13/03/2002 - 7:00
Nós já perdemos a Sudene, vamos perder também a CNI?? Este mote de campanha, formulado em encontros entre o deputado pernambucano Armando Monteiro Neto e presidentes de federações de indústrias da região Nordeste, é a chave para se entender o desfecho da eleição na Confederação Nacional da Indústria (CNI), de orçamento anual de R$ 2,6 bilhões e amplos poderes sobre o Sesi e o Senai. Depois de oito longos meses de articulações, acordos e traições, na semana passada o atual presidente da entidade, Fernando Bezerra, ex-ministro e senador pelo Rio Grande do Norte, anunciou a formação de uma chapa única para, após as eleições de julho, gerenciar a CNI pelos próximos quatro anos. Com apoio no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, Monteiro obteve maioria no colégio de 27 eleitores e estabeleceu um pacto com o paulista Carlos Eduardo Moreira Ferreira, ex-presidente da Fiesp, que ficou como vice. Por trás da cena que sugere pacificação, porém, sobram evidências de que a CNI ganhou um problema.
Aos 52 anos, Monteiro figura há muito tempo no álbum dos empresários que têm uma carreira sindical mais vistosa do que a de capitão de indústria. Pertencente à família que controlava o Banco Mercantil S.A., liquidado extrajudicialmente e hoje sob intervenção do Banco Central, ele dirige hoje a Noraço, uma empresa pernambucana de laminados do Grupo Armando Monteiro, fundado por seu avô no fim dos anos 40. Em 1994, o grupo tinha 10 mil empregados e faturava quase US$ 200 milhões. Hoje, o grupo de empresas agroindustriais tem 3 mil funcionários e muitos de seus bens indisponíveis, em razão da intervenção no Mercantil. À frente da Noraço, Monteiro é réu num processo na Justiça onde o empresário João Sandoval da Silveira, dono da Wicon Inox, o acusa de coação. Silveira alega que em 1994 tomou um empréstimo de CR$ 5 bihões, moeda da época, no Mercantil para repassar o dinheiro à Noraço. Silveira é o vice da Federação das Indústrias de Pernambuco, presidida por Monteiro desde 1993.
?Não conheço trajetória empresarial que não tenha sido marcada por dificuldades?, disse Monteiro à DINHEIRO, em seu gabinete no 16o andar do luxuoso edifício da CNI, em Brasília. ?Esse processo é mais um obstáculo que irei transpor. A acusação é falsa.? Os ecos dos problemas fizeram Monteiro agir com a máxima discrição nos últimos meses. Enquanto isso, Moreira Ferreira tentava furar o cerco do colégio eleitoral com pontas-de-lança afiadas. O empresário Antônio Ermírio de Moraes e o banqueiro Roberto Bornhausen enviaram a Fernando Bezerra cartas de apoio à candidatura paulista. Lázaro de Melo Brandão, do Bradesco, fez o mesmo por telefone. Jorge Gerdau e Emílio Odebrecht foram pessoalmente. Todos insistiam na necessidade de modernizar a CNI e romper a tradição, mantida desde 1964, de ela ter somente presidentes nordestinos.
Esses apelos só conseguiram unir as federações do Sul e do Sudeste. ?Fui amador. Enquanto recebia o apoio dos grandes empresários, deixei de cabalar os votos que decidiram a eleição?, lamenta Moreira Ferreira, que desprezou o corpo-a-corpo com os eleitores do Nordeste. Foi o mesmo erro do mineiro Stephan Salej, que ficou fora da chapa única com um discurso oposicionista. No Rio, outro derrotado, o empresário Eduardo Eugênio Gouvea Vieira, protestou: pela primeira vez a CNI não terá um diretor fluminense.
Monteiro promete reaproximar os grandes empresários da entidade ? uma missão quase impossível. Ao longo do processo, eles falaram em criar uma entidade para representar os industriais do Sul e Sudeste. A Ação Empresarial, presidida por Jorge Gerdau, está sob o guarda-chuva da CNI, mas pode alçar vôo próprio. E o clima continua quente. Na Fiesp, o presidente Horácio Piva, detesta falar sobre o assunto. Seus auxiliares, não. ?A CNI é uma mera repassadora de recursos que ajuda a sustentar mais de 20 federações sem a menor representatividade?, diz um deles. De olho na posse, em outubro, Monteiro parece ter cera nos ouvidos diante dos ataques. ?Minha inserção no sistema é antiga. Todos me conhecem pelo diálogo. Vou unir a CNI.?