03/04/2002 - 7:00
Duas câmeras ultravelozes deslizam no topo do estádio. Elas percorrem 100 metros em sete segundos ? pouco mais que um carro de Fórmula 1, que faz o mesmo percurso em quatro segundos. As lentes acompanham cada lance do jogo e transmitem a imagem para telões gigantes, de 10m x20m. Há definição suficiente para mostrar o suor escorrendo do rosto dos craques. Em outro estádio, totalmente coberto, o gramado fica do lado de fora para não se deteriorar. Nos dias de jogo, um sofisticado sistema de trilhos faz as arquibancadas se abrirem. O campo, então, montado sobre uma plataforma de 8,3 mil toneladas e suspenso a sete centímetros do chão por um mecanismo de ar comprimido, desliza para dentro. Na Copa do Mundo de 2002, que começa no próximo dia 31 de maio, o espetáculo, ao que parece, estará mais fora do que dentro dos gramados. Japão e Coréia, co-anfitriões, gastaram juntos US$ 8 bilhões em estádios, obras de infra-estrutura e na organização do evento. Nenhum torneio ou evento mundial consumiu tamanho investimento. Nenhuma competição apresentou tecnologia semelhante. A primeira Copa do Século XXI promete ser um espetáculo inesquecível. Pelo menos fora das quatro linhas.
Por trás das maravilhas tecnológicas que serão exibidas durante o torneio, dezenas de empresas ? patrocinadoras ou não ? protagonizam uma disputa digna dos grandes clássicos mundiais. A peleja corporativa entre companhias coreanas e japonesas parece bem mais promissora do que a campanha das seleções dos dois países. A Korean Telecom, por exemplo, trava dura batalha com a japonesa NTT para mostrar quem tem o melhor sistema de comunicação da Copa. A primeira apresentará seu celular de terceira geração. E garante ao usuário que ele poderá ver o replay dos gols na telinha do telefone móvel. A japonesa contra-ataca com um sistema semelhante baseado na comunicação sem fio em alta velocidade. Deve dar empate. Goleada mesmo acontece na arena automobilística. A Toyota, grande promotora dos torneios de futebol (Copa Libertadores e Mundial Interclubes), ficou de fora do elenco de patrocinadores justamente quando o evento é realizado na sua casa. Quem entrou em campo foi a Hyundai, capitaneada por Chung Moog Joon, herdeiro do conglomerado e chefe do comitê organizador da Copa. A montadora vai oferecer aos oganizadores do mundial reluzentes Elantras ou Dynasty ? modelos da Hyundai. E montará em praça pública um minigol (inflável) que mede a velocidade dos chutes. Os donos dos chutes mais potentes ganharão prêmios.
Vitrine. A japonesa Toshiba vai na mesma linha. Pretende brindar seus consumidores com bilhetes para as partidas realizadas em seu país. Basta comprar um notebook da marca. ?A Copa do Mundo é uma ótima vitrine para nossos produtos?, disse à DINHEIRO Midori Suzuki, porta-voz da empresa no Japão. ?Mais de 40 bilhões de pessoas assistirão ao torneio pela televisão e 2 milhões de turistas devem visitar Japão e Coréia?.
A Toshiba vai fornecer PCs, servidores e periféricos para auxiliar na parte operacional do evento. A americana Avaya, outra patrocinadora oficial, gastou US$ 50 milhões para colocar internet sem fio nos estádios. A tecnologia permitirá que um laptop esteja o tempo inteiro ligado à rede, em qualquer ponto do estádio. ?Nenhum veículo de mídia nos daria uma exposição global como a Copa?, diz John Lombardi, diretor de marketing
da empresa para a América Latina.
Até quem não está na lista da Fifa aproveita o torneio para fazer lançamentos. A LG deverá apresentar uma televisão de 20 polegadas em formato de bola. É um equipamento promocional desenvolvido no Brasil. Os executivos da companhia só lamentam o fato de não estarem incluídos no rol de patrocinadores oficiais da Fifa. ?Dividir a Copa em dois países prejudicou as empresas coreanas?, diz Renato Carvalho, gerente de marketing da filial brasileira. ?Companhias japonesas como a JVC já estão com a Fifa há mais tempo e têm prioridade na hora de renovar seus contratos de parceria.?
Apesar de estarem juntos na organização do torneio, japoneses e coreanos não superaram as suas diferenças históricas ? que remontam à época da anexação da Coréia pelo Japão em 1910. As divergências começaram tão logo a Fifa optou pelas duas sedes. Primeiro, para saber o nome de qual país apareceria na frente no logotipo da competição. Acabou ficando 2002 Fifa World Cup KoreaJapan. Outra briga: na escolha do nome dos mascotes, os coreanos acharam Ato, N1ik e Kaz ?japoneses? demais. No cenário econômico, o recessivo Japão anda tomando de lavada da ascendente Coréia. Mesmo assim, muitos consumidores ainda têm preconceito em relação aos produtos made in Korea. A Copa do Mundo é uma chance de ouro para a Coréia mostrar que os seus japoneses são melhores do que os originais.
Terá de suar a camisa. Pelo menos em relação aos estádios, o Japão vai dar um baile. Os campos coreanos até impressionam pela beleza e pela eficiência, mas é no vizinho que estão as maiores maravilhas da Copa. O Sapporo Dome, que fica na ilha de Hokkaido, norte do Japão, é aquele que tem o gramado montado sobre uma plataforma móvel. Um sistema de ar comprimido puxa o campo para dentro em dias de jogo de futebol, e o empurra porta afora para a prática de beisebol. A operação leva cinco horas. O Sapporo Dome tem capacidade para 40 mil pessoas e custou US$ 360 milhões. Perto de Tóquio, está o estádio da cidade de Saitama, que além das câmeras com velocidade de Fórmula 1, conta com abrigos antiterremoto abastecidos com comida, cobertores e kits de primeiros socorros. Em Oita, no sul do país, o estádio apelidado Big Eye impressiona pela cobertura translúcida de teflon. Ela abre e fecha conforme as condições do tempo, simulando os movimentos do olho humano. A final da Copa será disputada no International Yokohama Stadium, que consome eletricidade produzida pela incineração do lixo da cidade e recicla a água da chuva para ser usada no sistema de ar-condicionado, nos banheiros e na irrigação do gramado. Com tanta tecnologia, ninguém duvida dos japoneses, que prometem para 2050 a primeira partida de futebol da história entre robôs.