06/04/2004 - 7:00

CACCIOLA: “Agora só volto ao Brasil como turista”
Na quinta-feira passada, dia 1o de abril, o ex-banqueiro Alberto Cacciola começou nova vida. O antigo dono do banco Marka inaugurou um empreendimento no centro antigo de Roma. De agora em diante, o homem que fez fortuna no mercado financeiro brasileiro, foi pivô de um escândalo com um presidente do Banco Central, passou 37 dias atrás das grades e saiu às pressas do País será o diretor geral de um hotel padrão quatro estrelas em Roma. Cacciola, segundo suas próprias palavras, está exilado na Itália. Segundo o Ministério Público Federal, está foragido. Passados cinco anos do chamado ?caso Marka?, as duas versões serão colocadas à prova. Em abril, termina o prazo para Cacciola apresentar sua defesa na Justiça. Daí em diante, seu julgamento poderá ser iniciado a qualquer momento. ?Os procuradores
tornaram minha sobrevivência no Brasil impossível?, disse
Cacciola à DINHEIRO, antecipando sua defesa, numa raríssima entrevista depois de sua saída do País.
Há três anos e meio, o ex-banqueiro embarcou numa viagem sem volta para o exterior. O Marka havia sido fechado e ele era acusado de corromper o ex-presidente do BC, Chico Lopes. Não podia andar nas ruas sem ouvir xingamentos. Segundo a acusação, o Marka quebrou com a desvalorização do real, em janeiro de 1999. Cacciola correu a Brasília e obteve do BC, então dirigido por Lopes, dólares abaixo do valor de mercado para zerar suas perdas. Reportagens daquele período também levantaram a suspeita que alguns bancos, entre eles o Marka, pagavam propina para obter com Lopes informações privilegiadas do BC. ?Denunciamos Cacciola por gestão fraudulenta e corrupção?, disse à DINHEIRO a procuradora Raquel Branquinho, um dos três autores das 400 páginas da acusação,
em que se pede a prisão de 13 pessoas, entre eles Cacciola, Lopes, ex-diretores do BC, do Marka e de outro banco envolvido no escândalo, o Fonte-Cindam.

COM ADRIANA E O CASTELO ONDE MOROU: Hoje ele vive de aluguel nos arredores de Roma
Cacciola gostaria de esquecer todo esse episódio. Ele guarda es-
pecial rancor da manhã do dia 14 de abril de 1999. Enquanto trabalhava no banco, seu apartamento era alvo de batida policial. Às 9 horas da manhã, estavam na casa sua esposa, a ex-miss Brasil Adriana, os dois filhos dela, de sete e quatro anos, e as empregadas da família. A cena é descrita com raiva no livro Eu Alberto Cacciola confesso do ex-banqueiro com o escritor Eric Nepomuceno. Segundo o livro, Adriana estava na cama, seminua, vestida com o short que usa para dormir, assistindo noticiário na tevê e tomando chimarrão (ela é gaúcha). A campainha tocou e entraram ?uns quinze homens armados de metralhadoras e escopetas?. Eles ?invadiram? o quarto. Adriana teve um ataque de pânico. ?Foi quando o valente procurador Bruno Acioli, do alto de seu metro e meio de altura, esticou-se todo para apontar o dedo na direção do rosto da minha mulher ? que tem um metro e oitenta ? e esbravejar, corajoso e viril como ele só, que se ela não calasse a boca direitinho seria acusada de desacato à autoridade e sei lá o que mais.?
A partir daí, Cacciola não perderia uma oportunidade sequer para ofender Accioli, seja em seu livro ou com palavras de baixo calão, em telefonemas grampeados pela Justiça. Para os advogados de defesa Carlos Eluf e Carlos Cyrillo, essa ?vendetta? ? vingança ? do banqueiro teria transformado a investigação numa rixa com os procuradores. ?Não há prova contra Cacciola. Os procuradores começaram a investigação para se projetar e montaram uma força tarefa ilegal para perseguir Cacciola por motivos pessoais?, dirá Eluf na Justiça. ?Não há nada de pessoal. Provamos que ele dirigiu o banco de maneira temerária e recebeu tratamento privilegiado do BC?, diz a procuradora. Com as investigações e uma CPI, a rotina de Cacciola se tornou um inferno. Até então, levava uma vida confortável. Morava num apartamento de 800 metros quadrados no Rio de Janeiro e ia de helicóptero para o escritório. Nos fins-de-semana passeava em seu iate, em Angra dos Reis. Com o escândalo, ficou conhecido como inimigo público e acabou preso. Dividiu um ?cafofo?, segundo suas próprias palavras, com outro preso. ?O colchão era de matar. Nunca vi uma coisa mais imunda na vida… era um retângulo de espuma escura que se desfazia de tão velha?, escreveu Cacciola. O banqueiro passou mais de um mês no ?cafofo?. Logo que foi liberado, entrou num carro, embarcou num helicóptero e foi para uma fazenda. Dali, pegou um avião para o Rio Grande do Sul, cruzou a fronteira com o Uruguai, embarcou noutro avião para a Argentina e dali para a Itália. A Justiça voltou a decretar sua prisão, mas era tarde demais.

