07/08/2002 - 7:00
Prepare-se, eleitor. Você está prestes a ser bombardeado pela maior dose de propaganda política jamais vista no Brasil. Ao todo serão cerca de 70 horas, ou quase 4,2 mil minutos, de superexposição dos candidatos na televisão e no rádio. Em disputa, estão 1.059 vagas para deputado estadual, 513 na Câmara, 54 no Senado, 27 nos governos estaduais, além da Presidência
da República. Na prática, começa agora o segundo tempo do jogo
que decidirá a maior eleição da história, em que serão gastos, segundo estimativas de profissionais do mercado publicitário, algo em torno de R$ 520 milhões. Basta notar que a produção de um filme de 30 segundos para a tevê custa, no mínimo, R$ 50 mil. Se os candidatos tivessem que
pagar do próprio bolso o espaço de mídia que recebem por determinação da lei eleitoral, as cifras atingiriam R$ 1,4 bilhão, considerando o custo da publicidade em horários nobres. ?O poder
de convencimento da televisão e do rádio pode mudar muita coisa?, diz Gaudêncio Torquato, consultor político e professor da Universidade de São Paulo. ?Os três presidenciáveis que lideram as pesquisas de intenção de votos terão chances reais de vitória, se fizerem programas de qualidade.?
O candidato do governo, José Serra, é quem mais aposta na televisão para tentar reverter a situação da sua candidatura. Está em terceiro lugar nas pesquisas, mas terá, sozinho, direito a 40% do horário eleitoral gratuito, que começa dia 20. Seus concorrentes diretos, Lula e Ciro Gomes, vão ficar praticamente com metade do tempo. Serra é também o que divulga a maior expectativa de verba para a campanha, de R$ 60 milhões. No PT, os custos estão estimados em R$ 36 milhões e, para a campanha de Ciro Gomes, espera-se chegar a R$ 25 milhões. A maior parte dos recursos irá para a produção dos programas eleitorais, que tentarão conquistar os 58 milhões de eleitores ? metade do total ? que ainda se declaram indecisos. Serra será também o candidato que fará filmes com mais tomadas externas, fora de estúdios. O primeiro será feito no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, onde foi assassinado o jornalista Tim Lopes.
O marqueteiro de José Serra, Nizan Guanaes, já definiu uma estratégia clara: ?colar? o candidato no governo Fernando Henrique Cardoso. Foi por isso que Serra mostrou-se sorridente ao lado do ministro Pedro Malan, numa cena inimaginável pouco tempo atrás, e também passeou nos jardins do Alvorada ao lado do presidente e da primeira-dama, Ruth Cardoso. A decisão de Nizan, porém, dividiu a campanha tucana. O sociólogo Antônio Lavareda, que faz parte do grupo, classificou a estratégia como desastrada, por identificar, nas suas pesquisas qualitativas com eleitores, um desejo claro de mudança. Além disso, a popularidade do presidente Fernando Henrique, de 25% segundo o instituto Datafolha, é a mais baixa em seus oito anos de mandato. ?Não há razões para desespero?, tem dito Nizan. José Serra tem tentado demonstrar a mesma tranqüilidade. Num jantar na casa de Luiz Felipe D?Ávila e Ana Diniz, uma das donas do grupo Pão de Açúcar, Serra disse aos empresários presentes que irá reverter o quadro com seu tempo de tevê. Horácio Lafer Piva, presidente da Fiesp e um dos presentes no jantar, conclamou os empresários a declararem voto em Serra.
Pode ser que funcione, mas até agora Lula e Ciro Gomes têm hoje uma situação muito mais confortável nas pesquisas. O candidato do PT confiou a produção de sua campanha ao marqueteiro Duda Mendonça, que trabalha com uma equipe de 100 profissionais. Estão orientados a captar imagens de Lula nas suas viagens pelo País. Por estar sempre sob a mira das câmeras da equipe do publicitário, Lula nunca mais tirou a gravata. Na quarta-feira 31, Duda reuniu-se no comitê central da campanha, em São Paulo, com Lula e vários deputados petistas para discutir a estratégia dos filmes. Ficou acertado que será mantido o tom emotivo dos comerciais que apresentaram o candidato dois meses atrás e que causaram um bom impacto na opinião pública. Lula também tentará traduzir o ?economês? para o cidadão comum. ?Nós vamos ganhar a eleição com os programas eleitorais?, disse Duda aos presentes.
Debate amplo. Ciro Gomes, que de acordo com as pesquisas atuais venceria Lula no segundo turno, buscou uma solução caseira. Ele trabalha com o publicitário Einhart Jacome da Paz, casado com sua irmã Lia Gomes. Jacome é o mais discreto dos três marqueteiros. Diz que o publicitário não deve aparecer mais do que o candidato. ?Vou basear os programas no programa de governo?, disse à DINHEIRO. ?Seremos didáticos, explicando o que fazer e como fazer.? Anthony Garotinho, que corre por fora na disputa, mantém um discurso otimista. Seu publicitário, Carlos Rayel, já faz sua 26ª campanha. ?Como só temos quatro minutos, seremos ágeis, mostrando a boa administração que fizemos no Rio de Janeiro.? Ele será o primeiro a se apresentar no horário eleitoral gratuito, seguido, pela ordem, de Lula, Serra e Ciro Gomes.
Além dos programas eleitorais, nunca as emissoras de tevê reservaram tanto tempo para os políticos. O primeiro debate, de duas horas e meia, será feito pela Rede Bandeirantes já neste domingo 4. A expectativa da Band é de o programa registrar média de 20 pontos de audiência na medição do Ibope. Cada um desses pontos significa 47,5 mil domicílios com a tevê ligada. Ou seja: 3,8 milhões de pessoas avaliando cada palavra pronunciada pelos presidenciáveis, considerando os 20 pontos e a média de quatro habitantes por residência. A Rede Globo, por sua vez, fará nova rodada de entrevistas com os candidatos no Jornal da Globo, de 5 a 8 de agosto, no Bom Dia Brasil, de 26 a 29 de agosto, e no Jornal Nacional, de 23 a 26 de setembro. O debate está marcado para o dia 3 de outubro, três dias antes das eleições. Tamanha exposição põe em risco todo o investimento feito nos programas gratuitos. ?Uma entrevista ruim pode colocar tudo a perder?, avalia Marcos Fernandez Gonçalves, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas. ?A maquiagem pode cair e o eleitor tem que estar atento.?
A avalanche de propaganda política neste ano também traz um dado novo. Todos os candidatos terão loiras ao lado. Ciro terá a esposa Patrícia Pillar. Serra irá atacar com a vice, Rita Camata. Lula irá usar a imagem da mulher Marisa e da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Garotinho terá uma apresentadora, mostrando seus feitos no Rio de Janeiro. Tudo pela boa imagem.