19/02/2009 - 7:00

SELEÇÃO NATURAL:
a empresa alemã foi capaz de se transformar para depender menos da tecnologia analógica, como a de filmes, e mais de sistemas digitais, usados na área de saúde
NO INÍCIO DESTE ANO, A belgo-alemã Agfa fechou um contrato de US$ 5 milhões com o hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo para fornecer sistemas de digitalização de imagens médicas e de gestão hospitalar. Para quem não saía de férias sem um punhado de filmes fotográficos para registrar os momentos felizes, é uma surpresa ver a marca Agfa dentro de hospitais. A empresa foi uma das mais tradicionais fabricantes de filmes desde sua fundação, em 1867, por Paul Mendelssohn Bartholdy, filho do compositor alemão Felix Mendelssohn Bartholdy. Por mais de um século, a Agfa, que em 1964 se uniu à Gevaert Photo, militou quase exclusivamente na produção e venda de filmes para as mais diversas aplicações. Mas o afastamento desse mercado revelou-se como uma virtude de sua gestão. Dessa forma, a Agfa evitou o destino de outras empresas do setor que tentaram, sem sucesso, apostar em produtos condenados pela evolução tecnológica. O caso clássico é o da Kodak. A fabricante de máquinas fotográficas manteve seu foco em modelos analógicos e foi rapidamente engolida pelas marcas japonesas, que jogaram suas fichas nas câmeras digitais.
Há anos, a Agfa tomou decisões para evitar erro semelhante ao da Kodak. O primeiro passo em direção a um novo modelo de negócios ocorreu em 1988, com a aquisição da Compugraphic, empresa americana pioneira no campo de impressão digital. Dois anos depois, não apenas vendeu sua divisão de fitas magnéticas como lançou, pela primeira vez, sistemas de radiografia computadorizada.
Desde então, a empresa gradualmente modificou seu perfil, se afastando de tecnologias tradicionais em busca das novas formas digitais de captação, impressão e distribuição de imagens. Os dois principais golpes na origem “analógica” da empresa viriam em 2004. Naquele ano, a divisão de produtos ao consumidor, que incluía a fabricação de máquinas e filmes fotográficos, foi desmembrada do grupo e se tornou a AgfaPhoto, vendida para seus antigos diretores e executivos. Por outro lado, a companhia adquiriu a alemã GWI no mesmo ano e deixou definitivamente de atuar exclusivamente na área de imagens. Especializada em sistemas eletrônicos de registro, gestão e gerenciamento de informações e negócios hospitalares, a GWI foi incorporada à divisão de saúde da Agfa. Nos nove primeiros meses de 2008, a divisão de saúde representou 39% do faturamento global da Agfa, de ? 2,27 bilhões. “No Brasil, o crescimento tem sido expressivo também, especialmente com esse contrato que fechamos agora com a Beneficência e com outros que temos com os hospitais Samaritano e Santa Catarina”, explica José Laska, diretor da Agfa HealthCare no Brasil.
A onda digital na Agfa também atingiu a área de saúde. Hoje, metade das receitas desse negócio vem da venda de filmes para exames e da revelação desses filmes. Neste ano, porém, a participação dos sistemas de captura de imagens e, principalmente, de gestão hospitalar deve superar os 50% dentro da divisão médica da empresa. Os resultados da reinvenção da Agfa ainda não apareceram inteiramente. Nos nove primeiros meses de 2008, a empresa ficou no chamado break even, com um lucro inferior a ? 1 milhão, fruto dos aumentos das matérias-primas e da queda no consumo. A divisão de saúde, porém, encerrou o período com lucro operacional de ? 43,7 milhões, o que aliviou a situação para a Agfa. Mas, seguramente, seu destino será melhor que o da antiga subsidiária, a Agfa-Photo, que, anacrônica, abriu falência um ano após se separar da companhia.