“Trabalho 15 horas por dia, inclusive sábados, domingos e feriados”
Em Roma, sua rotina nada tem a ver com sua vida no Brasil. Cacciola diz que trabalha de 7 da manhã às 22 horas todos os dias, incluindo os fins-de-semana, numa atividade que nada tem a ver com a adrenalina e os milhões do mercado financeiro. Está envolvido, desde o início, no projeto de um novo hotel de 60 quartos em Roma. Ele diz que não é sócio, mas ganhará uma participação nos resultados da empresa. ?Graças a Deus estou recomeçando?, diz. ?Não é como um banco, mas dá para ga-
nhar um pouco de dinheiro e sobreviver.? Acusado de obter socorro do BC para proteger sua fortuna pessoal, diz que só defendeu o patrimônio de clientes e perdeu quase tudo o que tinha. Mora com Adriana num imóvel alugado, depois de passar por um antigo castelo. Segundo o ex-banqueiro, seria inviável comprar um imóvel. ?Está maluco? O metro quadrado custa entre 7 e 15 mil euros?, comenta. ?Se eu tivesse dinheiro como
dizem, meus filhos não estariam na atual situação?, diz, no único momento em que sua voz fica embargada.
O antigo dono do Marka tem três filhos do primeiro casamento, todos na faixa de 20 a 30 anos de idade. Vivem no Brasil. O pai só os encontra uma vez por ano, quando tomam um avião com destino a Roma. ?Ainda bem que as passagens estão mais baratas?, diz ele. Cacciola se queixa que não pode ajudá-los, mas não dá detalhes. Segundo DINHEIRO apurou com amigos do ex-banqueiro, um dos filhos vende peças de motocicletas, outra tem loja de bijouterias e uma terceira não trabalha. Uma das filhas tentou carreira como cantora, mas o sobrenome Cacciola se tornou um fardo. Em meados do ano passado, um dos filhos enfrentou problemas sérios e Cacciola quis
vir para o Brasil. Foi dissuadido. ?Se pisar no Brasil será preso?, alertou um amigo. Cacciola não só tem uma ordem de prisão no Brasil, como o governo tentou extraditá-lo da Itália. Um ex-ministro da Justiça levou pessoalmente o pedido a um Tribunal italiano. Cacciola se livrou da extradição com o argumento que o crime ?de gestão temerária? é muito vago para as leis italianas e, portanto, não teria sustentação jurídica para a extradição.

ELUF: “O processo deve ser anulado”
Às vésperas de seu julgamento, Cacciola não tem mais planos para voltar para o País. Não se trata de avaliação sobre suas chances no processo. O banqueiro simplesmente acha que é tarde demais. ?Completei 60 anos de idade. Esse processo ainda pode demorar alguns anos. O que vou fazer até lá?? Cacciola nasceu na Itália e migrou para o Brasil com os pais quando tinha oito anos de idade. Passou a vida inteira no Brasil, mas se adaptou à nova vida como italiano ? embora sinta falta do País e de não poder viajar para ver os filhos. Como um típico italiano, já foi flagrado pela tevê brasileira dirigindo uma motoneta pelas ruas de Roma. Também foi filmado
na arquibancada num jogo de tênis de Gustavo Küerten. Dividido
entre as duas cidadanias, Cacciola não se considera um fugitivo. ?Vocês não me encontraram? A Justiça brasileira também sempre
me encontra quando precisa falar comigo. Não sou fugitivo, estou exilado.? Esse ?exílio? deverá ser permanente. De agora em diante,
o banqueiro brasileiro Alberto virará o hoteleiro italiano Cacciola. ?Tenho de refazer minha vida aqui. Não tenho opção. Só devo
voltar para o Brasil como turista.? ![]()
| NÃO SOU FUGITIVO. SOU EXILADO |
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DINHEIRO ? Muitos brasileiros associam sua vida em Roma a um exílio dourado. O que o sr. tem a dizer?
CACCIOLA ? Não é verdade. Estou trabalhando com afinco, tenho hábitos modestos e vida comedida. Essas
alusões não procedem.
Por que o sr. vive na Itália?
Passei meus primeiros anos de exílio na Itália porque as pressões que sofri me obrigaram a viver fora do Brasil. Na realidade, não sou fugitivo. Sou exilado. Minha sobrevivência se tornou impossível pelas perseguições que sofri do Ministério Público Federal.
