Desde que assumiu a presidência da Petrobras, em fevereiro de 2012, Graça Foster dedica-se a dar um choque de realidade na maior empresa do País. No balanço daquele ano, por exemplo, ela surpreendeu o mercado ao reconhecer perdas de R$ 7 bilhões em poços secos – o que levou a empresa a lucrar 36% menos. Agora, na divulgação dos números de 2013 e do novo plano de investimentos, Graça manteve o tom. “Há uma mudança na cultura da companhia”, afirmou nesta quarta-feira 26, em encontro com analistas na sede da empresa, no Rio de Janeiro.

Graça lembrou que, em dois anos, sua gestão já apresentou três planos de investimentos. “Isso mostra que estamos colocando os pés no chão”, disse. O primeiro pé da Petrobras que está tocando o solo de modo mais firme é o controle de custos no dia a dia. Ela destacou a contribuição dos diversos programas de gestão sobre o resultado final da estatal. No ano passado, o lucro líquido da Petrobras foi de R$ 23,6 bilhões. Sem esses programas de contenção, chamados de “estruturantes”, o lucro seria R$ 9,7 bilhões menor, ou R$ 13,9 bilhões no total. “Buscar a excelência em custos é mais do que uma simples determinação”, disse.

O segundo pé da companhia que Graça tenta assentar no chão são os investimentos – um tema delicado, por envolver cifras bilionárias, pressões políticas e de fornecedores, e o peso da Petrobras para a economia do País. Não é por acaso que a revista americana Fortune, no início de fevereiro, apontou Graça como a quarta mulher mais poderosa do mundo dos negócios, tendo à frente apenas as presidentes da General Motors, Mary Barra; da IBM, Ginni Rommety; e da Pepsico, Indira Noovi.

No papel e na prática

O plano de negócios de 2014 a 2018, detalhado hoje, contém cifras bilionárias, como tudo o que envolve a Petrobras. No período, a companhia prevê investimentos de US$ 220,6 bilhões. Mais importante que o número, é a mudança de postura da direção da empresa. “Antes, havia um consenso de que, se um projeto estava no plano de negócios, seria implantado”, disse Graça. “Agora, só faremos se ele atender aos critérios de custo internacional e retorno.”

Por isso, a carteira de investimentos foi separada em duas: os projetos em implantação e em processo de licitação somam US$ 206,8 bilhões. Já os projetos ainda em fase de avaliação representam US$ 13,8 bilhões. O que chamou a atenção dos analistas é que mesmo projetos em fase de licitação podem não sair do papel, se não cumprirem os requisitos de custo e retorno. Segundo Graça, o que já está em implantação será concluído. “Isso é um compromisso assumido”, disse.

Mas o que ainda está em licitação não precisa, necessariamente, sair do papel. “Temos total liberdade e obrigação de realizá-las apenas se pudermos”, afirmou, ao ser questionada por uma analista de mercado sobre quanto o conselho de administração realmente apóia esse princípio. O motivo é simples: controlada pela União, a Petrobras é estratégica para o governo federal em vários aspectos – da sua capacidade de incentivar o desenvolvimento de certas regiões ao controle da inflação. Por isso, excluir projetos não é uma questão trivial para a diretoria. Mas Graça foi firme ao afirmar que mesmos projetos como as refinarias Premium I (a ser construída no Maranhão) e Premium II (no Ceará) só irão adiante se houver viabilidade.


Critérios

Mas, afinal, que critérios serão esses? No encontro com os analistas, hoje, Graça limitou-se a citar as linhas gerais que guiarão o que vai sair do papel ou não: a Petrobras deverá baixar seu nível de endividamento (a alavancagem, no jargão do mercado) para menos de 35% – o indicador encerrou 2013 em 39%. A empresa também deverá trazer a relação dívida líquida/ebtida para menos de 2,5 vezes. Em dezembro, ela estava em 3,52 vezes. O prazo para que estes indicadores alcancem esses patamares é de 24 meses. Essas medidas ajudarão Graça a cumprir outro requisito colocado pelo conselho de administração: preservar o grau de investimento conferido pelas agências internacionais de classificação de risco.

Outro ponto sensível e recorrente, quando se trata da Petrobras, não escapou ao encontro: o reajuste dos combustíveis, a fim de evitar que a companhia importe derivados a preços mais altos do que os praticados na venda no mercado interno. Para parte dos analistas, a empresa só conseguirá bancar os investimentos planejados, se reajustes aliviarem seu caixa. Graça, porém, preferiu não dar prazos para que a chamada “convergência com os preços internacionais” ocorra. “Nosso horizonte é de convergência”, disse.

Nos próximos quatro anos, a Petrobras estima que precisará captar US$ 12,1 bilhões para financiar seus projetos. Segundo o plano, não haverá nova emissão de ações. Em setembro de 2010, a companhia realizou uma megacaptação de R$ 120 bilhões, ao emitir ações. Agora, o objetivo é conseguir recursos apenas por meio de novas dívidas.

É assim que Graça espera colocar a Petrobras no caminho de produzir 4 milhões de barris de óleo por dia em 2030, o que a colocaria como a quinta maior petroleira do mundo. Um caminho que ela espera trilhar com os pés no chão.