26/10/2001 - 8:00
À beira do Rio Juruá, distante a duas horas de caminhada no meio da selva e outras quatro horas de voadeira (barcos movidos a motor de popa) do município de Eiru Nepé, quase na divisa do Amazonas com o Acre, nasce o mais perfeito exemplo da globalização. É lá que o mundo dos caboclos de pés descalços e mãos calejadas, de Colônia São Pedro, funde-se com o marketing bilionário da maior fabricante de refrigerantes do mundo, a Coca-Cola. Juntos, eles estão fazendo brotar o novo ?ouro? da Amazônia. A cana transformada em açúcar mascavo provê o sustento e a economia de centenas de comunidades ribeirinhas. Garante também a produção dos 5,7 bilhões de litros de refrigerante da multinacional que o País consumiu em 2000. É um programa pouco conhecido, coordenado pela Coca. Baseia-se no lema de que ?não basta dar um peixe. É preciso ensinar o homem a pescar.?
A gigante de Atlanta selecionou 36 comunidades isoladas na Amazônia. Entra com mudas e know-how de cultivo, monta um pequeno engenho de cana, fornece sacaria e organiza o frete do açúcar até a fábrica de concentrado de refrigerantes em Manaus. O açúcar mascavo produzido pelas comunidades é comprado pela Coca-Cola e entra na fórmula do lendário xarope do refrigerante mais tomado em todo o mundo. Ou seja: qualquer garrafinha de Coca ou Kuat que você toma em São Paulo contém um pouquinho do trabalho dos caboclos da Amazônia.
Com o apoio da Coca-Cola, as beiras dos rios amazônicos estão transformando as plantações de cana naquilo que a borracha já foi um dia. As microcicatrizes no tronco de seringueira, que fizeram a riqueza e decadência da população, são um resquício de um longínquo passado. Para quem vivia da exploração da borracha e extração ilegal de madeira, poder se fixar a um cultivo é questão de sobrevivência. E cidadania. A multinacional vem fazendo um trabalho social de dar inveja ao governo. Batizado de Projeto Gramixó, o programa começou em 1995. No começo, era um plano estratégico que possibilitava à multinacional pegar incentivos fiscais e ainda garantir o abastecimento de sua fábrica de concentrados.
Por meio de uma associação com o governo do Estado do Amazonas, a Coca-Cola passou a desenvolver, financiar e dar assistência técnica a comunidades que já tinham algum tipo de organização. A construção civil (de madeira e palha), a moenda de cana, o motor que a faz girar, tachos para transformar a garapa em açúcar não custam mais de R$ 10 mil. E salvam a vida de uma comunidade. Em 1999, a Coca já comprava das comunidades isoladas do Amazonas cerca de 130 toneladas do produto. Hoje, uma fazenda de cana e uma usina de açúcar em Presidente Figueiredo, a 120 quilômetros de Manaus, abastece a fábrica. Mas o projeto continua. ?A Coca não abandonou suas comunidades?, conta o diretor do projeto, Nelson Marinho. ?O objetivo é melhorar a qualidade de vida das populações, aumentando a renda local.?
Um dos segredos do projeto é a concessão de microcrédito. A
Coca-Cola adianta o financiamento da produção das comunidades. Numa terra onde um banco mais próximo fica a mais de sete horas por avenidas chamadas rios e ruas de igarapés, isso significa a viabilidade do projeto. O açúcar mascavo é comprado por
R$ 0,47 o quilo. Outros 10% deste valor vão para a associação de moradores que organiza a produção. Mas a idéia é mais audaciosa. Produzir para a Coca-Cola é um pontapé para que as comunidades tornem-se independentes.
Foi com a cana que seu Expedito Evangelista, um lavrador de 76 anos, criou a mulher, 9 filhos, netos ?que ele perdeu a conta? e alguns bisnetos. ?Nesta comunidade, ninguém nunca foi para a cidade grande?, diz seu Expedito. ?A vida lá é muito cara para quem é pobre. Aqui, pelo menos, não falta comida.? Naquelas bandas, em Colônia São Pedro, vive-se sem conforto. Em casas de palafita, sem esgoto ou luz. Mas a cana não deixa que os caboclos conheçam a fome. De setembro a dezembro, os 15 hectares de cana plantados pela família começam a ser ?deitados?. Serão lavados, moídos, cozidos e transformados em comida. Da cana sai o gramixó ? o rico açúcar mascavo que é a base de alimentação local. Misturado com farinha e água vira o xibé, a ração diária dos ribeirinhos, que, como os Evangelistas, ocupam o Rio Amazonas e seus mais de mil afluentes. Sai também o melaço que é tomado como leite ? em terras que, quando chega, uma lata de Leite Ninho custa absurdos R$ 15. O ?caninho?, a ponta de cana de açúcar que é cortada como palmito, é um complemento alimentar. E as barrinhas de rapadura, um subproduto do açúcar, mata a fome da comunidade quando ela fica isolada do mundo, durante a seca, nas épocas que o Rio Juruá baixa 20 metros.
O excedente de produção é comercializado. Uma organização não-governamental (ONG) de Viena, só para citar um exemplo, está fechando a compra de um carregamento de rapadurinhas para adoçar chá. Como nos velhos tempos, homens de barco ? conhecidos por ?regateiros? ? surgem intermediando os produtos locais e fazendo o escambo. Pegam o açúcar de seu Expedito e trocam por farinha de mandioca de uma comunidade rio acima. E assim caminha a economia informal. A renda anual de Colônia
São Pedro é de R$ 5 mil. ?É a produção de toda família por ano?,
diz seu Expedito.
Essa é a Coca-Cola que ninguém conhece. Não aparece na imprensa e não consome milhares de dólares em marketing. Geliane Monteiro Evangelista, 11 anos, uma das netas de seu Expedito, nunca sentiu o gosto de Coca-Cola. Só ouve falar, de vez em quando, de uns homens da companhia que aparecem para carregar sacos de açúcar. Para quê? ?Para comer, ué. Como nós.? Tudo muito simples.