Como é sua atual rotina?
Completei 60 anos em janeiro e acabo de ser empregado como diretor de um hotel quatro estrelas recentemente inaugurado em Roma. Preciso do rendimento deste trabalho para sobreviver com minha família. Acredito que poderei ganhar o suficiente para viver dignamente com minha família. Minha jornada de trabalho inicia-se às 7 da manhã e estou me dedicando a esse trabalho até as 22 horas, inclusive sábados, domingos e feriados, como exige o ramo hoteleiro. Resta-me pouco tempo para lazer pessoal. Vivo atualmente em uma residência alugada nos arredores de Roma.
O sr. pretende voltar ao Brasil?
Há dois anos e meio, eu saí do Brasil com intenção de voltar,
como fiz centenas de outras vezes. Agora, pretendo voltar um
dia ao Brasil como turista.
Estamos às vésperas do julgamento do caso Marka. Quais
suas expectativas?
Confio na Justiça e na independência da juíza que irá julgar o processo. Sei que ela sofrerá muitas pressões, porque se eu fosse condenado, isso satisfaria meus detratores. Eles simularam fatos, criaram estigmas injustos sobre minha pessoa, mas no final não conseguiram provar nada do que alegaram na apuração processual. Espero que a Justiça reconheça que fui vítima da maior e mais desu-
mana difamação e calúnia que uma pessoa sofreu até hoje no Brasil. Espero ser inocentado. Isso atenuará o grave constrangimento que sofri pela exposição a que fui submetido perante a imprensa brasileira.
O sr. ainda guarda muitas mágoas daquele período?
No início enfrentei as acusações com bastante raiva. Elas eram injustas e despidas de comprovação. Fui exposto à opinião pública de forma desumana. Denegriram minha imagem com suposições jamais comprovadas. Sofri humilhações que não posso esquecer. A maior delas foi a invasão de meu apartamento em 1999. Eu estava ausente e os procuradores da Justiça, pessoalmente, participaram desta operação. Eles invadiram o imóvel e não respeitaram minha mulher que estava dormindo, vestida apenas com roupa de dormir. Colocaram o dedo em riste em seu nariz, com a ajuda de policiais armados com metralhadoras, escopetas e bombas de efeito moral, como se eu fosse um terrorista ou traficante. Eles não se importaram que fosse um ato de vandalismo e causaram abalo psicológico de forma desnecessária. Visaram sensacionalismo perante a mídia, com a presença de meus filhos de sete e nove anos, que ficaram aterro-
rizados. Os procuradores serviram como abre-alas desta invasão. Um deles ameaçava minha mulher por ?desacato à autoridade? e gritava com ela. Eles não poderiam sequer estar presentes nesta diligência, pois isto era de competência da Polícia Federal.
O que aconteceu a partir daí?
O problema ficou mais acentuado em relação aos procuradores de Justiça. Fiquei revoltado com o que fizeram em minha residência e, imaginando que estavam gravando minhas conversações, me dirigia a eles de forma desairosa. Eles, por corporativismo, organizaram uma verdadeira força-tarefa contra mim, movidos por vingança pessoal, em razão de minhas declarações. Nenhum homem de bem poderia suportar a truculência com que eles se portaram em relação à minha pessoa e à minha família.
Quem, em sua opinião, é responsável pelo escândalo?
Atribuo a culpa aos agentes públicos da acusação. Eles convocavam a imprensa e expunham suas suspeitas sobre minha pessoa. Então aguardavam a publicação das matérias, recortavam as manchetes que lhes interessavam e as utilizavam as suspeitas divulgadas dessa forma como elementos para a acusação.
Qual sua avaliação sobre a administração do sr. Francisco Lopes à época do episódio do Banco Marka?
A avaliação da conduta de Chico Lopes não cabe a mim, mas sim a quem o investiu da posição de presidente do Banco Central. Pesso-
almente, o tenho como uma pessoa honesta e de reputação ilibada.
E da gestão seguinte, de Armínio Fraga?
Eu já não estava no Brasil.
O sr. recebia informações privilegiadas do Chico Lopes
sobre a política de juros e câmbio?
Essa versão é falsa e ilógica. São frutos da imaginação dos detratores de minha honra. Chegaram a alegar o absurdo que eu pagava altas quantias a dirigentes do Banco Central para essa finalidade. Tudo é mentira. Na ação penal, não houve nenhuma prova dessas alegações. Ao contrário. Ficou ressalvado o caráter íntegro de Francisco Lopes, Tereza Grossi e outros diretores na transação que deu origem à acusação. Se eu tivesse informações privilegiadas, é óbvio que eu teria apostado na alta do dólar e não do real. Informações privilegiadas sempre beneficiam os vitoriosos e não os perdedores.
