A decisão do Comitê de Política Moneária (Copom) do Banco Central (BC) pelo corte na taxa de juros era a expectativa do mercado há meses, que projetava para esta segunda reunião do ano o início do ciclo de afrouxamento nos juros. Contudo, em fevereiro, com os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã e outros países da região, os projeções ficaram mais embaralhadas, pois, desde então, os preços do petróleo escalaram, o que deve impactar diretamente a inflação no país.

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Com isso, o corte veio em magnitude menor do que o esperado. Foi de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,75% ao ano, o primeiro corte em quase dois anos. A decisão esperada anteriormente era um corte de 0,5 ponto percentual, mas, no comunicado, o Copom aponta para o risco inflacionário com a guerra.

“Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio” e reforça a “postura de cautela em cenário de maior incerteza”. Leia a íntegra do comunicado.

“Com o conflito, a cautela prevaleceu e decidiu-se pelo ritmo menor. Caso esse agravamento das tensões geopolíticas se mostrem temporário, o BC deve voltar a optar por um ajuste mais rápido”, avalia análise do banco BV.  “A sinalização do Banco Central, na nossa opinião, é de que imerso a esse nível de incerteza, ele vai fazer de forma mais devagar, sendo cauteloso nesse sentido. Temos a impressão de que o BC está preocupado com os efeitos defasados da política monetária sobre uma atividade que já desacelerou e essa seria uma das razões iniciar o ciclo de cortes”, afirma Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval.

Copom
Desde o início do conflito no Irã, várias infraestruturas energéticas sofreram ataques e o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% da produção mundial de petróleo, afeta o abastecimento dos mercados globais (Crédito:AFP)

Apesar do aumento de incertezas com o conflito no Oriente Médio, o Comitê diz que o início do ciclo de “calibração” da política monetária era “propício”, “na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta”.

Ainda assim, o Copom reforça sobre postura de cautela e serenidade, e não indica no comunicado a projeção de novos cortes, apontando para que processo de decisão da taxa básica de juros deva incorporar “novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”.

Entre os vetores altistas, destaca Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, o Comitê elencou a possibilidade de câmbio mais depreciado, maior persistência da inflação de serviços e uma desancoragem mais prolongada das expectativas. Por outro lado, riscos baixistas também foram elencados, como uma desaceleração mais intensa da atividade doméstica, um enfraquecimento global mais pronunciado e eventual queda nos preços das commodities.

“A escalada das tensões no Oriente Médio elevou de forma relevante a incerteza global. O comunicado também deu peso significativo aos impactos potenciais do conflito sobre a cadeia global de suprimentos e os preços de commodities. O Copom adotou uma postura equilibrada ao cumprir o guidance da reunião anterior e iniciar o ciclo de cortes, sem perder de vista o ambiente significativamente mais adverso”, avalia a economista.

Marcos Freitas, analista macroeconômico da AF Invest, diz que é possível que o Banco Central tenha realizado algum ajuste no modelo de projeção, “como já ocorreu em outras ocasiões”, mas que isso “deverá ficar mais claro apenas com a divulgação da ata”. A ata da reunião do Copom será divulgada na terça-feira, 23.

Super-Quarta

O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, também teve decisão sobre juros na quarta, e anunciou a manutenção da taxa no país, que segue, então, na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. Esta é a segunda vez que o Fomc (Federal Open Market Committee) decide pela manutenção da taxa e a primeira reunião do comitê após o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

O Comitê norte-americano cita no comunicado que o cenário permanece de “incertezas elevadas”, e a inflação ainda em níveis mais altos para justificar a decisão.