24/04/2026 - 17:12
Setor de defesa do país gera 2,1 bilhões de euros em receita e passa a empregar 20 mil pessoas. De olho em meta de gastos da Otan, Portugal também tem ido às compras, passando a avaliar a compra de caças suecos Gripen.A defesa é um negócio lucrativo. Muitas empresas portuguesas perceberam isso e avançam cada vez mais nesse mercado, com ofertas mais atraentes. O setor de defesa gerou cerca de 2,1 bilhões de euros (R$ 12,3 bilhões) em volume de negócios no ano passado, sendo que 87% na área de exportação, segundo José Neves, da associação do setor AED Cluster Portugal. “E a tendência é de alta”, diz.
Ao mesmo tempo, Portugal compra ativamente equipamentos no exterior para cumprir a meta da Otan de gastar 2% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em defesa. Lisboa adquire fragatas da Itália, tanques da Alemanha e novos caças. Ainda não está definido, no entanto, se eles virão dos EUA ou da Europa.
Em 2025, foi o próprio ministro da Defesa de Portugal, Nuno Melo, quem colocou em dúvida a compra dos caças americanos F-35, da Lockheed Martin — um negócio que estava praticamente fechado. Na época, ele manifestou dúvidas sobre o compromisso dos EUA com a aliança sob o presidente Donald Trump e afirmou que alternativas europeias também deveriam ser consideradas. Agora, os mais antigos dos 28 caças F-16 de Portugal já têm mais de 30 anos, e uma decisão precisa ser tomada em breve.
É nesse contexto que entra em cena a fabricante sueca de armamentos Saab. A empresa quer vender aos portugueses o Gripen E, o mesmo encomendado neste ano pelo Brasil. “O Gripen E seria uma solução verdadeiramente europeia”, escreveu Daniel Boestad, vice-presidente da Saab responsável pelo Gripen, em resposta à DW. “O Gripen E fortaleceria as capacidades estratégicas de defesa de Portugal e da Europa por meio de parcerias industriais de longo prazo e soberania tecnológica.”
Cooperação internacional
Diferentemente dos americanos, a Saab quer envolver a indústria de defesa portuguesa no projeto Gripen. A empresa de manutenção aeronáutica OGMA poderia fabricar partes da aeronave — algo que já faz, por exemplo, para o grupo brasileiro Embraer. Em troca, Portugal compraria do Brasil aviões de transporte militar. “Além disso, estamos avaliando o potencial de ampliar a cooperação nas áreas de produção e MRO”, escreve Boestad, usando a sigla para manutenção, reparo e revisão.
Mas os suecos também apostam em Portugal em outras áreas, como na empresa de software Critical Software. Ela desenvolve um simulador de voo para o Gripen E. “Trabalhamos com a Saab porque é um desafio interessante e porque nos identificamos com o projeto”, afirma o CEO João Carreira. O escritório, fundado em 1998 por três pessoas, transformou-se em uma empresa internacional com cerca de 5.000 funcionários.
Inicialmente, a empresa produzia software para fragatas da Marinha portuguesa. Hoje, a Critical Software mantém joint ventures, inclusive com a BMW, e trabalha com grupos de defesa alemães como Diehl e Rheinmetall. “Desenvolvemos software para satélites militares, drones e sistemas de mísseis. Trabalhamos com a Airbus, tanto na área militar quanto, naturalmente, no setor civil.”
Cluster de defesa cresce de forma constante
Outras empresas fabricam drones ou componentes para grandes grupos internacionais de defesa. A indústria de defesa portuguesa tem motivos para comemorar, afirma José Neves, do AED Cluster Portugal. “Nos últimos cinco anos, muita coisa aconteceu. Tornamo-nos um player relevante, com cerca de 20 mil postos de trabalho.” Empresas como a fabricante de drones Tekever, que fornece para o mundo todo, ou a Critical Software teriam sido decisivas para conquistar a confiança de parceiros internacionais na indústria de defesa portuguesa.
Portugal já participa de praticamente todos os segmentos do mercado europeu de defesa, seja como fornecedor ou — cada vez mais — como fabricante de produtos finais. José Neves afirma: “Drones e sistemas de comunicação portugueses também estão sendo usados na Ucrânia.” A mensagem é clara e confiante: Portugal é um parceiro confiável.
Os suecos da Saab compartilham dessa avaliação. O simulador de voo desenvolvido pela Critical Software ainda não é o produto final. “Nosso objetivo é desenvolver um copiloto de IA para o Gripen E”, diz o CEO João Carreira. “Ele deve apoiar o piloto e tornar o jato ainda melhor.” Inclusive para a Força Aérea Portuguesa, que — ao que tudo indica — prefere o caça furtivo americano F-35, mais avançado e bem mais caro? “A Saab está pronta para apoiar Portugal na substituição de sua frota envelhecida de caças”, enfatiza o vice-presidente Boestad. “Estamos ansiosos para continuar o diálogo e ajudar Portugal a escolher o novo sistema de armas para sua força aérea.”
Compra forçada de aviões?
Se Portugal pode de fato decidir livremente essa compra é algo que Bruno Oliveira Martins, do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo (PRIO), questiona. “A postura pouco crítica de Portugal em relação ao uso da base aérea americana nos Açores pelos EUA em operações militares indica que o governo português tem pouca autonomia e determinação para se opor a Washington em questões militares.”
Em outras palavras, Portugal dificilmente pode se dar ao luxo de desagradar Washington e comprar aviões que não sejam dos EUA. “Ainda assim, uma das condições para a criação de uma indústria de defesa europeia orientada para o futuro é a aquisição de equipamentos que talvez não estejam no estágio mais avançado, mas que sejam bons o suficiente.”