30/01/2026 - 12:21
Os Correios vão reabrir, na próxima semana, o Plano de Desligamento Voluntário (PDV) para funcionários. A medida integra o Plano de Reestruturação da estatal, que tem como objetivo ajustar as contas, reorganizar operações e viabilizar investimentos futuros.
+Trump escolhe Kevin Warsh para substituir Jerome Powell no Fed a partir de maio
+Marina Silva diz que pode ser candidata ao Senado e avalia propostas de partidos
A empresa já comunicou os empregados sobre a nova etapa do programa e informou que será mantido o mesmo valor de incentivo financeiro oferecido na edição de 2025. A principal novidade é a possibilidade de ex-empregados dos Correios, funcionários na ativa e seus dependentes aderirem a um Plano de Saúde Família, com mensalidade menor e cobertura regional.
Outra mudança diz respeito à faixa etária dos participantes. Poderão se inscrever profissionais que ainda não tenham completado 75 anos até a data prevista para o desligamento. Na edição anterior, as regras de idade eram mais restritivas.
Para aderir ao PDV, é necessário cumprir critérios mínimos de tempo de serviço. O funcionário deve ter ao menos dez anos de atuação efetiva na empresa e ter recebido salário por, no mínimo, 36 meses dentro dos últimos 60 meses.
O período de adesão vai até 31 de março. A expectativa interna é que os desligamentos sejam concluídos até o fim de maio. A participação é voluntária e cabe a cada empregado decidir se deseja ou não aderir ao programa.
O que muda para quem sair
Os funcionários que aderirem ao PDV em 2026 terão condições definidas em regulamento, incluindo critérios de cálculo dos incentivos e prazos de pagamento. O programa prevê opções de quitação à vista ou parcelada, conforme as regras vigentes.
A oferta de um plano de saúde com custo mensal menor para ex-empregados e dependentes é apresentada pela empresa como uma forma de reduzir o impacto da saída e facilitar a transição para outras atividades profissionais.
Com a reabertura do PDV, a direção dos Correios adiciona mais um elemento ao processo de ajustes que busca adequar a estatal às atuais condições econômicas do país, em um cenário que deve continuar em transformação nos próximos meses.
Contexto
A reabertura do PDV ocorre em um momento de forte pressão financeira sobre os Correios. Relatórios e análises do setor apontam perdas bilionárias acumuladas nos últimos anos, resultado da queda de receitas, aumento de custos e maior concorrência no mercado de encomendas.
Entre os dois primeiros trimestres de 2025, a estatal registrou prejuízos de vários bilhões de reais, impactada principalmente pela perda de espaço para empresas privadas com modelos de entrega mais ágeis.
Diante desse cenário, a empresa recorreu ao mercado financeiro. No fim de 2025, os Correios captaram R$ 12 bilhões por meio de uma linha de crédito, com o objetivo de estabilizar o fluxo de caixa e dar continuidade ao processo de reestruturação.
Além disso, houve negociações para novos aportes. A estatal chegou a projetar um pedido de empréstimo de até R$ 20 bilhões para aliviar dívidas com fornecedores, obrigações trabalhistas e financiar projetos estratégicos, embora parte das propostas tenha enfrentado entraves relacionados a juros e garantias.
Tamanho do corte de pessoal
Informações divulgadas pela imprensa indicam que o PDV pode atingir um número elevado de empregados. Em declarações recentes, a direção dos Correios mencionou a possibilidade de desligar até 15 mil trabalhadores entre 2026 e 2027, como parte do esforço de redução de custos.
Nesse cenário, a previsão seria de cerca de 10 mil desligamentos em 2026 e outros 5 mil em 2027, de forma gradual e voluntária, para evitar impactos bruscos na operação.
A redução de despesas com pessoal faz parte de um conjunto mais amplo de medidas, que inclui o fechamento de unidades com baixo desempenho, a venda de imóveis sem uso operacional e a revisão dos planos de saúde.
Entenda o plano dos Correios
Com o objetivo de reduzir os déficits registrados desde 2022, os Correios divulgaram no fim de dezembro o seu plano de reestruturação da companhia com previsão de fechar 16% das agências da estatal, o que representa cerca de mil das 6 mil unidades próprias em todo o país, além de um Programa de Demissão Voluntária (PDV) envolvendo 15 mil funcionários até 2027.
O presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, disse que o PDV como parte do processo de reestruturação da companhia deve gerar economia anual de R$ 2,1 bilhões.
Segundo Rondon, o plano de recuperação da estatal será dividido em três partes:
- Recuperação de liquidez no caixa da empresa (curto prazo); com o uso dos recursos emprestados para cumprir compromissos e recuperar qualidade na operação;
- Reorganização e modernização (médio prazo); com estabelecimento de metas de produtividade a partir de janeiro de 2026; criação de planos de demissão voluntária, revisão de planos de previdência, fechamento de unidades deficitárias respeitando o plano de universalização do serviço postal, venda de imóveis e modernização tecnológica da área logística;
- Modernização esquemática do negócio (longo prazo); com contratação de uma consultoria externa para avaliar novas possibilidades de rearranjo societário, como transformação da companhia de uma empresa estatal para uma de capital misto, a exemplo de outras como a Petrobras.
O plano de reestruturação será acompanhado por uma estrutura de governança própria já estabelecida.
As áreas executivas responsáveis pelas mudanças apresentarão relatórios mensais a serem avaliados pelo Conselho de Administração da companhia, pelo CGPAR (Comissão Interministerial de Governança Corporativa e de Administração de Participações Societárias da União) e pelo Ministério das Comunicações.
Privatização está descartada no momento
Rondon também falou sobre uma possível mudança no arranjo societário da companhia, mas descartou a possibilidade de uma privatização dos Correios.
“Hoje não tem o olhar sobre privatização, mas tem o olhar sobre parcerias, inclusive societárias. Tem exemplos de sociedade economia mista, funciona. Tem exemplos em que não há sociedade economia mista, mas há parcerias específicas para temas relevantes, como negócios financeiros e seguridade. A gente também está enxergando dessa forma. O que a gente espera que a consultoria nos traga são estudos que casem com a realidade da empresa no contexto que a gente está”, declarou.
Atualmente, a companhia é 100% pública, mas avalia a possibilidade de abrir seu capital transformando-a, por exemplo, em uma companhia de economia mista, como é hoje a Petrobras e o Banco do Brasil.
Captação de R$ 12 bilhões em empréstimo
A companhia informou ainda que tomou um empréstimo de R$ 12 bilhões com bancos para reforçar o caixa, assinado em dezembro.
Porém, a direção dos Correios ainda trabalha para encontrar outros R$ 8 bilhões necessários para equilibrar as contas em 2026.
De acordo com a estatal, um diagnóstico identificou déficit estrutural superior a R$ 4 bilhões anuais, patrimônio líquido negativo de R$ 10,4 bilhões e prejuízo acumulado de R$ 6,057 bilhões até setembro de 2025, além da queda acentuada nos indicadores de qualidade e liquidez.
“A correção de rota precisa ser feita de forma rápida”, afirmou Rondon, que assumiu o cargo em setembro deste ano prometendo “restaurar o orgulho e a eficiência dos Correios” e sob a expectativa também de modernizar a entidade.
Com Agência Brasil, Reuters e Estadão Conteúdo
