26/10/2005 - 8:00
Dentro das empresas, pequenos sinais podem significar grandes mudanças. No início deste ano, o francês Bernard Chambon, responsável pelos negócios da Rhodia na região latino-americana , desembarcou no Brasil e marcou reuniões de 30 minutos com cada um dos principais executivos da empresa no País. Apenas para um deles, Marcos De Marchi, foram reservados 45 minutos. De Marchi atentou para o fato, mas não lhe deu maior importância. Só incluiu um
item a mais em sua apresentação. Nem teve tempo de falar. Chambon havia separado os 15 minutos para anunciar que De Marchi seria o novo presidente da Rhodia na América Latina, em substituição a Walter Cirillo, que, aos 62 anos,
estava se aposentando. ?Realmente fiquei surpreso?, diz De Marchi. ?Não havia notado sinal de que seria o escolhido.?
Pode ter passado desapercebido para ele, mas, há dois anos, um trio de dirigentes conduzia um cuidadoso processo de escolha do sujeito que comandaria uma operação de US$ 1 bilhão, responsável por 13% do faturamento mundial do grupo. Formada por Chambon, Cirillo e Osni Lima, vice-presidente de RH na América Latina, a equipe iniciou uma maratona de reuniões secretas quando Cirillo completou 60 anos, idade na qual, segundo os critérios da Rhodia, os executivos devem pendurar as chuteiras. Mas a empresa vivia a pior crise de sua história. ?Não era o momento adequado para mudanças de comando?, diz Cirillo. ?O perfil de executivo para aquele período de reestruturação não seria o mesmo para depois da reestruturação. Então, o melhor, era esperar a poeira baixar.?
O primeiro passo do trio foi listar as características necessárias para o futuro chefão na América Latina. Primeiro: teria que ser um executivo de linha de frente, e não de uma área de apoio, como RH ou finanças. Segundo: deveria ser brasileiro ou, no mínimo, um estrangeiro com larga vivência no Brasil. Seria recomendável também possuir um horizonte de 10 a 12 anos de vida profissional, ou seja idade em torno dos 50 anos. Outro ponto obrigatório: uma consistente experiência internacional, não apenas em cursos ou estágios, mas à frente de algum negócio. Os demais traços não eram tão objetivos: facilidade de comunicação, carisma e boa aceitação na alta cúpula do grupo. Num primeiro momento, vinte nomes foram identificados no quadro de funcionários. A nacionalidade excluiu 15 deles. Restaram cinco. Desses, dois nomes foram riscados pois não atendiam a algum dos traços de personalidade necessários. O critério definitivo foram os resultados alcançados pelos três finalistas na condução dos negócios.
Nesse item, De Marchi levou vantagem. Entre 1998 e 2000, ele comandou a divisão de fios industriais da Rhodia no mundo, a partir de um escritório em Lucerna, na Suíça. Lá transformou a empresa em fornecedora de matéria-prima para air-bags, atividade que hoje cresce acima de 20% ao ano. Sob seu guarda-chuva se encontravam unidades industriais na Eslováquia e na Letônia. Em frente à sua sala, havia um centro de atendimento a clientes com cinco moças que falavam 12 idiomas. ?Isso tudo me possibilitou uma vivência rica com culturas diferentes?, diz De Marchi. O minucioso processo de escolha explica, em parte, a tradição da Rhodia na formação de executivos de primeira linha. De seus quadros saíram profissionais
como Edson Musa, hoje principal acionista da Caloi, e José Carlos Grubisich, presidente da Braskem. Durante seis meses, a escolha do nome de De Marchi foi mantida em sigilo. Em meados deste ano, os principais executivos no Brasil foram informados. A partir daí, Cirillo passou discretamente a conduzir ?sessões de informação? para De Marchi. Foram 30 encontros com os titulares das diversas divisões da companhia. Na terça-feira 18, funcionários, clientes e fornecedores souberam que De Marchi era o ungido. Aos 49 anos, nascido em São Bernardo do Campo (SP), o novo presidente tem desafios grandes pela frente. ?A Rhodia já é líder em seu mercado de atuação no Brasil?, diz Cirillo. ?Só tem dois caminhos para crescer: a inovação e a exportação.? Hoje, os produtos lançados nos últimos cinco anos correspondem a 19% do faturamento. Até 2010, essa fatia deverá bater em 25%. Mais: a participação de mercado no restante da América Latina é de 6%. ?Há muito espaço para crescer?, diz De Marchi.