A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) promoveu recentemente, em São Paulo, o painel Tensões Internacionais e Economia Brasileira, parte da programação do CNC Global Voices 2025, que reuniu alguns dos mais renomados economistas do mercado financeiro para discutir os rumos da economia nacional diante do cenário global. Mediado pela jornalista Thais Herédia (CNN Brasil), os economistas Gabriel Barros (ARX Investimentos), Fernando Ferreira (XP Investimentos) e Reinaldo Le Grazie (Panamby Capital) analisaram os limites do atual modelo fiscal e os obstáculos à queda dos juros.

A CNC tem ressaltado, em diferentes fóruns, que a previsibilidade e o equilíbrio das contas públicas são condições essenciais para o investimento privado e o crescimento sustentável. O painel reforçou essa leitura: segundo os especialistas, a persistência de gastos elevados ameaça comprometer o espaço fiscal e travar o potencial de expansão do país.

Para Gabriel Barros, o desafio se intensifica nos próximos anos. Ele advertiu que a dívida pública “deve se agravar a partir de 2027, exigindo um ajuste muito mais difícil do que os anteriores”. Com juros reais próximos de 7%, afirmou, “o país consome o espaço de investimento e trava o crescimento”. Barros lembrou ainda que mudanças recentes na legislação previdenciária e trabalhista ampliaram despesas permanentes. “Estamos desfazendo reformas importantes, como a trabalhista e a previdenciária. Isso já pressiona o orçamento e tende a piorar”, afirmou, acrescentando: “Não há mais atalhos. O problema está no gasto, e, enquanto não enfrentarmos isso, o desequilíbrio vai continuar conosco.”

Fernando Ferreira destacou o papel das condições externas na sustentação momentânea dos ativos brasileiros. “A apreciação do real não é resultado de fundamentos internos, mas de uma desvalorização global do dólar”, explicou. Para ele, o fluxo de capital estrangeiro tem mascarado fragilidades fiscais. “O mercado passou por cima dos problemas fiscais. Mas, se o impulso de gastos persistir e o Banco Central ficar impedido de cortar juros, o risco aumenta.” Ferreira acrescentou que a política monetária começa abrir espaço para uma redução gradual da taxa Selic. “A política monetária começa a fazer efeito, e o Banco Central pode iniciar um ciclo de redução no próximo ano, mas ainda com juros muito restritivos.”

Já Reinaldo Le Grazie chamou atenção para o peso da dívida e a dificuldade de sustentar a trajetória de desinflação. Segundo ele, o Brasil “continua pagando um preço muito alto por sua dívida”, com juros reais entre os mais altos do mundo. Ele lembrou que o ano eleitoral de 2026 tende a elevar gastos públicos e pressionar preços. “Todo ano de eleição é expansionista, e 2026 não será diferente. A inflação de 2027 pode ser maior que a de 2025 porque o fator que a trouxe para baixo, câmbio, dificilmente se repetirá.”

Na avaliação de Le Grazie, o fortalecimento do setor privado e a eficiência do Estado são fundamentais para o crescimento sustentado. “O caminho para o Brasil é deixar o setor privado alocar recursos e reduzir o protagonismo do setor público. Só assim poderemos buscar um crescimento sustentado, com menos gastos, menos inflação e juros mais baixos.”

Ao reunir diferentes diagnósticos sob uma mesma mesa, a CNC reafirmou sua função de mediadora entre o setor produtivo e os formuladores de políticas públicas. O debate reforçou que a responsabilidade fiscal, a estabilidade institucional e a confiança de longo prazo são pilares de um projeto de desenvolvimento capaz de enfrentar as tensões globais e preservar a competitividade da economia brasileira.