O velho consórcio está de volta aos bons tempos. A reunião de pessoas interessadas na compra de um mesmo produto ? seja ele um carro, uma casa ou um liqüidificador ? e dispostas a contribuir mensalmente para formar um caixa comum voltou a atrair centenas de milhares de consumidores. Só no primeiro trimestre deste ano, foram vendidas 509,3 mil cotas, para os segmentos de veículos, imóveis e eletroeletrônicos. É um avanço de 33,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Que eleva o número de participantes ativos de consórcios para 3,3 milhões de pessoas. Atrás desta massa de brasileiros, estão os bancos de varejo, que desembarcam em peso em um mercado que movimenta R$ 12 bilhões por ano. O Banco Real se tornou, há três semanas, o mais novo competidor no setor. E o Santander Banespa deve anunciar, em breve, a sua entrada. ?O consórcio está ganhando espaço porque se tornou uma forma mais barata de se adquirir um bem?, constata João Victorino, superintendente executivo do Banco Real.

Para entrar neste ramo, o Real comprou, em agosto do ano passado, a administradora Araguaí, que pertencia ao grupo Anhembi, revendedor da marca Chevrolet em São Paulo. Desde então, o banco adaptou o negócio a seus padrões tecnológicos e comerciais e acrescentou motocicletas e imóveis ao portfólio de produtos. O período de ajustes foi usado, ainda, para que o banco testasse os novos produtos entre os próprios funcionários da rede de agências. Agora, a meta é ampliar a base herdada da Araguaí de 4 mil para 10 mil cotas ativas até o final do ano. Paralelamente, o Real também estuda o lançamento de consórcios de equipamentos médicos, máquinas e implementos agrícolas. ?A decisão final vai depender da aceitação dos clientes?, diz Victorino. Mas é no consórcio de imóveis que estão concentradas as melhores apostas de crescimento. O segmento caiu nas graças do consumidor e registrou o maior crescimento dos últimos 12 meses: 31%, contra 4% no caso dos automóveis.

Além de ser uma forma de compra mais simples que o financiamento, por não exigir a tradicional montanha de documentos nem crédito pré-aprovado, o sistema de consórcio torna-se mais atraente com a Selic em estratosféricos 19,5% ao ano. No próprio Real, o reajuste das parcelas será de 14,15%, diluídos ao longo de 12 anos. Para efeito de comparação, a taxa de juros média nos financiamentos imobiliários é de 13% ao ano. Com a boa aceitação dos últimos meses, o ramo de imóveis tornou-se a menina dos olhos de todo o mercado. O HSBC, por exemplo, começou a operar no segmento há apenas um mês. ?O déficit habitacional do País contribui para as boas perspectivas de crescimento?, justifica Douglas Lopes, da área de consórcios do HSBC.

A estréia do Banco Real, a ampliação da carteira do HSBC e o interesse declarado do Santander evidenciam a estratégia de diversificação dos bancos de varejo no Brasil. A idéia é adicionar aos balanços mais receitas com a prestação de serviço. ?O consórcio também é importante para ganhar a fidelidade do cliente. Este sistema prevê, invariavelmente, um relacionamento de longo prazo com o banco?, ensina Celso Barbuto, presidente da Bradesco Consórcios, líder nos segmentos de veículos e imóveis. ?O sistema é, além disso, uma porta de entrada para a venda de outros produtos do banco.? As metas de crescimento do Bradesco na área são ambiciosas: 40% nas duas categorias até o fim do ano. E que ninguém duvide. O potencial de distribuição de produtos das redes de agências bancárias tende a injetar ainda mais ânimo nos consórcios. E limitar ainda mais o espaço para a atuação das administradoras independentes. A saída para elas, segundo especialistas, é a especialização. Seja em um segmento específico de consórcio, um determinado tipo de público ou uma região do País.