03/09/2003 - 7:00
Um risco vermelho subiu, rapidamente, na tela do computador do superintendente executivo de operações da Bolsa de Valores, Ricardo Nogueira. O gráfico colorido registra cada negócio fechado na Bovespa e, naquele instante, os investidores compraram e venderam ações num ritmo furioso. Foram 668 operações de 14h31 a 14h32, mais de dez por segundo. O clima de euforia foi detonado pelo anúncio da redução dos juros oficiais em 2,5%, bem acima do previsto pelo mercado financeiro. ?Foi uma loucura. Todo mundo queria comprar ações?, lembra Nogueira. Naquele 20 de agosto, foram fechados 60 mil negócios, marca histórica na Bovespa. Desde então, a Bolsa não parou de bater recordes.
Para um mercado que volta e meia é declarado moribundo, a Bolsa deu mostras de grande vitalidade. Foram onze pregões seguidos de alta. Na quarta-feira passada, o índice Bovespa ? que mede o desempenho das ações ? bateu em 15 mil pontos, o melhor resultado desde 13 de setembro de 2001. Desde o início do ano, a Bolsa subiu mais de 35% e se converteu na aplicação mais rentável do País. Em dólar, a alta foi de mais de 60%, a maior do mundo em 2003, segundo a consultoria Global Invest. Os recordes não param aí: depois de terem fugido da Bolsa no ano passado, os investidores estrangeiros já aplicaram mais de US$ 1 bilhão em 2003.
Esses recordes podem ser traduzidos em dinheiro nos pregões. No auge da euforia financeira, a Bovespa chegou a movimentar US$ 1 bilhão por dia ? o real valia cerca de um dólar. Depois de seguidas crises no Brasil e no mundo, o volume de negócios despencou. Nos meses mais secos, a média diária ficou em R$ 477 milhões (agosto de 2001), R$ 485 milhões (setembro de 2002) e R$ 471 milhões (fevereiro de ß2003). Se fossem convertidos ao dólar, os resultados seriam uma magra lembrança da prosperidade de 1997 e 1998. ?Mas agora o movimento está se recuperando mês a mês?, diz Sérgio Cerqueira, gerente de projetos da Bovespa. Em julho, a média ficou em R$ 572 milhões. Em agosto, está acima de R$ 800 milhões. Na quinta-feira passada, foram negociados cerca de R$ 1 bilhão.
?O que mais nos anima é o aumento no volume de recursos, porque motiva as empresas a abrir o capital e movimentar a economia?, diz Raymundo Magliano, presidente da Bovespa. ?E há um aumento de aplicações entre todos os tipos de investidores.? Um bom exemplo são os estrangeiros. No ano passado, às vésperas da eleição, eles tiraram dinheiro por cinco meses seguidos. Agora, estão de volta, animados pela estabilidade da economia e do dólar. Aplicaram ? mais do que resgataram ? US$ 191 milhões em junho, US$ 178 em julho e mais de US$ 265 milhões em agosto. No ano, o saldo é de cerca de US$ 1 bilhão. ?O Brasil é nossa recomendação favorita na América Latina e uma das preferidas no mundo?, diz Robert Berges, do banco de investimentos Merrill Lynch, em Nova York. ?Mas a força da alta foi maior do que esperávamos.? Mas Berges faz uma ressalva ao próprio otimismo: ?Há alguma chance de correção dos preços das ações nos EUA. Nesse caso, o Brasil também seria afetado.?
No campo doméstico, também se viu uma busca por ações entre vários tipos de investidores. ?Muitos investidores individuais, pessoas físicas, estão trocando aplicações em renda fixa (juros) pela Bolsa?, diz João Carlos Pimenta, diretor da corretora Banespa, especializada em pessoas físicas. Em julho, as pessoas físicas ultrapassaram os estrangeiros como os segundos investidores mais importantes da Bolsa. Parte desse movimento se deve à campanha de popularização do mercado de ações, conduzida pela própria Bovespa, e também à diversificação de investimentos, diz Pimenta. Ainda no front doméstico, técnicos da Bolsa registraram aumento das aplicações dos bancos. Quem ainda não se mexeu muito ? e pode agitar bastante o mercado ? foram os fundos de pensão, com patrimônio de R$ 200 bilhões.
Todos esses números animam os especialistas. ?Nunca dá para prever os resultados de Bolsa, mas o movimento parece firme?, diz Pimenta, do Banespa. A maioria dos analistas diz que não se trata de um efeito passageiro, mas de o início de uma recuperação das fortes perdas do passado. Em 27 de março de 2000, véspera do estouro da bolha especulativa mundial, o índice Bovespa estava em 18.951 pontos. Se fosse corrigido pelo valor em dólar, a Bolsa poderia se recuperar até os 30 mil pontos. Ninguém acha que os valores da bolha ?nem do dólar ? eram realistas. Mas como a Bolsa não sobe há três anos, fala-se numa recuperação para 18 mil ou 20 mil pontos, se tudo der certo nos próximos seis meses a um ano.
É claro que o movimento pode ser interrompido a qualquer momento, por algum tropeção do governo federal ou uma crise internacional. Mas, por enquanto, o que impera é uma boa dose de otimismo com a economia brasileira e com o mercado de ações. Com a tendência de queda de juros, a Bolsa é duplamente privilegiada. De um lado, investidores trocam aplicações em renda fixa (que vão render menos juros) por apostas mais arriscadas, como a Bolsa. De outro, taxas em queda são sinônimo de crescimento econômico, ajudam o desempenho das empresas e, portanto, de suas ações.
A outra razão para a confiança foi o rápido avanço das reformas da Previdência e tributária, além do controle da inflação. Todos os termômetros da economia, além da própria Bolsa, deram sinais positivos. O dólar se estabilizou em torno de R$ 3,00 e o indicador risco Brasil ? que mede a preocupação do investidor estrangeiro em relação ao País _ caiu para 680 pontos, o mais baixo desde fevereiro de 2001. ?Em Bolsa, como na economia, não dá para garantir resultados?, diz Dorio Ferman, administrador do fundo de ações do banco Opportunity. ?Mas a queda da inflação e a boa condução da política econômica me levam a acreditar que os preços ainda estão baixos.? De olho nos saltos da linha vermelha em seu computador, Ricardo Nogueira, superintendente de operações da Bovespa, concorda: ?Ainda temos bom espaço para crescer, podemos estar no início de um ciclo de alta.?