Ao elevar pelo terceiro mês consecutivo a taxa básica de juros, desta vez para 16,75%, o Comitê de Política Monetária (Copom) descobriu nos últimos dias 22 e 23 como é difícil escapar de uma sinuca de bico. A alta de meio ponto porcentual, que nos últimos três meses vem sendo usada para aliviar a pressão do câmbio, também está gerando um efeito negativo: o agravamento da desaceleração econômica.

Nas pilhas de documentos discutidos na reunião, havia bons motivos para que, em lugar de aumentar os juros, o BC deixasse a taxa no mesmo patamar. A crise energética que vai afetando todas as previsões de crescimento do País só piora o quadro de retração. No mercado, as previsões de aumento do PIB já despencaram dos 4,5% do início do ano para atuais 2%. O próprio Banco Central, em relatório sobre juros, apontou uma diminuição no ritmo de crescimento do crédito. Por este ângulo, seria desnecessário aumentar os juros para calibrar a economia. ?As últimas elevações já surtiram o efeito de retração na economia. Não é com altas de meio ponto porcentual que o BC irá aliviar a pressão no câmbio?, diz o economista Miguel Ribeiro de Oliveira, da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac).

A pressão no dólar, no entanto, voltou a preocupar os integrantes do Copom. O temor é de que a contínua alta do dólar seja repassada aos preços dos produtos, elevando a inflação e jogando por água a meta de inflação de 4% ao ano. Previsões feitas por economistas consultados pelo BC já apontam uma inflação medida pelo IPCA de 5,01% no ano, acima do alvo do governo mas dentro da tolerância de dois pontos porcentuais acima da meta.

Foi por isso que na quinta-feira, 24, o Banco Central anunciou a oferta de R$ 1 bilhão em títulos cambiais com prazo de 10 meses, em uma ação interpretada pelo mercado como tentativa de frear a disparada do câmbio e conter o seu impacto na inflação. Além do dólar, outro fator levou o Copom a elevar os juros: a crise energética. Há uma certa expectativa de que o aumento dos preços da energia comprada no Mercado Atacadista de Energia (MAE) pelas empresas seja repassado aos seus produtos, ainda que a retração econômica possa conter esse movimento. Mas as tarifas devem subir acima do que se previa e o mesmo irá ocorrer com os combustíveis.
Apesar de ser um remédio amargo para a economia real, a elevação de juros foi recebida com naturalidade pelo mercado. ?O BC nada mais fez do que agir em linha com o que se esperava?, diz o economista-chefe do Banco Bilbao Vizcaya, Octavio de Barros. ?Foi uma decisão para não criar barulho no mercado.? Resta saber se as pílulas de meio ponto porcentual serão suficientes para conter a pressão nos preços.