Os conflitos e mudanças em curso nos países do Oriente Médio e Norte da África não devem abalar drasticamente as relações comerciais entre brasileiros e árabes. O especialista em Oriente Médio Salem Nasser, professor de Direito Internacional da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, aposta, inclusive, que as mudanças serão positivas ou ao menos neutras para o Brasil.

“O Brasil goza da simpatia natural dos povos árabes e a sua relação com esses países nunca foi vista como marcada por uma preferência pelos regimes ou por um projeto de poder específico”, diz.

Em entrevista à DINHEIRO, Nasser também comenta o fato do presidente Obama ter afirmado, em recente visita ao Brasil, que quer ser cliente preferencial do País em petróleo, e autorizado a invasão à Líbia, na região que mais produz petróleo no mundo.

“Ajudar na derrubada de Kadafi militarmente, ou estabelecendo um impasse em que o país seja efetivamente dividido, deixa os países envolvidos em uma situação um pouco mais confortável em termos de imagem junto aos outros povos árabes desejosos de mudança e, muito importante, os deixa mais bem colocados para decidir sobre o futuro do país e sobre a exploração econômica de suas riquezas”, afirma.

Mas, até que ponto podemos confiar no presidente carismático e de fala mansa?

 

Confira maiores detalhes na entrevista:

 

DINHEIRO –  Há muitas mudanças em curso na região do Oriente Médio e Norte da África. Qual será a conseqüência para as relações comerciais do Brasil e do mundo com aquela região, tanto para exportações para lá (caso do frango, por exemplo) como para as importações de petróleo para outros países?

 

Eu apostaria que as mudanças serão ou positivas ou ao menos neutras para o Brasil, especialmente no que se refere às relações comerciais. O Brasil goza da simpatia natural dos povos árabes e a sua relação com esses países nunca foi vista como marcada por uma preferência pelos regimes ou por um projeto de poder específico.

DINHEIRO – O governo anterior abriu um canal grande com os países árabes, e até hoje Lula é celebrado por tal feito. Dilma, por outro lado, não dá demonstrações de querer mudar essa política, mas deixa claro que muda em relação a questões como o Irã. Pode haver alguma conseqüência para a relação comercial entre Brasil e países árabes com a mudança de postura (que até vem sendo chamada de correção de rota por alguns ) por parte de Dilma?

 

Penso que não há vontade, por parte do novo governo, de mudanças radicais e mesmo substanciais com relação aos países árabes e mesmo com relação ao Irã, e penso que não deve haver. O fato é que Dilma não é Lula e não conta com o capital de popularidade que ele acumulou nos últimos anos. Além disso, tudo parece indicar que seja uma pessoa de caráter forte. Tendo percebido que talvez a opção de política externa que mais sofreu críticas fortes, e a que mais ressoou na opinião pública e na imprensa, foi a aproximação com o Irã, Dilma viu que havia espaço para afirmar a sua personalidade própria e sua independência, e para reafirmar alguns valores que nos são caros. No entanto, a opção de manter aberto o canal de debate e de cooperação com o Irã parece mantida.

DINHEIRO – Ao mesmo tempo em que o presidente Obama veio ao Brasil dizer que quer ser o cliente preferencial do Brasil, um país estável e pacífico, ele participou da invasão à Líbia, na região que mais produz petróleo no mundo. Como podemos analisar esse paradoxo americano?

 

Não há dúvida de que a intervenção na Líbia tem íntima relação com o petróleo, mas essa relação precisa ser posta em contexto. O contexto é essa aparentemente incontível onda de mudança no mundo árabe. Os Estados Unidos e outros, como a França, por exemplo, foram muito criticados por reagir mal e com grande hesitação nos casos da Tunísia e Egito, já que, no fundo, preferiam a manutenção daqueles regimes. No caso da Líbia, a relação de proximidade era mais recente e menos enraizada. Havia-se, na verdade, chegado a um acordo de convivência necessária com Kadafi, que podia ser proveitosa economicamente, especialmente no setor energético.

 

A Líbia talvez se apresentasse, portanto, como uma chance melhor de “fazer a coisa certa” ou de “estar do lado bom da história”. No caso dos Estados Unidos, especialmente porque a Líbia de Kadafi não era um de seus aliados estratégicos e necessários na região. Eles agem de modo diverso com relação ao Bahrein e o fariam muito mais se a situação progredir na Arábia Saudita. Ajudar na derrubada de Kadafi militarmente, ou estabelecendo um impasse em que o país seja efetivamente dividido, deixa os países envolvidos em uma situação um pouco mais confortável em termos de imagem junto aos outros povos árabes desejosos de mudança e, muito importante, os deixa mais bem colocados para decidir sobre o futuro do país e sobre a exploração econômica de suas riquezas.

DINHEIRO –  O presidente Obama passou pelo Brasil e deixou uma impressão positiva entre os brasileiros. A despeito do carisma, entretanto, o que efetivamente pode se esperar dos EUA como um interessado parceiro comercial?

 

Há duas coisas a dizer aqui. A primeira é que Obama conta com uma espécie de carisma à priori e, sem dúvida, domina a arte do discurso. Mas ambas qualidades têm seus limites, porque as possibilidades de ação, e eu diria mesmo a vontade de ação, nem sempre corresponde às expectativas e às promessas. Veja o exemplo do belíssimo discurso feito no Cairo e a pobreza das ações que seguiram em termos de aproximação com o mundo árabe-muçulmano.

 

A segunda é que, com relação ao Brasil, os Estados Unidos vão a partir de agora nos enxergar como adversários, com quem se pode, é claro, estabelecer relações privilegiadas e amigáveis, mas adversários necessários por causa da nossa estatura no mundo que só faz crescer, e especialmente se esse crescimento continuar a se fazer acompanhar por uma política externa mais impactante. Acho que nós também precisamos acreditar nisso e começar a nos perguntar o que nós queremos da nossa relação com os Estados Unidos e o que faremos para conseguir o que queremos.

DINHEIRO – Há riscos efetivos de trabalhar com um parceiro desse tamanho, ou seja, tem o lado bom, de ter um cliente rico, mas tem o lado mau, de ter a maior economia do mundo olhando-nos como potenciais “iguais”, ou seja, adversários, como o senhor colocou. Seria coincidência o Brasil estar investindo mais em Defesa atualmente? Levando em conta que os gastos com Defesa são justificados, em parte, por conta do pré-sal? ou é um pouco de teoria conspiratória?

 

Não é coincidência. No mundo real da política internacional, você precisa ter os músculos para sustentar em papel mais ativo. Senão corre o risco de ser visto como um gigante sem dentes para morder. O Brasil ainda é tímido nessa área, mas será chamado a fazer mais. Não é, portanto, apenas o pré-sal.