AS ARMAS DE CADA UM
Os argumentos da defesa e da acusação
ELUF: ?O processo
deve ser anulado?
O processo do Caso Marka levou cinco anos e acumulou 18 volumes e cinco mil páginas de documentos. Só a acusação tem 400 folhas. Os procuradores Artur Gueiros, Bruno Acioli e Raquel Branquinho pedem prisão para os 13 acusados. A lista inclui do ex-presidente do BC, Chico Lopes, aos ex-diretores Claudio Mauch e Tereza Grossi, além de Cacciola e Luiz Antônio Gonçalves, ex-presidente de outro banco envolvido no escândalo, o Fonte-Cindam. A tarefa de julgar alguns dos nomes mais poderosos do governo e do mercado financeiro da década de 90 cabe à juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, de 30 anos, da 6ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Veja, a seguir, as principais
armas da acusação e da defesa:
ACUSAÇÃO: Os administradores do Marka e do Fonte-Cindam agiram de maneira irresponsável, o que caracteriza gestão temerária. Segundo a denúncia, o mercado financeiro estava nervoso com a possibilidade de uma mudança na política cambial. O Marka e o Fonte-Cindam eram as únicas instituições que apostavam na manutenção da cotação do real. Quando o real foi desvalorizado, os dois bancos e seus fundos de investimentos quebraram.
DEFESA: Já haviam ocorrido outros ataques ao real antes, sem sucesso. O governo havia acabado de acertar acordo com o FMI com o compromisso de não mexer no dólar. Consultores privados, como o boletim Tendências, do ex-ministro Mailson da Nóbrega, descartavam a possibilidade de uma desvalorização. Se os banqueiros erraram, não foi por irresponsabilidade ou por se basearem em informações equivocadas de fontes privilegiadas do BC. Foi erro de avaliação.
ACUSAÇÃO: O Marka recebeu tratamento privilegiado do BC. Quando percebeu que havia quebrado, Cacciola foi a Brasília, pediu a intermediação de um lobista, deixou um bilhete em tom íntimo para ?Francisco?, então presidente do BC. Conseguiu obter dólares numa cotação generosa, dentro de uma banda cambial criada por Chico Lopes, mas fora da realidade do mercado. Parte dos recursos foi usada para salvar o Inovation Fund, fundo sediado no exterior com recursos pessoais de Cacciola.
DEFESA: O Marka foi vítima de uma mudança na política cambial conduzida de maneira inesperada por Brasília. Já estava progra-
mado pelo governo socorrer bancos com eventuais problemas na transição para evitar um efeito dominó e crise em todo o sistema financeiro. A operação foi fechada dentro da cotação oficial do BC
e, portanto, não houve privilégios. A ajuda foi para salvar os recursos de clientes dos bancos. O Marka não pode divulgar quem são os aplicadores do Inovation Fund porque está num paraíso fiscal e encontra-se sob sigilo bancário.
ACUSAÇÃO: Há evidências de corrupção no BC, ressaltadas pelo rápido enriquecimento de personagens envolvidos com o escândalo. O economista Luiz Augusto Bragança, ligado a Chico Lopes, estava desempregado. Pouco depois, comprou carro novo, viajou para a Europa e escreveu para a namorada dizendo que estava enriquecendo. Chico Lopes tinha conta no exterior (antes de 1999) com mais de R$ 1 milhão.
DEFESA: O fato de o patrimônio de Bragança ter aumentado e de Chico Lopes ter conta antiga no exterior não é prova de nada. Os dois tinham outras atividades profissionais, anteriores ao escândalo, e não há nenhum documento, indício ou prova que mostre que receberam dinheiro dos banqueiros.
A ACUSAÇÃO DA DEFESA:
A investigação é ilegal e o processo deve ser anulado. Há decisão
do Supremo Tribunal Federal proibindo o Ministério Público de exer-
cer o papel de polícia. Os mesmos procuradores que iniciaram o inquérito, investigaram o caso, fizeram batidas policiais e montaram força-tarefa para perseguir Cacciola. A motivação inicial foi aparecer na imprensa. Em seguida, virou uma briga pessoal porque Cacciola ofendeu os procuradores.
A DEFESA DA ACUSAÇÃO:
Os procedimentos foram legais e aprovados pelos tribunais superiores. Todas as provas foram validadas pela Justiça. Não há motivos para anular o processo. Os procuradores em nenhum momento foram motivados por aparecer na mídia ou por questões pessoais. Receber ofensas dos acusados nos processos faz parte da rotina do Ministério Público .Essa foi uma investigação importante, mas dentro da rotina dos procuradores.