16/03/2026 - 11:25
Com a onda das canetas emagrecedoras, o padrão de beleza de Hollywood voltou a ser o da magreza extrema.A atriz Demi Moore, como sempre, brilhou no tapete vermelho do Oscar. Ela usava um vestido de penas, da Gucci. Mas há algo de novo na aparência da atriz. Ela continua lindíssima, claro, mas, assim como muitas famosas mundo afora, está magra. Magérrima. É uma magreza que, de tão extrema, deixa os ossos e veias à mostra. Além disso, ela tem a pele tão uniforme e esticada que parece ter sido editada por um filtro de inteligência artificial (IA).
Demi Moore é o melhor exemplo do padrão de beleza de Hollywood de 2026. Com a onda das canetas emagrecedoras, como o Ozempic e o Mounjaro, o padrão voltou a ser o da magreza extrema, aquela que remete à anorexia, que é uma doença séria. Esses medicamentos podem ser muito úteis quando indicados para pessoas com obesidade que causa comorbidades, mas que foram extremamente banalizados e agora são usados até por pessoas magras, inclusive no Brasil.
No caso de Hollywood, Demi não é a única, claro. Representaram a magreza extrema no tapete vermelho, só para citar alguns exemplos: Nicole Kidman, Emma Stone e até a brasileira Bruna Marquezine.
Ode à magreza
Esse tipo de ode à magreza não é nada saudável. E para identificar esse padrão, é só ver as tradicionais fotos dos “mais bem vestidos” da premiação e perceber que mulheres lindíssimas estão aderindo a um padrão de beleza irreal. Elas parecem doentes.
O ideal de beleza de Hollywood sempre foi inatingível para nós, mortais? Sim. Mas, agora, ele parece, cada vez mais, imagens feitas por IA. O padrão não parece um “humano lindo e inatingível”, mas um artificial mesmo, manipulado por filtros.
Além das injeções para emagrecer, que criaram esse novo padrão esquelético, existe também a adesão descontrolada a procedimentos estéticos. A gama de serviços oferecidos para quem tem dinheiro é enorme e, em alguns casos, podem transformar pessoas numa espécie de “bonecos de si mesmo”. Isso não atinge só as mulheres. O ator Jim Carrey, por exemplo, é um dos que, por excesso de procedimento, parece mais um NFT de si mesmo.
Onde foi parar a moda do envelhecer naturalmente? E o movimento “body positive” (corpo positivo)? Sim, até alguns anos atrás, o mundo parecia ter dado uma melhorada. Muitas mulheres resolveram assumir seus corpos reais, afirmando que existiam muitas formas de beleza, o que é verdade. O mercado, por um tempo, se adaptou a esses bons ventos e levou para passarelas e campanhas de moda corpos e rostos mais reais. Isso se refletiu no Oscar, que é, também, um evento de moda importantíssimo.
Bons tempos
Estamos vivendo um retrocesso. Em 2015, as atrizes fizeram a campanha Ask her more (pergunte mais a elas), que procurava fazer com que os repórteres de tapete vermelho falassem com as mulheres sobre, por exemplo, o filme que tinham estrelado, e não só sobre o vestido que estavam usando. Em 2018, celebridades vestiram preto no Globo de Ouro em apoio ao movimento Me too.
Esses movimentos todos poderiam ter avançado. Mas, infelizmente, já podemos olhar para esses tempos recentes com nostalgia.
O padrão de 2026 parece ser ainda mais radical (no mal sentido) do que o dos anos 1990 e início dos anos 2000 – época em que existia uma tendência chamada heroin chic (heroína chique). É isso mesmo. Tratava-se de parecer com usuário da droga debilitado pelo abuso. Absurdo assim.
Mas, pelo incrível que pareça, ainda piorou.
A culpa é das mulheres dos homens que aderem a esses padrões? Não só. O buraco é mais embaixo. Envelhecer ainda é visto como um problemão em indústrias como a de Hollywood e é mesmo tentador seguir os padrões do mercado e se sentir “adequado”.
Vamos lembrar, claro, que a indústria farmacêutica e a de beleza lucram bilhões com esse “novo normal”. O fato de mulheres ainda caírem nessa com tanta força, além de perigoso, é triste. Tomara que o Oscar de 2026 fique marcado como o evento que mostrou que a tendência da magreza extrema foi longe demais. E que isso comece a mudar.
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Nina Lemos é jornalista e escritora. Escreve sobre feminismo e comportamento desde os anos 2000, quando lançou com duas amigas o grupo “02 Neurônio”. Já foi colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. É uma das criadoras da revista TPM. Em 2015, mudou para Berlim, cidade pela qual é loucamente apaixonada. Desde então, vive entre as notícias do Brasil e as aulas de alemão.
O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.
