A poderosa presidente da Hewlett-Packard Carly Fiorina nunca teve dúvidas que sua idéia de arrematar a Compaq provocaria rusgas e caras feias. Afinal, o negócio de US$ 21 bilhões anunciado no último dia 3 de setembro criou a maior empresa de PCs do planeta, o que certamente geraria desconfiança das autoridades antitruste e a fúria da concorrência. O que Fiorina não imaginava é que a primeira pá de cal capaz de inviabilizar a compra sairia de dentro de sua própria casa. Os herdeiros de Bill Hewlett e David Packard, os empreendedores que criaram a HP a partir de uma pequena garagem em 1938, vieram a público na semana passada para anunciar sua oposição à bilionária aquisição.

A primeira negativa partiu de Walter Hewlett, que além de ser filho de um dos fundadores e membro do conselho da HP, detém 5% das ações da companhia. No último dia 6, o executivo disse que votaria contra a aquisição da Compaq em razão do risco da operação e as previsões sobre o negócio. ?Todos os sinais envolvidos nessa transação são negativos. Eu acho que não vale a pena assumir os riscos.? Hewlett fez questão de afirmar que sua decisão seria seguida por duas irmãs e pela Fundação da família.

Futuro incerto. Um dia depois, foi a vez de um membro da família Packard, David, se opor à idéia da compra. O anúncio teve um impacto mais psicológico do que financeiro na negociação. David não tem participação na Fundação Packard, detentora de 10,4% na HP. Mas suas palavras foram suficientes para aumentar o paredão da resistência ao negócio entre acionistas e analistas. A série de ?nãos? emitidos na semana passada só agrava a difícil situação da HP e da Compaq. Com a transação, a HP e a Compaq poderiam oferecer uma gama mais completa de produtos e fazer frente à IBM na caça por clientes corporativos. A sinergia também ajudaria as duas empresas a reduzirem custos dos PCs para os consumidores, a exemplo do que faz a Dell. Era o que faltava para as duas empresas. As vendas de PCs representam metade do faturamento da Compaq e 25%, no caso da HP. Com a compra, HP e Compaq poderiam enfrentar melhor a crise no mercado de PCs, que experimentou este ano a primeira queda nas vendas desde 1986. Os atentados terroristas foram o fósforo que faltava para incendiar a situação. Agora, com a possibilidade cada vez mais remota de um casamento, HP e Compaq precisam encontrar um plano ?B? rapidamente. Até a semana passada, não havia nem sinal dele.