Até parece lua-de-mel. Nas relações entre Brasil e Estados Unidos, a semana começou com uma ligação efusiva de George W. Bush a Luiz Inácio Lula da Silva e terminou com os dois países assumindo a presidência conjunta da Área de Livre Comércio das Américas. No telefonema, feito na segunda-feira 27 a bordo do avião Air Force One, Bush fez questão de se mostrar simpático. ?Estou impactado com a dimensão da sua vitória?, disse. No diálogo de quinze minutos, Bush terminou convidando Lula a viajar aos EUA antes mesmo da posse ? e o encontro já está sendo agendado. Os sinais de paz continuaram ao longo da semana. Um dia depois, a embaixadora americana no Brasil, Donna Hrinak, encontrou-se secretamente com o principal ideólogo internacional do PT, Marco Aurélio Garcia. Donna disse que a Casa Branca vê um governo de esquerda no Brasil de forma amistosa e recebeu como resposta a informação de que o PT não irá misturar ideologia com economia. Por isso, ela sentiu-se à vontade para, na quarta-feira 30, voltar ao comitê de Lula, em São Paulo, onde se encontrou com ele por uma hora. Desta vez, sem mistério. ?As perspectivas são positivas para os dois países, que têm um comércio de US$ 30 bilhões por ano?, disse Donna.

Todos esses salamaleques diplomáticos chamaram a atenção
sobre a boa vontade dos americanos ? algo que não se via desde a posse de Bush, em 2000. No entanto, é mais prudente encarar as declarações dos últimos dias como breves confraternizações entre pugilistas às vésperas de grandes combates. Assim que Lula assumir, Brasil e EUA darão início à fase decisiva da viabilização ? ou não ? da Alca. O cronograma é apertado, a agenda é pesada e as divergências, em muitos casos, parecem intransponíveis. Os diplomatas dos dois lados já têm um panorama esboçado do jogo. Segundo um funcionário do Departamento de Estado americano, os EUA esperam negociações duríssimas, até porque Bush ficou muito impressionado com o peso da vitória de Lula e o que isso significa em termos de liderança regional. Do lado brasileiro, a expectativa não é diferente. ?O poder de retaliação deles é esmagador?, avalia o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima. O que não impede avanços numa agenda comum. O senador eleito Aloizio Mercadante, que terá papel central nas negociações, aposta nessa vereda. ?Um dos pontos que os americanos defendem é o combate à pirataria e terão nosso apoio?, disse.

Foi nesse clima que, em Quito, no Equador, teve início a 7ª Reunião Ministerial da Alca. Os dois embaixadores eleitos co-presidentes do tratado foram Clodoaldo Hugueney, do Itamaraty, e Peter Allgeier, do USTR, o ministério do comércio dos EUA, que tentam excluir das discussões a agricultura, um dos setores em que o Brasil é mais competitivo. É uma proposta considerada inaceitável por Hugueney e por Paulo Delgado, o representante petista. ?Vim como observador e repassarei todas as informações à equipe de transição?, disse Delgado. Marco Aurélio Garcia, o homem que, no partido, responde pelas questões internacionais, já dá o tom do que será a postura de Lula em relação à Alca: ?O problema é a intransigência de Bush.?