01/12/2004 - 8:00
A indústria da construção civil respira novos ares. Enquanto o governo discute a possibilidade de acabar com o direcionamento de recursos da caderneta de poupança para o setor imobiliário, as empresas despertam para o mercado de capitais como uma alternativa de financiamento de seus empreendimentos. O valor captado com emissões de títulos como o Certificado de Recebível Imobiliário (CRI) saltou de R$ 142,1 milhões, em 2002, para R$ 348,7 milhões neste ano. Outros R$ 400 milhões aguardam no momento o aval da Comissão de ValoreCVM para chegar Certificado de Recebível Imobiliário (CRI) saltou de R$ 142,1 milhões, em 2002, para R$ 348,7 milhões neste ano. Outros R$ 400 milhões aguardam no momento o aval da Comissão de Valores Mobiliários, CVM, para chegar ao mercado. A novidade movimenta pesos pesados do setor, como a incorporadora Klabin Segall, que estreou neste mercado em outubro, com a venda de recebíveis, no valor de R$ 5 milhões, para o banco Pactual. Ou a construtora Gafisa, controlada pela GP Investimentos, que em três emissões neste ano já arrecadou R$ 70 milhões. Como isso funciona? A idéia é transformar o investidor em financiador do imóvel incorporado, e a principal ferramenta para isso é o CRI, um título de renda fixa com lastro em contratos de financiamento. O papel troca de mãos no sistema de negociação de renda fixa da Bovespa, o Bovespafix, ou no mercado de balcão da Soma, o Somafix. A liquidez é praticamente nula. Mas o retorno, normalmente indexado ao IGP-M mais um percentual predeterminado, tem se mostrado bastante atrativo para o investidor. Do ponto de vista das empresas, também é um bom negócio. ?Com esse sistema, repassamos para o mercado de capitais a gestão da carteira de recebíveis enquanto nos capitalizamos para investir em novos empreendimentos?, explica Eurico Magno de Carvalho, diretor administrativo e financeiro da Klabin Segall, que se prepara agora para uma nova oferta de R$ 5 milhões, prevista para janeiro do ano que vem. Para dar mais confiança ao investidor em uma transação necessariamente de longo prazo, a Klabin Segall adotou em seus estandes de venda um sistema chamado Credit Score, que avalia a capacidade de pagamento dos mutuários, monitorando a situação dos clientes durante todo o período de quitação da dívida. A contabilidade da própria incorporadora pode ser conferida trimestralmente pelos relatórios financeiros da empresa.
Dinheiro barato. O sucesso de ofertas como as da Gafisa e Klabin Segall não chega a surpreender. Apesar de incipiente e voltado apenas para investidores qualificados (com no mínimo R$ 300 mil para aplicar), o mercado de recebíveis imobiliários é promissor. ?A tendência é que a colocação de recebíveis aumente cada vez mais, pois é a forma de financiamento mais barata do mercado?, explica Luiz Cláudio Nascimento, presidente da Gafisa. A construtora, controlada pela GP Investimentos, arrecadou neste ano R$ 70 milhões em três emissões. O montante serviu para reduzir a dívida líquida da empresa para R$ 120 milhões. Agora a Gafisa anuncia o lançamento de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) no valor de R$ 24 milhões, operação que recebeu nota duplo A da agência de classificação de risco Austin Rating. A garantia de pagamento é a receita proveniente da venda de cinco empreendimentos de alto padrão da construtora.
A procura por títulos imobiliários vem crescendo tanto que os investidores já reclamam da escassez de emissões. ?Sobram compradores e faltam papéis no mercado?, afirma Pedro Klumb, sócio do SFI, Sistemas Financeiros Imobiliários, empresa que auditora recebíveis e administra créditos. A área técnica da CVM estuda, no momento, a redução do limite de aplicação mínima neste tipo de investimento e o governo prepara um empurrãozinho extra para o setor: a partir de janeiro, as operações com recebíveis deverão ficar isentas de alíquota de 20% do Imposto de Renda.