses ex-alunos se reuniram no Centro Brasileiro Britânico para ouvir o atual presidente de Harvard, Larry Summers, ex-secretário do Tesouro americano. Mas eles não estavam ali apenas para escutar mais uma palestra. O motivo desse encontro de milionários é ampliar a rede de contatos, o chamado networking. No almoço de Summers, regado a vinho argentino e filé a molho béarnaise, muitos cartões de visitas foram trocados. Lá, os empresários nacionais acabaram ouvindo afagos do ex-secretário.
?Os empreendedores brasileiros são extraordinários, sobretudo
porque têm de enfrentar desafios como a política de impostos do País?, disse Summers à DINHEIRO.
Nesse seleto clube se reúne gente do naipe de Henrique Meirelles, atual presidente do Banco Central e ex-BankBoston, Pedro Moreira Salles, do Unibanco, Carlos Alberto Sicupira, do GP Investimentos. Eles são alguns dos empresários que passaram pelos bancos de Harvard. ?É difícil imaginar que alguma grande empresa brasileira
não tenha um ex-aluno de Harvard entre seus fundadores, presidentes ou diretores?, diz Robert Hein, um dos fundadores do Harvard Club de Administração do Brasil. Hoje, existem quatro clubes no País: além do de Administração, um para os alunos de Direito, outro para os de Medicina e um geral da Universidade, que congrega os outros cursos de Harvard. Com uma anuidade de R$ 100, os clubes funcionam como agremiações, promovendo jantares e encontros sociais. O mais importante, no entanto, é a rede de contatos. Nisso, os Harvard Clubs são imbatíveis. E por isso, tudo é motivo para reunir os ?harvardianos?. Recentemente, uma turma de mais de cem associados foi visitar uma grande exposição de obras de Pablo Picasso, em São Paulo. Entre um quadro e outro do mestre espanhol, muitos contatos foram costurados. ?Esses encontros acabam criando novas relações e de trabalho?, diz José Luiz Bichuetti, atual presidente do clube de Administração.
Investimento. Na prática, só gente com muito dinheiro pode fazer parte do grupo. Isso porque um curso de MBA não sai por menos de US$ 100 mil. São dois anos de intensa atividade acadêmica. ?Estudei mais no meu primeiro ano de MBA do que nos cinco anos em que fiz Engenharia?, conta Graber. Cada centavo gasto valeu a pena. No fim do curso, ele recebeu um convite da consultoria McKinsey para trabalhar em qualquer escritório da empresa no mundo. Escolheu a Alemanha. Um ano depois voltou ao Brasil e fundou a Graber, uma das primeiras empresas de segurança patrimonial do País. Outro curso popular entre os brasileiros é o Owner/President Management. Ele é dedicado apenas a presidentes e herdeiros de empresas e custa US$ 50 mil. Os empresários-estudantes ficam nove semanas imersos na universidade com aulas que começam pela manhã e só terminam à noite. Por isso, nem todos agüentam a dura rotina de Harvard. O ministro Ciro Gomes foi um dos que começou e não terminou o curso. É claro que todas essas histórias alimentam o mito de Harvard. ?É como estar no topo do mundo?, define Gustavo Franco, ex-presidente do BC. E naturalmente quanto mais prestígio, maiores salários serão embolsados para quem ostenta um diploma da universidade. Calcula-se que a remuneração dos alunos de Harvard praticamente dobra assim que concluem o curso. ?Foi um investimento que teve um ótimo retorno?, diz o headhunter Guilherme Dale. Quando a Spencer Stuart, empresa americana de recrutamento de executivos, decidiu abrir um escritório no Brasil foi buscar um dos ex-alunos de Harvard. Chegou-se no nome de Dale. ?É uma credencial e tanto?, diz ele.
EXPOENTES DE HARVARD NO BRASIL
Peter Graber: Conclui o MBA em 1981. No Brasil, fundou sua empresa de segurança patrimonial
Gustavo Franco:
Fez PhD em economia na instituição. Anos
depois se tornou presidente do Banco Central
Manuel Amorim:
Curso na área de Marketing. Ao retornar
ao Brasil, teve 18 propostas de emprego
Pedro Moreira Salles:
Presidente do Unibanco fez curso de administração para donos e herdeiros de empresas