Intensos combates em Aleppo, no norte da Síria, e bombardeios da  aviação do regime contra regiões rebeldes a leste da capital, ilustravam  nesta quarta-feira a dificuldade das grandes potências de promover um  novo cessar-fogo.

Desde a retomada das hostilidades, em 22 de abril, na segunda maior  cidade do país, 284 pessoas, incluindo 57 crianças e 38 mulheres,  morreram na violência, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos  (OSDH).

A cidade está dividida desde 2012 e a nova escalada de violência fez  156 vítimas do lado rebelde, quase que exclusivamente em ataques do  regime, e 128 vítimas em bombardeios rebeldes contra setores controlados  pelo governo.

Nesta quarta, três civis foram mortos quando um foguete caiu em um  bairro controlado pelo governo, segundo a agência de notícias oficial  SANA.

Os confrontos diretos foram retomados na terça-feira, quando uma  coalizão de grupos rebeldes, “Fatah Halab” (“A conquista de Aleppo”)  lançou uma ofensiva nos bairros controlados pelo regime.

São “os combates mais violentos em Aleppo em mais de um ano”, indicou o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman.

Os confrontos continuaram durante a noite com tiroteios e ataques aéreos, de acordo com um correspondente da AFP.

“Eu não acredito que os ataques aéreos vão parar, porque a decisão  não está nas mãos do presidente Bashar al-Assad, mas nas de seu aliado  russo”, declarou Mahmud Sendeh, um militante rebelde de 26 anos.

No dia anterior, a Rússia afirmou que esperava um cessar-fogo “nas próximas horas” em Aleppo.

“Russos e americanos (…) tentaram introduzir um regime de silêncio  (cessação das hostilidades) em e entorno de Aleppo”, afirmou nesta  quarta a repórteres o porta-voz militar russo, Igor Konashenkov, em  Hmeimim, uma base aérea onde as forças russas estão estacionadas na  província de Latakia (oeste).

Mas “o regime de silêncio foi impedido pela Frente Al-Nosra”, indicou, referindo-se ao ramo sírio da Al-Qaeda na Síria.

Rússia e Damasco justificaram assim a ofensiva lançada em Aleppo em  22 de abril, que acabou com a trégua estabelecida entre o regime e os  rebeldes, mas que excluía grupos jihadistas, tais como o Estado Islâmico  e a Frente Al-Nosra.

“O problema é que todo mundo tem uma visão diferente do cessar-fogo. O  regime e os russos consideram que a partir do momento em que há membros  da Al-Nosra, mesmo que apebas 2%, todo o resto é Al-Nosra também. Esta  não é a nossa visão”, declarou uma fonte diplomática europeia.

Mais ao sul, pelo menos 22 ataques aéreos do regime atingiram Ghouta  Oriental, reduto rebelde a leste de Damasco, e os combates recomeçaram  entre as forças do regime e grupos rebeldes após o fim de uma trégua  durante a noite.

Ainda não há um balanço do número de vítimas.

Moscou e Washington alcançaram na semana passada um acordo para o  ”congelamento” das hostilidades durante 24 horas prorrogado duas vezes  em Ghouta Oriental e na província de Latakia, que continua sem registro  de novos confrontos.

Na frente diplomática, o chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter  Steinmeier, vai se reunir em Berlim com o enviado especial da ONU para a  Síria, Staffan de Mistura, bem como com o coordenador da oposição  síria, Riad Hijab, e o ministro francês das Relações Exteriores,  Jean-Marc Ayrault.

“Procuramos voltar a envolver todas as partes em conflito num  acordo”, explicou uma fonte diplomática europeia sobre estes encontros,  observando que em Aleppo “as hostilidades recomeçaram apenas por  iniciativa do regime.

Mas “um cessar-fogo, ele realmente depende dos russos”, admitiu a fonte.

A reunião em Berlim vai preceder uma reunião do Conselho de Segurança  da ONU em Nova York, solicitada por Paris e Londres, para tentar  restaurar o cessar-fogo em Aleppo.

Além disso, Ayrault convidou segunda-feira em Paris os seus colegas  saudita, catari, árabe e turco para pressionar por um cessar-fogo.

O chefe da diplomacia americana, John Kerry, ameaçou na terça-feira o  presidente sírio se a trégua discutida entre Washington e Moscou não  for respeitada.

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